Vemos, ouvimos e lemos
Debate

Criação e Evolução

A revista “L’Histoire” dedica uma parte significativa da sua edição de Fevereiro à relação entre criação e evolução. Ao longo de vinte e cinco páginas apresenta-se o percurso histórico do darwinismo, é abordado o regresso do criacionismo, sintetiza-se a posição do Islão em relação ao assunto – ficamos a saber que uma seita fundamentalista pretende fazer uma aliança sagrada com os criacionistas europeus – e refere-se a opinião de alguns rabinos judeus.

Uma das secções do dossier reflecte sobre a atitude do Vaticano face a Teilhard de Chardin, que alimentou o ressentimento da comunidade científica face à Igreja.

A última parte do artigo consiste numa entrevista a Jean-Robert Armogathe, padre e cientista. Publicamos seguidamente essa conversa, lembrando o tema da 29.ª Semana de Estudos Teológicos da Faculdade de Teologia, dedicada à criação e evolução, que hoje começa em Lisboa e que se prolonga até ao dia 21.

Depois da transcrição da entrevista incluímos um breve léxico, também retirado do mesmo número da revista L’Histoire.

 

L’Histoire
A quando remontam os primeiros conflitos entre a Igreja e a ciência? Pode falar-se de um divórcio entre fé e ciência?

P. Jean-Robert Armogathe
Em vez do termo “divórcio”, prefiro “ruptura” e “ressentimento”. A ruptura produziu-se no século XVIII. Mas para compreender os motivos é preciso antes de mais recordar que, na origem, a ciência moderna e o cristianismo estão unidos por um laço estreito.
As ideias científicas nascem a partir de conceitos provenientes da tradição bíblica judia e cristã: um Deus criador e ordenador de um universo submetido a leis físicas; um tempo que se esgota de maneira irreversível, orientado para o fim do mundo; um universo habitado por espíritos imateriais, os anjos, cuja existência coloca um certo número de questões – como é que se deslocam? Como é que comunicam entre eles? –, fornecendo ao pensamento humano modelos teóricos. Esta tradição bíblica alimentou a abstracção da inteligência humana e fundou uma antropologia que repousa sobre a incarnação de Deus e sobre a tripla componente da pessoa – corpo, alma e espírito –, fundamental no pensamento ocidental.
É verdade que o contexto económico e social também teve o seu papel; mas as ideias teológicas foram determinantes na emergência das ciências modernas – a astronomia, as matemáticas, a química, a física ou as ciências humanas.
Nos primeiros séculos da Idade Média, a Igreja erigiu instituições de saber. Os clérigos, na sua vontade de recopiar, de recolher textos, constituíram bibliotecas nos mosteiros e as primeiras escolas carolíngias. Este esforço monástico de pesquisa e de instrução permitiu que a ciência emergisse.
Pensemos nos franciscanos de Oxford do século XIII, que se interessavam pelas leis da física. Ou na escola filosófica e teológica dita de Chartres, no século XII, nos pensadores Guillaume de Conches, Bernard de Chartres ou Jean de Salisbury. Estes teólogos estavam desejosos de explicar a natureza a partir de um Deus criador, mas eles procuraram igualmente as leis racionais que Ele elaborou. O mundo tornou-se inteligível porque foi criado por um espírito inteligente.

A Terra no centro do cosmos
Concepção de Ptolomeu: a Terra no centro do universo

L’Histoire
O que é que aconteceu para que esse laço estreito entre fé e ciência tivesse sido colocado em causa?

P. Jean-Robert Armogathe
Confrontada com a reforma protestante, a Igreja Católica encrespou-se e centrou-se somente na Escritura, que quis interpretar no seu sentido mais literal, reproduzindo deste modo a via protestante. Até então o cristianismo tinha-se alimentado também da Tradição. Grandes sábios cristãos, como, no século III, Orígenes, ou, no século seguinte, Agostinho, interpretaram a Escritura num sentido alegórico, antropológico e moral. Na Idade Média encontrava-se na Bíblia uma bela história para contar, os exemplos a seguir.
O literalismo que nós observamos ainda hoje nos fundamentalistas é uma invenção do século XVII. Com as Reformas, a Igreja Católica endureceu as suas posições: o Papa viu o seu poder reforçado. Fala-se de uma acção disciplinadora das Igrejas, tanto do lado protestante como do católico.
Não é por isso por acaso que a ruptura entre a fé e a ciência se produziu no século XVII. É o momento onde aparecem as consequências da cisão da cristandade ocidental, mas também da Europa sobre o mundo, no seguimento das grandes descobertas. A imagem tradicional do mundo foi transfornada.
Paralelamente, os matemáticos tornaram-se a ferramenta de referência dos cientistas. Ora os matemáticos fazem parte de um sistema autónomo. A “‘matematização’ do mundo” permite assim que a ciência se autonomize e se separe da revelação bíblica.

 

L’Histoire
Que figura científica ilustra melhor esta revolução? Copérnico?

P. Jean-Robert Armogathe
Não, a “matematização” do mundo é, antes de tudo, obra de Galileu, e depois de Descartes e de Newton. É verdade que Copérnico, no fim do século XVI, é o primeiro a pensar o heliocentrismo, o facto de a Terra não se encontrar no centro do universo e que ela gira em torno do Sol. Mas as suas preocupações são em primeiro lugar teológicas e filosóficas. Este cónego polaco propôs uma explicação do sistema solar sobre um mundo platónico, colocando no centro o elemento mais quente e brilhante: o Sol.
A verdadeira revolução dá-se com Galileu, que inventa o telescópio em 1609; ele observa o céu, os planetas, conseguindo comprovar cientificamente a hipótese de Copérnico.

Heliocentrismo
Concepção de Copérnico: o Sol ao centro

L’Histoire
Face a estas descobertas científicas, a Igreja sentencia condenações. Foi assim que Giordano Bruno foi queimado em 1600.

P. Jean-Robert Armogathe
Sim, mas Giordano Bruno é um caso à parte. Certos especialistas continuam a ver neste dominicano uma figura profética, um sábio moderno que foi perseguido. Outros têm dele a imagem do último mago da Idade Média. É preciso diferenciar bem o homem da sua lenda.
Uma primeira acusação de heresia, em 1575, levou este filósofo italiano a deixar a Ordem dos Dominicanos e a percorrer a Itália numa vida errante. Bruno era partidário da teoria de Copérnico, que rapidamente ultrapassou, postulando a infinidade do universo e a pluralidade dos mundos. O que lhe interessava não era tanto o heliocentrismo, mas a nova visão do mundo que a desclassificação da Terra poderia implicar.
Bruno foi por fim condenado pela Inquisição, por magia, tendo sido conduzido ao lugar da execução capital a 17 de Fevereiro de 1600, em Roma. Na realidade ele era panteísta: não podia ser herético porque, de todo, não era cristão.
Bruno é sobretudo uma personalidade complexa que procurou o martírio. Ao fim de oito anos de processo, entre 1592 e 1600, quando todos estavam prontos a abandonar as perseguições, ele tudo fez para se condenar ao reiterar as suas convicções sobre a pluralidade dos mundos. Mas a sua morte trágica fez nascer uma lenda negra, que alimentou durante muito tempo o ressentimento entre a Igreja e os cientistas.
Resta dizer que Bruno não foi matemático. Contrariamente a Galileu, não representa a ciência nova do século XVII.

 

L’Histoire
O próprio Galileu foi perseguido e, na sequência do seu processo, em 1633, teve de renunciar às suas teorias. De que é que a Igreja o acusava – de ter deixado de colocar a Terra e o homem no centro da Criação?

P. Jean-Robert Armogathe
Os estudos recentes mostram que deixar de considerar a Terra como o centro do sistema solar não causou o trauma que se imaginou. Porquanto ela continuava no centro do sistema planetário, era o planeta entre Marte e Vénus. O sistema heliocêntrico não foi por isso entendido como uma humilhação do homem no universo. Aliás, jesuítas do Colégio Romano, e o grande sábio Clavius, próximo do Vaticano, também defenderam o heliocentrismo. A verdadeira repreensão dirigida a Galileu foi a de ensinar o heliocentrismo como uma verdade que excluía as demais teorias. Isso seria negar a verdade literal da Bíblia, segundo a qual “o Sol parou no meio do céu e não se apressou a pôr-se durante quase um dia inteiro” (Jos 10, 13) para permitir aos Israelitas triunfar sobre os seus inimigos.
O que se passou com Galileu ilustra o distanciamento entre uma Igreja que se centra numa leitura literal da Escritura e uma ciência que passa a entender-se como independente da revelação bíblica. Esta vontade de autonomizar a ciência em relação à fé exprime-se na famosa carta de Galileu à duquesa Cristina de Lorraine, em 1615: “A Escritura não ensina como é o céu, mas como se vai para o céu”.
Não esqueçamos, no entanto, os desafios sociais e económicos desta progressiva autonomização da ciência. O século XVII marca o início de uma certa modernidade económica. E a criação do mecenato científico e das academias. A partir de então, graças aos subsídios, os cientistas puderam ganhar a vida e elevar-se socialmente.

