
Festas de São Gonçalinho
Ao longo de quatro dias, o santo amarantino, dominicano, da primeira metade do séc. XIII, que também é muito popular no Brasil, onde há três cidades chamadas “São Gonçalo do Amarante”, é invocado através dos actos litúrgicos, mas também com o lançamento das cavacas e de outros rituais populares entre os quais se destaca a secreta “dança dos mancos”.
O santo terá vivido temporariamente em Aveiro, durante as suas viagens pelo mundo. Aqui conquistou a fé dos habitantes do bairro piscatório da Beira Mar, que a ele entregavam a sua sorte quando saiam para o mar. O seu rosto jovem e risonho fizeram dele o eterno «menino» das gentes da Beira Mar, que lhe ficaram devotas até aos dias de hoje.

Conceição Lopes, professora da Universidade de Aveiro que se tem dedicado ao estudo das festividades de São Gonçalo, afirma que se trata de uma festa de “celebração sagrada da humanização do humano”. Os rituais presentes na festa, as rimas, a subversão do tempo significam um corte no dia-a-dia dominado pela “racionalidade lógico-financeira”. “O São Gonçalinho – afirma – rompe com o estigma do quotidiano”. Nesta, como noutras festas populares, “os celebrantes, de um modo genuinamente singular, reagem à estigmatização instrumental e mercantil da existência humana”, afirma.
A docente da Universidade de Aveiro destaca nos “rituais de São Gonçalinho” o carácter alegre do santo, o ritual das cavacas e as danças.

“Casamenteiro, tocador de viola, dançarino, milagreiro, resolve os encravanços do peito e limpa as verrugas da alma e outras maleitas do corpo. Enfermeiro, médico, criador de vida, contemplativo e “perdoador”, curador de doenças de ossos, no amor e desamor, com o seu sorriso a todos acolhe e num abraço a todos envolve”. Assim é São Gonçalinho, segundo Conceição Lopes. E cita uma quadra: “Brincalhão e galhofeiro / vós fostes das velhas / devoto casamenteiro. // Ó santinho milagroso / dai também às raparigas / um noivinho bem formoso”.

No lançamento das cavacas do alto da capela, “meio de pagar promessas ou encomendar alguma graça”, guardadas durante o ano como símbolo de protecção, Conceição Lopes vê um símbolo da fertilidade. “Talvez que no côvado que o beato São Gonçalo utiliza nas mãos se tenha inspirado também a forma das cavacas. A água é fonte de vida, tal como no útero feminino germina a vida”, afirma. Sobre a “dança dos mancos”, realizada em segredo na capela, a professora afirma: “Tomando nela parte homens saracoteando os corpos em festa, em desequilíbrios possíveis que as supostas dores de ossos e pernas soltas causam, pede-se protecção antecipada contra a doença.

Um dos costumes mais vincados desta cerimónia é o pagamento de promessas ao padroeiro, sendo atirados quilos de cavacas doces a partir do cimo da capela para o público. Pessoas com camaroeiros na ponta de varas, chapéus ao contrário, e até capacetes, todos eles se juntam ao redor da capela junto da Praça do Peixe.
Jorge Pires Ferreira | SNPC
in Correio do Vouga
Fotografia: Sílvia Antunes (1) e Bruno Raposo (2, 3, 4)
09.01.2008
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