Vemos, ouvimos e lemos
Vaticano II

Arcebispo Primaz de Braga e Bispo do Porto evocam Concílio

Há cinquenta anos, a 25 de Janeiro de 1959, o Papa João XXIII surpreendia a Igreja e o mundo em geral, ao anunciar a decisão de convocar um Concílio. O Página 1 olhou de perto para o que se passou no Concílio Vaticano II, iniciado em 1962 e concluído em 1965.

A convocação, há 50 anos, de um Concílio, apanhou o mundo de surpresa, mas veio marcar toda uma geração de católicos. Os Bispos D. Jorge Ortiga e D. Manuel Clemente, na altura jovens católicos, recordam o modo como acolheram a notícia e viveram o desenrolar dos seus trabalhos.

A seguir à morte de Pio XII, reunidos em Conclave, em 1958, os cardeais elegeram como Papa o então Patriarca de Veneza, Angelo Roncalli, que passa a ser conhecido como João XXIII.

Depois de um longo pontificado - Pio XII foi Papa durante 19 anos – Roncalli, de idade avançada e saúde frágil, foi visto por muitos como um candidato de transição. É neste contexto que o anúncio da convocação de um Concílio, menos de um século depois do último, “rebenta como uma bomba”, apanhando toda a gente, incluindo os seus conselheiros mais próximos, de surpresa. Vinha aí o Concílio Vaticano II, descrito por alguns como o evento mais importante do século XX, que mudaria radicalmente a forma como a Igreja se via a si mesma e ao mundo, abrindo uma nova era para o catolicismo.


Papa João XXIII

 

“Primavera Eclesial”

“Recordo-me que a minha adolescência, até aos 17 anos, foi profundamente marcada pelo Concílio. Havia, efectivamente, um ambiente de expectativa, de autêntica «Primavera Eclesial», que me marcou muitíssimo: na adolescência e no princípio da minha juventude”, explica D. Manuel Clemente, para quem esses tempos marcaram de forma indelével a sua personalidade.  

“Se não tenho vivido esse período nesse ambiente conciliar, certamente não seria exactamente como sou hoje, em termos de vivência de Igreja e de compreensão do mundo e da relação Igreja-Mundo. Eu sinto e penso «à Vaticano II», desde a sua realização”, afirma o Bispo do Porto.

Também D. Jorge Ortiga dá conta do ambiente que se vivia, quando surgiu o anúncio surpreendente: “Foi um acontecimento que acolhi com grande esperança. Estava perto do final dos meus estudos filosóficos, quase a chegar à Teologia, num tempo em que os jovens aspiravam a qualquer coisa de novo. Exigíamos, quase, uma renovação em tudo o que fosse a vida da Igreja, a começar pelo próprio seminário. Foi na esperança que chegasse uma lufada de ar fresco que eu acolhi o anúncio do Concílio”.


Papa Paulo VI em frente à Basílica de S. Pedro (1965). Foto: Carlo Bavagnoli/Life

 

Informação circulava

Os tempos eram outros e a velocidade de circulação da informação não era, obviamente, a de hoje. Ainda assim, tanto D. Jorge como D. Manuel lembram-se de acompanharem o desenrolar dos trabalhos do primeiro Concílio da era da comunicação: “Não havia os meios que há hoje, mas havia outros” explica D. Jorge Ortiga.

“Já na altura, fazia parte da equipa redactora da revista dos seminaristas, “Cenáculo”, que tinha uma permuta com o “La Croix” francês, que todos os dias trazia duas ou três páginas com as intervenções mais importantes dos bispos e alguns comentários e artigos. Nesse aspecto, posso considerar-me um privilegiado, porque, diariamente, ia lendo as intervenções, mesmo antes de os documentos serem aprovados”.

Este privilégio não tocava a D. Manuel Clemente que, ainda assim, se ia mantendo a par “através do boletim paroquial, que era o semanário da minha terra, e através da televisão. As coisas sabiam-se já com uma relativa celeridade”, recorda o Bispo do Porto, acrescentando que “também havia a rádio e a Rádio Renasecença...”.

Aula conciliar
Sessão final do Concílio (Dezembro 1965). Foto: Carlo Bavagnoli/Life

 

Três marcas essenciais

Hoje responsável pela mais antiga diocese de Portugal, D. Jorge Ortiga elenca os três frutos do Concílio que mais o marcaram. Foram a liturgia, “um aspecto que para mim foi muito importante, porque sabemos que a Eucaristia e os outros sacramentos eram essencialmente clericais, era praticamente o sacerdote e mais nada”; a visão da Igreja como Povo de Deus, “que hoje parece muito banal, mas que na altura trazia uma novidade muito grande, no sentido de que todo o baptizado é Igreja e sendo Igreja tem também uma missão concreta e específica”; e finalmente a Constituição sobre a Igreja e o Mundo, Gaudium et Spes: “Apaixonou-me muito, em especial pelas suas primeiras palavras, da Igreja como esperança, como alegria para o povo, integrada e inserida neste mundo concreto”.

O Concílio, iniciado em 1962, apenas terminaria em 1965, já sob os auspícios do Papa Paulo VI. Em poucos anos, muito tinha mudado e a vida da Igreja nunca mais seria a mesma.

Filipe d'Avillez (com Catarina Santos e Letícia Amorim)

in Página 1

02.02.2009

 

Subscreva

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Aula conciliar
Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada