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Bíblia

No Dia do Livro, uma explicação sobre o livro dos livros

O texto prepara o encontro com o leitor

Fernando Pessoa, no Livro do Desassossego, diz que «sem sintaxe não há emoção duradoira». A breve locução que proponho trata de sondar através de um dos dispositivos técnicos da Escritura, o da indeterminação, a forma como a experiência de Jesus se torna uma «emoção» existencialmente decisiva no Evangelho de João.

Na primeira conclusão do Evangelho, o narrador formula a intenção retórica da obra: «Jesus fez, diante dos seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se encontram escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.» (Jo 20,30-31). O Evangelho apresenta-se assim como uma escritura destinada a provocar a fé. A esta luz, a leitura desejada pelo próprio texto não é aquela que serve ao mero acréscimo de informação sobre a biografia de Jesus, nem a que se configura como perscrutação textual que mantém salvaguardadas as distâncias. Espera-se do que lê que sinta não apenas a sedução ou o prazer da leitura, mas que de alguma maneira se deixe impregnar do segredo que o texto guarda. O leitor previsto pelo texto acolhe a fé exposta e proposta no Evangelho.

Página de Bíblia

Mas como é que o texto evangélico prepara o encontro com o leitor? Um contributo precioso que a narratologia tem prestado à exegese bíblica é esta insistência a que não se atenda simplesmente aos conteúdos da história contada (a história de um certo Jesus), mas também ao modo como ela é contada (os meios que serviram à narração dessa história). João revela Jesus não apenas porque conta a sua história, mas porque a conta de uma determinada maneira. Podemos assim dizer que forma e fundo se reclamam mutuamente, e, por consequência, não há aspectos principais e secundários na estratégia evangélica de revelação, pois o que se consideraria apenas como anotações formais ou estilísticas representa afinal importantes instrumentos que conspiram para a manifestação do sentido.

ImagemSão João e a visão de Jerusalém (Alonso Cano)

Dentre os meios da arte expressiva de João, um dos mais admiravelmente desconcertantes é o recurso à indeterminação. O objectivo do Evangelho está bem definido (foi escrito «para crerdes que Jesus é o Cristo», Jo 20,31), mas a narrativa evangélica apresenta-se como uma história aberta. Em vez de conclusões dirimentes, a trama opta por uma composição paciente: não há pressa em calar perguntas, nem em dissolver ambiguidades, nem em impedir interpretações inconclusivas que, por vezes, até os mais próximos fazem das palavras de Jesus. A indeterminação instaura entre o texto e o leitor uma espécie de espaço em branco, um patamar vazio, um tempo que ainda não começou. Como que se insinua que o mistério que rodeia Jesus está e não está resolvido, para que precisamente esse interstício se revele como possibilidade de inscrever uma nova e actual demanda. A indeterminação é, portanto, a construção retórica de um encontro.

ImagemS. Jerónimo (Lorenzo Monaco)

Passemos às diversas categorias de que se reveste a indeterminação:

O enigma
No início do Evangelho, dois dos discípulos de João Baptista colocam--se no encalço de Jesus: «Mestre, onde moras?», perguntam-lhe. Mas Jesus não explica, desafia: «Vinde e vede.» E o texto de Jo 1,39 informa-nos que eles, de facto, «foram, viram onde morava, e permaneceram com ele aquele dia». A formulação não podia ser mais clara, nem mais enigmática! Por um lado afirma-se a acessibilidade ao território existencial e simbólico de Jesus, por outro mantém-se o segredo. Os discípulos permanecem com Jesus; o leitor sabe, por isso, que é possível permanecer na sua companhia. Mas o endereço geográfico onde o encontro se dá mantém-se indeterminado! Ao contrário de João Baptista, que operava no identificado território de «Betânia, do outro lado do Jordão» (Jo 1,28), o território de Jesus fica ostensivamente inominado. Este primeiro dos enigmas que pontuam a narrativa mostra ao leitor que a descoberta de Jesus acontecerá apenas se também ele acolher o reiterado convite (Jo 1,46), «vem e vê».

