
Etty Hillesum: o espaço interior do mundo
Etty Hillesum nasceu em 1914, em Middelburgh, na Holanda, de pais judeus (a mãe era uma refugiada russa e o pai um professor holandês de línguas clássicas), e viveu em Amesterdão nos anos da ocupação nazi. Em 1943 foi deportada para Auschwitz, onde morreu, a 30 de Novembro desse ano.
Entre 1941 e 1943 manteve um diário que só seria publicado em 1981. Este diário é um testemunho das crescentes restrições e das perseguições a que os judeus foram submetidos. Mas ele vale sobretudo como escrita de uma experiência espiritual, de expansão do mundo interior, que fez de Etty Hillesum um caso singular. Disciplina, ascese, exercício de paciência e de renúncia, alegria no sofrimento: são estas as expressões mais utilizadas para designar o modo como Etty se orientou interiormente para uma posição ética que, esconjurando o medo e o ódio, e identificando-se com a tragédia, lhe impôs uma forma de passividade ditada por ua libertação relativamente a quaisquer interesses egoístas.
Este altruísmo, que significou uma recusa de intervir activamente para se salvar (a própria ideia de se “salvar”, diz a certa altura, “parece-lhe absurda e torna-a infeliz”), foi criticado pelos seus próximos e fez do seu diário um caso extremo de «amor fati», de aceitação paciente do destino, algo que haveria de tornar-se objecto de uma longa discussão – em termos de responsabilidade perante a tragédia da sua época – dessa ética da passividade face à perseguição. Não é que Etty Hillesum renuncie a resistir, a indignar-se, a exercer o juízo mais severo face aos carrascos. Mas recusou-se a entrar na lógica da revolta, do ódio, escolhendo antes entrar numa experiência de alargamento do “espaço interior que se confunde com a alegria”. E mesmo quando as suas forças físicas chegam á exaustão, ela continua a dar provas de que nada pode alienar a sua liberdade interior e quebrar a radical “paciência” que lhe permite dar hospitalidade a tudo, a pensamentos e emoções, tanto seus como dos outros. Sirva de exemplo o que escreveu a 3 de Outubro de 1942, quando estava, como voluntária, em trabalho humanitário, no campo de Westerbork, de onde os judeus holandeses “transitavam” para Auschwitz: “claro, é o extermínio total, mas suportemo-lo sobretudo com graciosidade. Não existe um poeta dentro de mim, há sim um pedaço de Deus em mim que poderia desenvolver-se até se tornar poeta. Num campo assim tem de haver contudo um poeta que experiencie a vida lá, lá também, e que como poeta a possa cantar.”
Experiência mística e experiência literária são, para Etty Hillesum, uma e a mesma coisa. O seu “viver interiormente” não se alimenta apenas da invocação de Deus; é também uma referência directa ao «Weltinnenraum» - o “espaço interior do mundo” – de Rilke, com cuja poesia convive diariamente. Tornar-se “espaço interior do mundo” significa, para Etty Hillesum, muitas coisas: recolher-se em si na escrita do diário, manter uma correspondência, estar com os outros numa atitude de compaixão, antecipar com a imaginação as dores dos outros, dialogar directamente com Deus e rezar. Etty coloca-se no centro da história do seu tempo como quem cumpre um caminho de educação para o amor e para a amizade. Dostoievski, Tolstoi, a Bíblia: estas são as suas leituras de todos os dias. Na mochila com que partiu no comboio, para Auschwitz, levava precisamente a Bíblia e um volume de Tolstoi.
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António Guerreiro
in Expresso, 13.06.2008
25.06.2008
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