Leitura
O Papa em Portugal - «Continuamos a caminhar na esperança!»
A 11 de novembro decorre meio ano do início da visita de Bento XVI a Portugal, realizada entre 11 e 14 de maio.
A editora Lucerna lançou em outubro o álbum “O Papa em Portugal”, que inclui fotografias, alocuções de Bento XVI e de personalidades eclesiais civis relacionadas com a visita, além de textos dos sete jornalistas portugueses que viajaram com o pontífice.
«A rápida sucessão de experiências, própria da sociedade contemporânea, corre o perigo de nivelar vivências e atenuar a intensidade de momentos excecionais. Esta recolha de testemunhos e de textos contraria esse risco e permite perdurar horas únicas, carregadas de sentido e beleza, densas de humanidade e exigentes de profissionalismo», escreve no prefácio o coordenador da visita papal, D. Carlos Azevedo.
«Esta publicação – acrescenta – reanima o essencial de uma visita que chegou a tocar o sublime».
O livro vai ser apresentado no Porto, pelo bispo diocesano, D. Manuel Clemente, a 11 de novembro, pelas 21h30, na Santa Casa da Misericórdia (rua das Flores, 5).
A 12 de novembro, D. Carlos Azevedo apresenta o volume em Lisboa, às 18h30, na livraria do El Corte Inglés, com a presença dos jovens “Eu Acredito”, que se mobilizaram para receber Bento XVI no Patriarcado de Lisboa.

Um novo Papa
Texto da jornalista Rosa Pedroso Lima (Expresso)
Foi com uma mãozinha de São Pedro que o céu de Lisboa se abriu para receber Bento XVI, no Terreiro do Paço. O cenário tornou-se perfeito, com uma luz quente e suave a compor a enorme praça num ambiente de filme. Não estava previsto, e até se chegou a temer o pior perante os ataques de mau-humor do tempo. Por isso, só mesmo a intervenção de São Pedro explica o improvável. Só por ela se compreende que a manhã cinzenta e chuvosa que inaugurou o dia da chegada do Papa a Portugal se tenha transformado numa tarde solarenga e doce. E até o discreto Osservatore Romano, órgão oficial da Santa Sé, parece ter cedido à emoção. Na sua primeira Pagina, uma foto da missa em Lisboa rasgava a primeira edição do jornal dedicada a esta viagem apostólica. Não se via o Papa em primeiro plano, nem o altar ou a grande cruz. Só a imponente Praça lisboeta, vista dos céus, banhada por uma luz mansa de fim de dia e um rio imenso. A imagem que enchia o jornal parecia a de um quadro renascentista. Era muito comovente.

Há um lado de mistério, de sorte ou de fado. Escolha-se o termo que se quiser, mas não se deixe de achar que o arranque da primeira visita de Bento XVI a Portugal teve um lado de surpresa, de acaso ou de improbabilidade. Para os católicos, não há dúvidas: São Pedro deu uma a ajuda, afastou as nuvens negras e as do vulcão com o nome mais esquisito do mundo. E abriu os céus de Lisboa para receber o Papa como ele merece.
E ele, o Papa Bento XVI, gostou da receção. Gostou do cenário que o recebeu, da gente nas ruas a saudá-lo, da emoção à flor da pele que se sentia à sua chegada, no papamobile, à Praça do Terreiro do Paço. Tinham passado as cerimónias oficiais. Os discursos da praxe com todas as autoridades do País. Os desfiles de guardas engalanados. As trocas de prendas. As praxes diplomáticas a que, como Chefe de Estado, tem direito e que cumpriu sem mácula. Tudo cerimónias frias e distantes. Um manual de protocolo de Estado.