Página da Bíblia

 

O mal-entendido
A técnica narrativa do mal-entendido é sistematicamente explorada no IV Evangelho. Há um esquema que se repete com frequência: Jesus faz uma declaração ambígua, cujo verdadeiro sentido está indeterminado. Aqueles que O escutam interpretam-no literalmente e insurgem-se contra a sua declaração. Na maior parte dos casos, a explicação correcta é a seguir fornecida por Jesus ou algumas vezes pelo narrador. Conta-se, por exemplo, em Jo 7,33-36: «Disse Jesus aos judeus que haviam acreditado Nele: "Se permanecerdes na minha palavra sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Retorquiram-lhe: "Somos a descendência de Abraão e jamais fomos escravos de alguém. Como podes dizer: 'Tornar-vos-eis livres?'"» Ou em Jo 8,21-22: «Jesus disse-lhes ainda: "Eu vou e vós me procurareis e morrereis em vosso pecado. Para onde eu vou vós não podeis vir." Diziam, então, os judeus: "Por acaso, irá ele matar-se? Pois diz: 'Para onde eu vou, vós não podeis vir?'" Ele, porém, dizia-lhes: "Vós sois daqui de baixo e eu sou do alto. Vós sois deste mundo, eu não sou deste mundo."»

ImagemBíblia de Winchester

A ironia
A ironia é um modo de discurso que diz o falso para fazer compreender o verdadeiro, sem, no entanto, procurar um efeito cómico. No capítulo nove de João, que conta a cura do cego de nascença, estamos perante uma dupla ironia: ironia de situação e verbal. A leitura do v. 24 (onde os judeus insistem com o homem curado para que se retrate: «Dá glória a Deus! Sabemos que esse homem [Jesus] é pecador») ou do v. 40 («Alguns fariseus, que se achavam com ele, ouviram isso e disseram a Jesus: "Acaso também nós somos cegos?"») mostra-o com evidência. No primeiro caso, exortando o que fora cego a dizer tal verdade sob o olhar de Deus, os fariseus estavam precisamente a insistir no inverso do que é proclamado pelo seu saber: curar um cego não podia ser um sinal de pecado. No segundo caso, eles confessam involuntariamente a verdade: rejeitar aquele que curou o cego testemunha a sua própria cegueira: «Acaso também nós somos cegos?» O narrador faz surgir a ironia orquestrando uma discordância entre o discurso dos judeus e a situação de cura.
Mas a ironia é também verbal: Quando os judeus fazem um interrogatório cerrado ao homem curado ele responde ironicamente: «Já vos disse e não ouvistes. Por que quereis ouvir novamente? Por acaso quereis também tornar-vos seus discípulos?» (v. 27).

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O universo textual é, por sua natureza, inacabado. Ele compreende tanto aquilo que está explicitamente dito, como o não-dito, o insinuado, o suposto, aquilo que o texto conserva em níveis mais profundos. Entendemos assim que todo o texto transporte em si uma esperança do leitor, ou para dizer de maneira diferente, o leitor seja sempre implícito ao texto, na medida em que «todo o texto precisa que alguém o ajude a funcionar». E mais: «que a própria narração, como diz Jean Delorme, tenha o seu modo de fazer aparecer um sujeito para a escutar... Sem se dirigir a ele, ela capta as suas faculdades e coloca-as em acção.» E isso é absolutamente vital, já que a produção de sentido nasce deste pacto entre texto e leitor.

Página da Bíblia

A categoria da indeterminação é um recurso que o texto tem de solicitar, mas também de orientar a tarefa do leitor. Colocado perante uma narração deste tipo, o auditor/leitor realiza a experiência de estar envolvido, de lhe dizer respeito a história, sentindo-se, mais do que espectador, um verdadeiro actor imerso na palavra anunciada. Sem o dizer expressamente, o texto atrai o leitor, propondo-lhe ao mesmo tempo um certo número de convenções, que estabelecem com ele um determinado contrato de leitura. O texto não precisa simplesmente de um leitor, mas de alguém capaz de cooperar para a actualização textual, segundo o modo em que o autor a pensou. «As indeterminações ensinam o leitor a ler o Evangelho. Chamam-lhe a atenção para as metáforas, os duplos sentidos e as significações plurais inscritas no texto» - recorda Culpepper, numa obra que tem marcado as abordagens recentes ao texto joanino.

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A indeterminação pressupõe e confirma assim uma intensa cumplicidade entre autor e leitor. Contudo, a indeterminação não é apenas uma linguagem para iniciados. Ela é hoje sobretudo, não o podemos perder de vista, uma linguagem de iniciação: mostra ao leitor do nosso tempo como deve ser lido este texto com dois mil anos. Avançando no Evangelho com um sentido que a sua leitura entreabre, o leitor descobrirá novos e mais profundos níveis de significação. A indeterminação suscita no interior do acto da leitura uma dinâmica que é de revelação e que é igualmente a Revelação.

 

Nota: Esta transcrição omite as notas de rodapé do texto original.

 

José Tolentino Mendonça
In A leitura infinita - Bíblia e interpretação, ed. Assírio & Alvim
23.04.10

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Primeiras palavras do
Evangelho segundo São João

 

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