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Diálogo

«É urgente que a afirmação da doutrina cristã ganhe dimensão cultural», sublinha cardeal patriarca

O cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, assina o prefácio do livro “O que é o Homem? Sentimentos e laços humanos na Bíblia”, do também cardeal D. Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura.

Na obra lançada em maio pela editora Paulinas, de que este site já publicou alguns excertos, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa sublinha que a proposta cristã tem de ser feita «em chave cultural».

 

Prefácio

Prefaciar a edição portuguesa do livro O que é o Homem? do cardeal Gianfranco Ravasi é, simultaneamente, uma responsabilidade e uma honra. Biblista de renome e conhecido homem de cultura, pode, como ninguém, tratar um tema de grande atualidade: a compreensão do mistério do homem na Sagrada Escritura.

A Igreja continua a insistir, nos diversos âmbitos da sua doutrina, na afirmação e na defesa da dignidade da pessoa humana. Mas é urgente que essa afirmação da doutrina cristã ganhe dimensão cultural, influenciando mesmo aqueles que não escutam, habitualmente, o Magistério da Igreja. Essa visão do homem tem de ser feita em chave cultural, em diálogo com todas as culturas e na atenção ao evoluir da história e da própria mutação cultural. Só um homem de cultura, profundo conhecedor das Escrituras, o pode fazer.

Continuamos a afirmar que a cultura europeia tem uma matriz cristã. Mas ela é posta em causa pela transformação da antropologia, na variedade das diversas filosofias sobre o homem e no desgaste da consciência da dignidade da pessoa humana, provocada pela comunicação e o evoluir das civilizações e das compreensões da vida. E se há dimensão que marca a presença da tradição cristã no evoluir das culturas é, exatamente, a compreensão que se tiver do homem.

Este livro ensina-nos, através da Sagrada Escritura, a continuarmos encantados com o Homem, nos sentimentos do seu coração e na beleza e exigência do amor. Essa é a sua especificidade no conjunto da natureza criada, ser capaz de amor e de se deixar amar. Supõe uma abordagem em chave de racionalidade alargada, em que a razão humana não é, apenas, capacidade de produzir pensamento, mas capacidade de acolher, fruir e contemplar toda a beleza que o Homem recebe do Deus que o criou. O Concílio Vaticano II lembrou que só em Cristo se compreende o mistério do Homem. Ele é o HOMEM. Este livro ajuda-nos a perceber que essa síntese de compreensão, encerrada em Cristo, foi sendo dita ao longo dos séculos, desde que Deus nos criou, e nunca nos abandonou, não desistindo do seu desígnio primeiro.

A Nova Evangelização só incidirá sobre a cultura se for capaz de propor, com clareza e paixão, esta visão grandiosa do Homem. Este livro tem de ser estudado, para que a Igreja continue a propor uma verdadeira antropologia. É um problema de civilização.

 

D. José Policarpo
Cardeal patriarca de Lisboa
In O que é o Homem?, ed. Paulinas
03.06.12

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