Teologia
Didaskalia assinala 40 anos com volume sobre "A ciência litúrgica"
A Didaskalia, revista semestral de Faculdade de Teologia (Lisboa) da Universidade Católica Portuguesa, dedica o dossier da edição comemorativa do 40.º aniversário ao tema “A ciência litúrgica”.
Apresentamos seguidamente os autores, títulos e sumários deste volume, correspondente ao fascículo 2 de 2010, com 238 páginas.
A Santa Vinha de David
Joaquim Oliveira Bragança
“A Santa Vinha de David” necessitava, na sua exploração teológica, de mais maneio do seu solo, para que os frutos da reflexão, colhidos de cepas selecionadas, fossem degustados numa leitura multiplicada em aromas espirituais. O presente trabalho de Joaquim O. Bragança não tem por objetivo dar a conhecer uma vinha de região demarcada, algures nas encostas solarengas de Israel, mas aprofundar o sentido duma locução teológico-litúrgica, cuja formulação se encontra no capítulo IX (n. 2) da “Didaché”: «Nós te damos graças pela santa vinha de David… que nos revelaste por Jesus». Depois de observações preliminares, relativas ao significado filológico de certos termos e sobre a natureza das preces eucarísticas dos capítulos IX e X da “Didaché”, o assunto é tratado de forma mais pormenorizada na literatura patrística dos séculos II e III: nos escritos de Hermas, Justino o Mártir, Ireneu de Lyon, Hipólito de Roma e, ainda que em breve apresentação, no célebre apócrifo da “Dormição de Maria” (ms. Vaticano Grego 1982). A hermenêutica dos textos permite ao autor captar o significado de várias determinações e relações da “Santa Vinha de David”, e concluir que muitas das mensagens de natureza teológica e espiritual conservam ainda hoje plena atualidade.
Lo studio del lezionario e dell’eucologia nella Celebrazione eucaristica. Riflessioni metodologiche
Giuseppe Midili
O presente estudo, que assenta sobre o princípio de unidade que se vem a formar entre as várias componentes da celebração eucarística – Palavra e Eucologia –, desenvolve uma proposta metodológica implicitamente contida na “Sacrosanctum Concilium” 56. Examinando os textos individualmente, a investigação inscreve os seus resultados numa visão unitária da celebração. A Missa apresenta-se não como súmula das partes singulares que a compõem, mas como o fruto de uma reflexão eclesial que colhe no avizinhamento dos textos, inpirados pelo Espírito Santo, a teologia litúrgica da celebração. Os componentes integram-se, assim, num contexto novo, dentro do qual conservam o seu valor original, mas adquirem um significado inédito e único: aquele celebrativo. Através da pesquisa bibliográfica pós-conciliar pode-se concluir que uma análise da Missa como unidade só marginalmente tem sido acenada. Os estudiosos limitaram-se a aprofundar um dos dois aspetos: escriturístico ou eucológico. O presente contributo propõe, por isso, uma novidade: estabelece as coordenadas metodológicas para uma análise daquele que é um único ato de culto (“Sacrosanctum Concilium”, 56). Artigo escrito em italiano.
A hermenêutica da continuidade do ministério ordenado
José Manuel Cordeiro
O presente artigo traça um quadro diacrónico e tipológico, para a fundamentação da ministerialidade, mostrando uma hermenêutica da continuidade do ministério ordenado bem definida na Igreja local com a figura do bispo, rodeado do presbitério e coadjuvado pelos diáconos, salientando, simultaneamente, a sacramentalidade do ministério na união com Cristo e a Igreja.
Este estudo teológico-litúrgico evidencia que as diferenças na imposição das mãos são, em si, reveladoras das diferentes relações entre os ministérios. Assim, o bispo é membro do colégio episcopal, os presbíteros são o conselho do bispo e membros do presbitério e o diácono está ao serviço do bispo. Na verdade, o sacramento da Ordem estabelece uma íntima relação entre a celebração litúrgica e a teologia do próprio sacramento. Da celebração nasce o ministério e, por sua vez, o ministério determina a celebração. A compreensão da liturgia, qual celebração dos mistérios da fé «per ritus et preces», permite atingir a verdade profunda dos ministérios ordenados.
