Projecto cultural
Conselho Pontifício da Cultura

A "Via da Beleza", caminho para a Verdade e para o Bem

[Continuação do documento final da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício da Cultura, 2006]

Ao propor uma teologia da estética, von Balthasar pretendeu abrir os horizontes do pensamento à meditação e à contemplação da bondade de Deus, do seu mistério e do Cristo no qual Ele se revela. Na introdução ao primeiro volume da sua obra maior, A Glória e a Cruz, o teólogo evoca esta palavra, “que para nós será a primeira”, a beleza, explicando o seu valor comparado com o do bem, que “também perdeu a sua força de atracção” e onde “as provas da verdade perderam o seu carácter conclusivo”:

“A palavra pela qual começaremos… é: beleza; é ela que para nós será a primeira. Beleza, é a última aventura onde a razão que raciocina se pode arriscar, porque a beleza não faz se não envolver com um brilho imperceptível o duplo rosto da verdade e do bem e a sua indissolúvel reciprocidade; beleza desinteressada, sem a qual o mundo antigo recusava conceber-se, mas que, insensivelmente, se viu dispensada do mundo actual, que a abandonou à sua cupidez e tristeza. Beleza, que mesmo a religião deixou de amar e estimar, e que todavia (…) não deixa de revelar os sinais que ameaçam tornar-se incompreensíveis para os homens. (…)"

“Num mundo sem beleza – mesmo se os homens não dispensam esta palavra, prostituindo-a ao tê-la sem cessar na sua boca –, num mundo que talvez não seja desprovido de beleza, mas que deixou de ser capaz de a ver, de contar com ela, o bem perdeu igualmente a sua força de atracção (…). Num mundo que não se crê mais capaz de afirmar o belo, as provas da verdade perderam o seu carácter definitivo.” (…)

O Padre Turoldo, trovador da beleza, retoma esta afirmação significativa de Divo Barsotti: “O mistério da beleza! Até que a verdade e o bem não se tornem beleza, parecerão restar, de certa maneira, estranhos ao homem, a ele se impondo do exterior; o ser humano adere, mas não os possui; eles exigem da pessoa uma obediência que, de alguma forma, a mortifica”. Conclui o Padre Turoldo: “A verdade e o bem não bastam para criar uma cultura porque, sozinhos, não parecem ser suficientes para criar uma comunhão, uma unidade de vida entre os homens. E porque a cultura é a expressão de um desenvolvimento individual, de uma certa perfeição alcançada, é pela beleza que ela se exprime ao seu mais alto nível.” Desta forma, longe de renunciar a propor a Verdade e o Bem, que estão no coração do Evangelho, trata-se de seguir uma via privilegiada para lhe permitir unir-se ao coração do homem e das culturas. Como sublinhava o Papa Paulo VI na sua vibrante Mensagem aos Artistas, aquando do encerramento do Concílio Ecuménico Vaticano II, a 8 de Dezembro de 1965: “O mundo em que vivemos tem necessidade de beleza para não cair no desespero. A beleza, como a verdade, é a que traz alegria ao coração dos homens, é este fruto precioso que resiste ao passar do tempo, que une as gerações e as faz comungar na admiração.” Contemplada por uma alma pura, a beleza fala directamente ao coração, elevando-o interiormente do espanto ao assombro, da admiração ao reconhecimento, da felicidade à contemplação. Através deste caminho, ela cria um terreno fértil para a escuta e para o diálogo, dado que ajuda a envolver o homem todo, espírito e coração, inteligência e razão, capacidade criadora e imaginação. Com efeito, a beleza dificilmente deixa alguém indiferente: suscita emoções, arquitectando um dinamismo de profunda transformação interior que gera alegria, sentimento de plenitude, desejo de participar gratuitamente nessa mesma beleza, de se apropriar dela, interiorizando-a e integrando-a na sua existência concreta.

A via da beleza responde ao íntimo anseio de felicidade que habita no coração de todas as pessoas. Ela abre os horizontes infinitos que impelem o ser humano a sair de si mesmo, da rotina e do instante efémero, a abrir-se ao transcendente e ao Mistério, a desejar, como objecto último do seu desejo de felicidade e da sua nostalgia de absoluto, esta Beleza original que é o próprio Deus, Criador de toda a beleza criada. Numerosos prelados referiram-se a este aspecto durante o Sínodo dos Bispos sobre a Eucaristia, que ocorreu em Outubro de 2005. A pessoa, no seu íntimo desejo de felicidade, não pode evitar de se deparar com o mal, o sofrimento e a morte. As próprias culturas são por vezes confrontadas com fenómenos análogos de feridas que as podem conduzir até ao desaparecimento. A via da beleza contribui para a abertura à luz da verdade, iluminando a condição humana ao ajudá-la a discernir o misterioso sentido da dor. Ao fazê-lo, ela facilita a cura dessas feridas.

 

A continuar.
Próximo trecho: "As Vias da Beleza"

Documento final da Assembleia Plenária do Conselho Pontifício da Cultura, 2006

© SNPC: Tradução | Publicado em 27.11.2007

 

 

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