 

L’Histoire
Os cientistas distanciaram-se da Igreja?

P. Jean-Robert Armogathe
Não no século XVII. Os cientistas continuam a ser bons cristãos. Por exemplo, Robert Boyle, o “pai da química inglesa”, legou em testamento uma quantia considerável a uma fundação que deveria ler todos os anos verdadeiros sermões contra o ateísmo…
Mais: alguns tentaram apoiar a religião sobre a ciência. É desta forma que os defensores da “teologia natural” procuraram nas descobertas científicas o meio de ilustrar o discurso cristão acerca da criação do mundo. Esta defesa da religião que passa pela integração de um discurso científico vai permanecer ao longo do século XVIIII.

Cromossomas
Cromossomas

L’Histoire
Quando é que a ciência e os cientistas se separaram totalmente da religião?

P. Jean-Robert Armogathe
É preciso esperar pelo século XIX, com pensadores como Feurbach, Marx, Darwin e Freud. Do século I ao XIX funcionou a ideia de um homem criado à imagem de Deus e de uma relação privilegiada entre o homem e Deus. As formas de contestação, incluindo as formas de ateísmo nos séculos XVII ou XVIII, apoiam-se sobre esta concepção do homem imagem de Deus, mesmo que fosse para a refutar.
No século XIX, pela primeira vez, Deus aparece como uma construção, uma projecção do homem. Quando Darwin publica em 1871 “A ascendência do homem e a selecção natural”, a Igreja acusa-o de negar a ideia fundamental do homem imagem de Deus e o papel providencial da evolução orientada para um fim. Mais tarde, com Freud e o seu “Moisés e o monoteísmo” (1939), Deus torna-se uma construção mental do homem que projecta nele a imagem do pai.
Face estas posições, mas também devido à perda do poder temporal dos papas e à descristianização, a Igreja sente-se ultrapassada pela investigação científica.


L’Histoire
Então não será mais apropriado falar de um divórcio?

P. Jean-Robert Armogathe
Eu não seria assim tão categórico. Em certos domínios, a fé e a ciência continuaram a trabalhar bem em conjunto. Um belo exemplo é-nos dado por Gregor Mendel. Nos anos de 1860, este monge agostinho é o primeiro a descrever as consequências da hereditariedade, continuando o seu percurso eclesiástico na Áustria-Hungria. Num mosteiro, do qual era abade, teve à disposição um verdadeiro laboratório para fazer as suas experiências.
É também nessa altura que a Igreja optou por se adaptar aos progressos técnicos: a iluminação eléctrica fez a sua aparição nos lugares de culto, a rádio é utilizada para as emissões religiosas. Chega-se mesmo a construir um elevador no Vaticano!
Mas estes factos apenas dizem respeito aos progressos técnicos. É incontestável que as relações entre a Igreja e a ciência se deterioraram durante o século, o que levou à crise do modernismo.

L’Histoire
O que é a “crise modernista”?

P. Jean-Robert Armogathe
Em 1907 o Papa Pio x consagrou o termo “modernista” na sua encíclica “Pascendi” para denunciar aqueles que, segundo ele, ao defender a aplicação na Escritura dos métodos científicos da crítica histórica, ameaçavam a Igreja. Ele visava nomeadamente o exegeta Alfred Loisy, que foi destituído.
Ora, paradoxalmente, a crise modernista retardou o regresso a uma leitura simbólica da Bíblia: para contrariar a ofensiva dos modernistas, os exegetas quiseram fazer a “sobrecrítica” bíblica, sendo assim tão historicistas como os modernistas.
Por exemplo, durante muito tempo a Igreja interessou-se pelas escavações de Jericó, esperando que se encontrassem vestígios das muralhas, que, segundo a narração de Josué, se desmoronaram quando Deus fez soar as trombetas. No entanto as pesquisas arqueológicas mostraram que Jericó, à época, era apenas uma aldeia, sem muralha. A narração de Josué deve, portanto, ser lida simbolicamente.
Esta leitura simbólica, já presente na Idade Média, foi autorizada a partir de 1943 na encíclica “Divino Afflante Spiritu”, de Pio XII. Nela o papa reconhece”a legitimidade do discernimento dos géneros literários na Escritura”.
Desde então multiplicaram-se as leituras simbólicas da Bíblia. A Igreja abandonou a ideia de que a história se desenrolou tal como se descreve na Bíblia. Sabe-se a partir dessa altura que os seus autores tinham uma intenção, visavam um público. Este renovação está bem presente no “Jesus” de Bento XVI.

Capa da revista

L’Histoire
A Igreja amaciou as suas posições em relação ao darwinismo?

P. Jean-Robert Armogathe
Sim. Na sua encíclica “Humani generis”, de 1950, Pio XII explicou que não havia oposição entre a evolução e a doutrina da fé sobre o homem, não deixando de sublinhar que era preciso não adoptar o darwinismo como se ele fosse uma doutrina certa e demonstrada.
Em 1996, João Paulo II proferiu as seguintes palavras na Academia Pontifícia das Ciências: “Os novos conhecimento levam a não considerar a teoria da evolução como uma simples hipótese”. Mas acrescentou que existem diversas teorias da evolução, algumas das quais são materialistas e, portanto, incompatíveis com a fé católica: o que aqui está em jogo não é a ciência, mas a ideologia materialista.
O último documento que trata da evolução é um texto da Comissão Teológica Internacional, “Comunhão e Serviço. O Homem criado à imagem de Deus”, publicado em 1994. Ele lembra que se os católicos crêem no plano providencial de Deus que se exerce sobre o mundo, não há nenhuma objecção teológica a que Deus seja causa e esteja incluído no acaso.
Se não se crê em Deus, o acaso não é mais do que o acaso. Mas que a selecção natural seja um estrito produto do acaso é uma crença ao mesmo nível que a crença num «intelligent design”. São duas posições igualmente dogmáticas.
É forçoso constatar que o crescimento do cérebro humano teve um conjunto de consequências consideráveis sobre o homem e sobre o seu ambiente, e que a criação do homem é um acontecimento único na história da evolução. É preciso ver aí a mão de Deus ou a do acaso? Chegados a este ponto, todos nós somos crentes.

 

L’Histoire:
Ainda existem actualmente motivos para o conflito entre a ciência e a fé?

P. Jean-Robert Armogathe
Presentemente o ponto sensível é a ética médica. Os conflitos centraram-se em primeiro lugar no aborto e na contracepção. Actualmente eles dizem respeito à questão das células estaminais e da experimentação embrionária. Sobre isto a Igreja nem sempre está de acordo com certos meios científicos. Ela adoptou uma dupla estratégia: antes de mais, sublinhar que o importante é o homem ser “imagem de Deus”; em segundo lugar, encorajar as pesquisas científicas que estejam de acordo com uma visão cristã do mundo – é essa a missão da Academia Pontifícia das Ciências.
Hoje, as diferenças entre a ciência e a fé deixaram de se centrar nas questões do cosmos e da criação-evolução, tendo-se transferido para o problema da vida humana.

 

Um léxico

Criacionismo
Surgido nos meios evangélicos, como reacção à teoria da evolução, esta doutrina sustenta que a narração do livro do Génesis deve ser aceite à letra. Esta corrente é particularmente forte nos Estados Unidos.

Darwinismo
Nome dado, frequentemente com uma matiz pejorativa, quer à teoria da evolução elaborada por Darwin, quer a algumas das suas interpretações reais ou supostas. Há duas questões que estão particularmente em causa: a animalidade do homem e o princípio segundo o qual a evolução seria conduzida pelo acaso.

Darwinismo social
Defendido à origem por Herbet Spencer, contemporâneo de Darwin, esta teoria procura explicar as desigualdades sociais, as guerras de conquista, etc. como manifestações da selecção natural no homem (resumida na fórmula da “sobrevivência dos mais aptos”). Este pensamento deu origem a teorias extremas, tanto na direita como na esquerda.

Intelligent design
Ideia segundo a qual a evolução das espécies é organizada por uma inteligência superior. A teoria foi aperfeiçoada nos Estados Unidos, a fim de fornecer aos fundamentalistas uma concepção mais científica do que o criacionismo.

Teoria da evolução
Formaliza a ideia que as espécies evoluem. Esta ideia, já presente em Lamarck, no início do século XIX, ganha uma dimensão científica com Darwin: as espécies evoluem por meio da selecção natural, que se exerce sobre os indivíduos. No termo do processo, as espécies menos adaptadas ao seu ambiente acabam por desaparecer.

 

Artigos relacionados:

Uma questão de sensatez - Bento XVI e a complexidade do tema da evolução - criação.

Sobre os actuais debates em torno do Evolucionismo

Aspectos metafísicos de uma teoria biológica

rm

© SNPC: tradução | 18.02.2008

 

 

Topo | Voltar | Enviar | Imprimir

 

 

barra rodapé

Capa da revista


























P. Jean-Robert Armogathe P. Jean-Robert Armogathe
Edição mais recente do ObservatórioOutras edições do Observatório
Edição recente do Prémio de Cultura Padre Manuel AntunesOutras edições do Prémio de Cultura Padre Manuel Antunes
Quem somos
Página de entrada