A homilia como género literário - Mestre Eckhart e a palavra nova
José Augusto Mourão
O género discursivo é o depósito da memória comunitária reunida na produção das enunciações e dos textos. O que está em causa neste texto não é a homilia como género literário, mas a sua operatividade, as suas instâncias de enunciação. A homilia não é um género só, dada a multiforme discursividade com que se manifesta ao longo da história. Pregar é traduzir, iluminar, mais do que explicar ou comunicar. É a ideia de “locutio” que falta, trabalho de mistagogia, na falta da interlocução. Onde está a palavra nova para que Dante acenou e que Mestre Eckhart pregava?
Fragmentos litúrgicos de Braga
Joaquim Félix de Carvalho
A descoberta, catalogação, edição e estudo de fragmentos de códices medievais é um setor importantíssimo para conhecer melhor as tradições litúrgicas. Para o rito bracarense é imprescindível, uma vez que a maior parte dos códices, que estiveram na sua origem e mesmo já do período da sua constituição, se perderam lamentavelmente. Em atenção a este reconhecido e renovado interesse, o presente artigo fornece, por ordem cronológica, uma panorâmica, breve mas atualizada, acerca de fragmentos litúrgicos de Braga. São tidos em consideração os trabalhos de António de Vasconcelos, Justo Pérez de Urbel, Germán Prado, Avelino de Jesus, Pierre David, Solange Corbin, Jorge Barbosa, Jordan, Romano Rocha, Joaquim Bragança, Joaquim Félix e, finalmente, Pedro Ferreira, que coordena neste momento um projeto de inventariação e reprodução digital de manuscritos com notação musical.
A Ciência Litúrgica como disciplina universitária. Manuel de Azevedo S.J. (1713-1796) e as primeiras cátedras de ciência litúrgica
Carlos Cabecinhas
A ciência litúrgica, como disciplina do curso teológico, só foi incluída nos currículos teológicos no século XVIII. Este artigo ocupa-se do processo de criação e estruturação das primeiras cátedras de Liturgia, a saber: a “Schola Sacrorum Rituum” do Colégio Romano, a cátedra de Ritos Sagrados da Academia Litúrgica Pontifícia de Coimbra. Ambas as cátedras estiveram ligadas à figura do jesuíta Manuel de Azevedo. Indiretamente, também a cátedra de “Teologia Litúrgica” da Universidade de Coimbra, criada em 1772 pela reforma pombalina da Universidade, teve influência do jesuíta. Depois de Manuel de Azevedo, outras cátedras de Liturgia surgiram, mas ao jesuíta cabe o mérito de ter dado início a tal movimento: foi ele o primeiro a reivindicar explicitamente para a ciência litúrgica um lugar entre as disciplinas teológicas e foi com ele que a ciência litúrgica entrou no grupo das disciplinas universitárias.
O Movimento litúrgico e a redescoberta da qualidade teológica da liturgia. António Coelho e a dimensão teológica do Mistério celebrado
Bernardino Costa
A “teologia litúrgica” nasceu no princípio do século XX, com o Movimento litúrgico. Como é que se chegou a este “novum” no quadro da história da reflexão sobre a fé? Uma breve abordagem histórica sobre a génese do Movimento litúrgico e a apresentação de alguns dos seus protagonistas (Columba Marmion e Lambert Beauduin) conduzir-nos-ão à figura de A. Coelho, principal promotor dos ideais do Movimento litúrgico em Portugal e à sua teologia litúrgica. Refletindo sobre o “porquê” da existência do culto e “qual” a sua eficácia na complexidade da fé, A. Coelho dá duas resposta à questão litúrgica: a primeira encontra-se no seu “Curso de Liturgia Romana”; a segunda é a aquela que se encontra nos seus sermões pela qual poderá ser considerado um “mistagogo” da liturgia.