A chegada ao local da celebração da missa de Lisboa marcava a hora do encontro do pastor com o seu rebanho. O «humilde trabalhador da vinha do Senhor» - como se designou logo no início do seu pontificado - chegava junto dos «seus» para com eles celebrar. Um tempo para maiores proximidade e emoção, termos nem sempre fáceis para este Papa. Os Portugueses sabiam. Ao longo das semanas que antecederam a visita de Bento XVI, era de um Papa «tímido, fechado e reservado» que a comunicação social falava. Recolhiam-se testemunhos, ouvia-se a vox populi e os especialistas, para comparar este Papa com o seu antecessor, João Paulo II. Sempre com vantagem para o Papa polaco, claro está, porque tido como mais «amigo, caloroso, simpático, popular» do que o alemão. Antes mesmo de aterrar em Lisboa, já Bento XVI parecia condenado a não poder ter o mesmo lugar no coração dos Portugueses, como se o músculo principal do corpo humano não fosse elástico e nele não coubessem vários Papas ao mesmo tempo.

Terá sido do cenário quente de Lisboa. Ou da receção dos jovens. Ou do momento histórico. Ou do mistério que ninguém explica. Ou de tudo junto. Mas, o certo é que, a partir da missa lisboeta, a imagem do Papa Bento XVI começou a mudar.
Lentamente, suavemente, como o sol da primavera em Lisboa. Mas mudou. As palavras ditas na homilia ajudaram a essa transformação, a reduzir a distância entre o pastor e o rebanho, a quebrar a barreira da desconfiança. «Eu estou sempre convosco», repetia o Papa, dando às palavras de Jesus uma atualidade total. A fé move montanhas e derruba todos os muros. Bento XVI sabe-o bem, traz para o dia-a-dia a Palavra antiga e dá-lhe vida. «Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós, dá-nos a luz que nos faz viver». A multidão que enchia o Terreiro do Paço e se espalhava pelas ruas e praças laterais reagia de imediato. Interrompia o Papa com palmas prolongadas, marcava cada emoção com vivas e mais saudações. Os enormes painéis que divulgavam em direto as imagens da missa mostravam um «novo» Bento XVI: caloroso, emocionado, contente. Do seu rosto transparecia uma inesperada ternura.

A multidão de Lisboa delirou com a surpresa. O rosto humano do Papa fê-la vibrar mais e mesmo cometer a enorme ousadia de interromper Sua Santidade para a aclamar e aplaudir. Bento XVI também gostou. Aguardou, sereno e com um tímido sorriso nos lábios, que as palmas terminassem, E mesmo as suas palavras tiveram um te que latino imprevisível. Dirigiu-se à cidade chamando-a «Lisboa amiga e porto de abrigo». Saudou a alegria dos «queridos jovens» que, aos milhares, o aclamavam como um herói dos tempos modernos, entre saltos cantos.
O mesmo Papa que vê na nossa era uma época quase perdida teve, em Lisboa, um momento de reconciliação com o presente. Afinal, ainda há esperança. A luz do Sol baixou como uma carícia sobre o Terreiro do Paço quando a missa terminou. Uma multidão tranquila foi esvaziando a enorme praça. Calma e alegre, depois de uma tarde de cânticos, oração e muita emoção, como o País gosta, mesmo quando se reclama europeu, moderno e aberto. Reconciliado com este Papa e com o seu passado, Portugal começou a aproximação. Às televisões em direto, os populares mais telegénicos garantiam acerca do Papa o contrário do que dias antes tinham, veementemente, afirmado. Que, «afinal, é muito simpático», ou que conseguira a proeza de ser «comovente», sem que ninguém o esperasse. Ao primeiro dia, o sucesso da viagem parecia garantido, a julgar pela mudança de tom dos primeiros comentários em direto. Mas ainda havia muito caminho pela frente. Muitas etapas para cumprir. E a reserva nos prognósticos impôs-se, já que Bento XVI, aos 83 anos e com fragilidades físicas notórias, está à frente de uma enorme instituição, ela própria repleta de anticorpos espalhados por todo o mundo. Os ventos, aliás, não sopravam de particular feição para os lados da Igreja Católica. Envolvida no maior escândalo de pedofilia da sua história, cada viagem papal passou a ser marcada por esta sombra negra.

