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Amigos do peito, amigos na vida e na morte

Uma forma essencial e vitalíssima [do] amor, que desafia a solidão e sobrevive às inclemências do tempo e da história, é a amizade. Falaremos disso, baseando-nos, naturalmente, na percepção bíblica da amizade, mas não deixando de alargar o horizonte em direção a outras visões espirituais e humanas desta virtude, que é, simultaneamente, um dom.

«De todos os bens que a sabedoria procura para a felicidade, o maior é a aquisição da amizade.» Esta é uma das Sentenças de Epicuro (n. 27), [que] exprime de maneira lapidar o apreço constante que o amor amical gozou em todas as culturas, a ponto de constituir uma tipologia literária, filosófica e psicológica, propriamente dita. A Bíblia celebra, repetidamente, esta relação «absolutamente indispensável à vida, porque sem amigos ninguém quereria viver, embora rico de todos os outros bens»: Ben Sira teceu um elogio da amizade, propriamente dita (6,5-17; cf. 37,1-6), elaborando, entre outras coisas, a frase proverbial, segundo a qual «quem encontrou um amigo, descobriu um tesouro» (6,14).

Emblemática é a figura amical, encarnada por David e Jónatas (...). Também é fácil evocar a amizade de Cristo para com os seus discípulos, chamados «amigos», e não «servos» (Jo 15,14-15). Poderíamos apresentar outros exemplos históricos de amizade, a partir do já mencionado vínculo de Paulo a Timóteo, a Tito, a Filémon e aos Filipenses, para passar através da relação entre São Francisco e Santa Clara, entre São Jerónimo e Santa Paula e Eustóquio, entre São Francisco de Sales e Santa Joana Frémiot de Chantal, acrescentando ainda a amizade entre Hans Urs von Balthasar e Adrienne von Speyr, exemplos em que também é significativa a complementaridade dos dois sexos.

Contudo, embora tenha uma componente sentimental, a amizade ultrapassa a sexualidade e o eros; supera o utilitarismo e o interesse, e instala-se no campo da livre doação, da comunhão e da intimidade de vida e de experiência. É por isso que Aristóteles a coloca, sobretudo, na esfera pessoal e na categoria da virtude. Aliás, Cícero declara no seu Lélio ou da amizade (c. 3) que «é a virtude que produz a amizade [...]. É uma aliança que oferece aos homens o melhor e mais feliz meio para caminhar juntamente em direção ao bem supremo».

Esta qualidade ética da amizade é definida por São Tomás de Aquino que, no entanto, reconduz o vínculo amical e uma dimensão mais ampla de cariz social, confirmando a tese, segundo a qual a amizade «é mais uma consequência da virtude do que uma virtude». Deste modo, emergem substancialmente dois rostos da amizade. O primeiro é o do diálogo e da comunhão interpessoal, gerado pela liberdade, pela simpatia, mas também pelo Espírito de amor, pela graça «caritativa». Por isso, há um aspeto de intimidade e de «solidão» entre os dois, já posto em evidência por Aristóteles e por Cícero e assim  explicitado por Plutarco: «A amizade compraz-se com a companhia e não com a multidão [...]. Se se divide um rio em vários canais, o seu curso torna-se débil e enfraquecido. O mesmo acontece com a amizade: enfraquece, à medida que se divide.» Ao falar do vínculo com um amigo caríssimo já falecido, Agostinho afirma, nas Confissões: «Percebi que a minha alma e a sua [alma] eram uma só alma, em dois corpos; por isso, eu tinha horror à vida, porque não queria viver a meias» (4,6,2).

É um vínculo que, no fiel, se transforma na philadelphía, isto é, na fraternidade cristã. Pensemos na relação intensa de Santo Ambrósio com os irmãos carnais Sátiro e Marcelina. A propósito, São Bernardo de Claraval escreve coisas muito subtis, mesmo do ponto de vista psicológico, não só nos seus Sermões sobre o Cântico, mas também no seu epistolário. E confessa a Hermengarda, antiga condessa da Bretanha: «O meu coração está cheio de alegria, quando sei que o vosso está em paz; a vossa satisfação gera a minha; quando o vosso ânimo está bem, o meu sente-se cheio de saúde [...]. Sinto sempre maior alegria em visitar-vos, porque prefiro ver-vos ainda que só, de quando em quando, do que nunca ver-vos» (Carta 117). Ao contrário, o Padre da Igreja da Capadócia, São Basílio (séc. IV), nas suas Constituições monásticas, será severo ao denunciar o risco de amizades particulares e da formação de grupos, capazes de fracionar a vida comunitária.

Na verdade, é necessário conservar o equilíbrio entre as duas exigências. É legítimo que se componha o diálogo pessoal, que se faça uma vinculação mais estrita de ideais e de sintonias, a fim de que não degenere em exclusivismo e em mesquinhez e inveja. O escritor monástico João Cassiano (séc. IV), nas suas Conferências espirituais, distingue o agape – o amor sempre necessário a todos, a alma da existência pessoal e comunitária – da diásthesis, que é a amizade (ou «caridade afetiva») àqueles com quem se tem um vínculo mais direto. O elemento capital na amizade cristã é, precisamente, o reconhecimento que ela é um reflexo da amizade de Deus por cada uma das suas criaturas, e de Cristo pelos seus discípulos. É por isso que o escritor espiritual medieval inglês Aelredo de Rievaulx (1109-1167), no seu escrito clássico A amizade espiritual, está convencido de que, na relação amical perfeita, «o homem, mediante o amigo, torna-se amigo do Homem-Deus».