Dois sacrifícios musicais
Manuel Pedro Ferreira
Este pequeno ensaio apresenta duas peças musicais — uma medieval, outra contemporânea — que se apresentam como adições intersticiais a uma prática litúrgica consolidada: a primeira recorrendo a um novo texto, a segunda, reutilizando textos tradicionais. Estas são as duas possibilidades mencionadas por Tertuliano, no séc. III, ao descrever o louvor espontâneo a Deus que então rematava o típico convívio cristão. Em ambos os exemplos, separados por 900 anos, a música possibilita uma mais profunda apropriação afetiva e a expressão da sensibilidade teológica dos seus protagonistas, colocando o acento em aspetos de outra forma pouco vincados na celebração.
Igreja de Santo António de Moscavide: história de um caminho não percorrido
João Alves da Cunha
A igreja paroquial de Santo António, em Moscavide, dedicada no dia 9 de dezembro de 1956 pelo Cardeal Cerejeira, caracteriza-se como uma obra de rutura, qual manifesto de oposição às igrejas revivalistas então inauguradas em Lisboa, que não deixou ninguém indiferente e deu origem a uma controvérsia acesa, onde se contaram as mais variadas opiniões, a favor ou contra a nova igreja.
Da autoria dos arquitetos João de Almeida e António de Freitas Leal, surgiu como um edifício vinculado ao estilo moderno e essencialmente funcionalista, de marcada influência da arquitetura Suiça Alemã. No interior, a organização do espaço litúrgico, desenvolvido em função da valorização do altar, através do seu afastar da parede de fundo, e da disposição da assembleia em três braços dispostos segundo um T, representou uma proposta de caminho que acabou por não ser percorrido em Portugal.
Entrevista Arq. João Luís Carrilho da Graça
João Norton de Matos
João Luís Carrilho da Graça (Portalegre, 1952) é o arquiteto da igreja inaugurada no dia 13 de junho de 2008 e dedicada a Santo António, no bairro dos Assentos, em Portalegre. Autor de algumas das mais qualificadas obras da arquitetura portuguesa contemporânea, cujo valor foi justamente reconhecido pela atribuição do Prémio Pessoa 2008, riscou em Portalegre o seu primeiro projeto nesta tipologia específica, criando um edifício que assume uma linguagem claramente contemporânea, de linhas simples e planos brancos que constroem um volume elementar próximo da arquitetura tradicional alentejana.
Se é indiscutível a atenção revelada pelo arquiteto à envolvente, ganha tanto ou maior interesse o invulgar - entre nós - cuidado posto na organização do espaço litúrgico. Há uma particular vontade de entender e materializar o espírito eclesiológico e litúrgico renovado pelo Concílio Vaticano II, que resultou numa igreja que é, no seu todo, um dos passos mais relevantes e significativos da atual arquitetura religiosa portuguesa.
As armas desarmantes de Adília Lopes
Rosa Maria Martelo
Pretende-se mostrar que, na obra de Adília Lopes, a frequente contratualização autobiográfica produz o duplo efeito de uma escrita que usa a sua condição desarmada para se tornar inteiramente desarmante. Neste contexto, serão destacados certos traços da escrita adiliana – designadamente o hibridismo, o prosaísmo e o “olhar gramatical” – enquanto instrumentos de denúncia da violência e da crueldade presentes no nosso quotidiano. Este artigo integra-se no quadro do “Projeto Bíblia Comunicação & Arte”, da Faculdade de Teologia.
O volume termina com cinco “notas bibliográficas” sobre as seguintes obras: “Deus, o homem e a simbologia do real. Estudos sobre metafísica contemporânea, de Samuel Dimas; “Ética teológica fundamental”, de Jorge Teixeira da Cunha; “D. Américo Ferreira dos Santos Silva, Bispo do Porto (1871-1899) – Igreja e Sociedade no Porto no fim do século XIX”, de Adélio Fernando Abreu; “Esperança e resistência em tempos de desencanto. Estudo exegético-teológico da simbologia babilónica de Ap 18”, de José Carlos Carvalho; “São Paulo – Textos apócrifos: Atos de Paulo e Tecla; Carta aos Laodicenses”, de Isidro Pereira Lamelas.
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22.02.11




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