A amizade é um degrau da escada do amor, em direção a Deus; no rosto do amigo reflete-se o rosto de Cristo. É isto que já São Pedro Damião (1007-1072), cardeal e celebrado autor de textos teológicos, afirmava, escrevendo a um amigo: «Quando olho para o teu rosto, para ti que me és querido, elevo o meu olhar Àquele que desejo atingir unido a ti» (Carta 2,12). Desta maneira, configura-se aquela amizade espiritual ou mística que, pela sua natureza, se irradia na outra dimensão: a eclesial e social. Pelo contrário – como frequentemente se sublinha nos documentos do Concílio Vaticano II –, a amizade deve tornar-se uma modalidade de apostolado; a evangelização deve ser sustentada por uma atitude semelhante; a comunidade eclesial deve cultivar mais frequentemente, no seu interior, relações de amizade; o celibato e a virgindade do sacerdote e dos consagrados não são ofuscados, mas sustentados por uma amizade correta, tanto dos confrades como das consórores, mas também do exterior, com o povo de Deus; nesta linha, os grupos e os movimentos eclesiais têm um modo de exprimir-se e de operar eficazmente, mas precavendo-se para evitar exclusivismos e integralismos.

Poderíamos definir a amizade como um carisma pessoal que, como todos os carismas, só é dado para o bem comum, e animado pelo amor. Como se lê na Imitação de Cristo: «Não deves desejar que alguém esteja completamente preso, no seu coração, por ti, ou que o teu coração esteja totalmente preso pelo amor de alguma pessoa; mas faz com que reine Cristo, não só em ti, mas também em todas as pessoas justas» (2,8,3).

A amizade também tem um relevo social e político. Isto mesmo foi realçado de modo provocatório pelo jurista e filósofo alemão Carl Schmitt (1888-1985), também atento às questões teológicas (Teologia política, de 1922, e Teologia política II, de 1970). Na sua obra O conceito do político (1927), identificou a componente estrutural da política, precisamente, na relação de oposição «Freund-Feind» (amigo-inimigo) – tal como a relação «bom-mau» caracteriza a ética e o «belo-feio» caracteriza a estética. A política é uma relação que se instaura entre os homens, no momento em que surge a possibilidade de um conflito: o nexo político original funda-se na associação e na dissociação, que, por sua vez, se baseiam na amizade e na inimizade.

Mas Schmitt vai mais além e quer precisar o seu pressuposto numa base evangélica, remetendo para Mt 5,44: «Amai os vossos inimigos.» Contudo, faz notar que o texto grego usa o termo echtrós, em latim inimicus, e não polémios, isto é, hostis. Na sua opinião, a distinção é relevante. O inimigo político (hostis) não é aquele por quem nutrimos ódios privados (isto é, o inimicus), mas antes aquele contra quem travamos uma guerra. Por isso, Jesus limitar-se-ia a convidar ao amor que perdoa ao inimigo pessoal, o inimicus, como relativamente a vários aspetos sugeriam os preceitos epicureus ou aristotélicos.

É muito diferente a questão relativa a hostis, o inimigo social, contra quem – ainda segundo Schmitt – é legítimo empreender a ação bélica que a política e o direito não podem nem devem excluir ou julgar, mas somente regulamentar. É sobre esta dialética entre amigos e inimigos que as comunidades nacionais regulam, interna e externamente, a sua história política.

Deixando suspensa a discussão sobre esta visão, fazemos notar que a interpretação da passagem evangélica não tem bases filológicas nem ideológicas. De facto, de um lado, o grego bíblico (e o tardio) não conhece a distinção lexical evocada por Schmitt, pois o termo echtrós abrange não só o adversário privado, mas também o inimigo público. Depois, e por outro lado, a perspetiva do Sermão da Montanha tem um cariz radical e utópico, propondo um modelo que despedaça e supera aquele realismo político tão querido a Schmitt, na esteira de Maquiavel.

A tensão é pela plenitude do amor que ultrapassa a justiça retributiva, em todos os âmbitos, privado e comunitário, e se estende ao infinito de Deus, como se afirma no seguimento da frase sobre o amor aos inimigos: «Fazendo assim, tornar-vos-eis filhos do vosso Pai que está no Céu, pois Ele faz com que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45).

Concluímos a nossa breve reflexão sobre esta realidade humana tão preciosa (e frágil) com uma frase, existente num ensaio sobre a amizade, do filósofo americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882): «O único modo de ter um amigo é ser um amigo.» Por outras palavras: a verdadeira amizade é reciprocidade, sendo um dos muitos rostos do amor. E o amor exige doação, e não possessão, é dom recebido e é zelo pelo outro. Não foi por acaso que o poeta latino Horácio, numa das suas Odes (1,3,8), definiu o amigo como animae dimidium meae («metade da minha alma»), definição de cariz «nupcial» porque – como se dizia (...) – amizade e amor brotam da mesma nascente, embora seguindo percursos autónomos.

 

D. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In O que é o homem?, ed. Paulinas
© SNPC | 19.05.12

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Capa

O que é o homem?

Autor
D. Gianfranco Ravasi

Editora
Paulinas

Ano
2012

Páginas
144

Preço
12,90 €

ISBN
978-989-673-237-0













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