No avião, antes da chegada ao Aeroporto da Portela, o Papa arrumou o tema mais polémico, esvaziando o grande encontro do Terreiro do Paço do «tema do momento», essa espuma dos dias de que são feitos os noticiários. Assim, deixou espaço para a mensagem que, verdadeiramente, quis deixar aos fiéis: «Cristo está sempre connosco e caminha sempre com a sua Igreja, acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: "Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos" (Mt 28, 20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-Lo nos pobres», disse na homilia.
Era possível ouvir-se a voz do Papa a falar da fé. Deixar a «atualidade» noticiosa, deixar os ditames dos tempos modernos e centrar-se no essencial. Bento XVI tem uma forte mensagem teológica a deixar aos católicos e aproveitou na totalidade o palco que o Terreiro do Paço lhe ofereceu. «Só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentida da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura», disse ao encerrar a celebração perante uma plateia de fiéis muito atentos.

Para os mais próximos e os mais habituados às andanças de Bento XVI, para a hierarquia da Igreja ou para os organizadores da viagem, era notória a mudança de humor e de atitude do Papa. «Falou com muita expressividade», sublinhou Federico Lombardi, o chefe da Sala de Imprensa do Vaticano no comentário sobre a homilia lisboeta. O padre e porta-voz oficial da Santa Sé não teve dúvidas de que Bento XVI esteve «diferente» em Lisboa, que até «deu espaço para as palmas», que estava «visivelmente satisfeito».
Para os Portugueses, latinos e emocionais, os sinais dados pelo Papa ao longo da sua intervenção estavam bem longe de poderem ser classificados de «calorosos» ou mesmo «expressivos». Mas, para os vaticanistas mais experientes - os jornalistas que o seguiram em várias das viagens apostólicas realizadas -, a mudança era evidente. «É claro que foi expressivo», dizia um jornalista francês, verdadeiramente espantado com a dúvida levantada sobre se o Papa estava, claramente, satisfeito. «Normalmente, o Papa lê o seu discurso de seguida, em tom monocórdio e sem interrupções. É um professor perante os alunos. Em Lisboa, foi um pastor perante os fiéis. E, para mais, mostrou estar contente por eles estarem a gostar de o ouvir», afirmou.

Bento XVI estava satisfeito, a receção em Lisboa foi calorosa e um evidente sucesso para a organização. Restava saber se os Portugueses acompanhavam esse otimismo e se, de facto, a imagem «séria e fechada» do Papa tinha, verdadeiramente, mudado.
O final do dia trouxe a missa de Lisboa e o cenário magnífico do Terreiro do Paço para todas as aberturas dos telejornais. Os primeiros comentários eram francamente animadores, os adjetivos usados para definir Bento XVI adquiriam tonalidades mais favoráveis, o Papa estava a humanizar-se perante a opinião pública nacional.
Enquanto isso, ele regressava à Nunciatura, descansava de uma longa jornada, recuperava forças e preparava-se para enfrentar o desafio seguinte: o encontro com os intelectuais e a partida para Fátima. Mas, quando Bento XVI deu entrada na residência oficial do representante do Vaticano em Portugal, já um ruidoso e persistente grupo de jovens fazia a festa na rua. No programa, estava prevista uma «serenata», mas o tom suave e acolhedor que o termo acarreta foi substituído por uma exuberância e uma força incontida. Foram horas de cânticos e gritos de alegria que encheram as ruas de Lisboa até que, à janela da Nunciatura, surgiu a figura débil do Papa. Os jovens receberam-no com mais gritos e palmas. Bento XVI agradeceu-lhes «a participação viva e numerosa» do Terreiro do Paço. Elogiou-lhes as «provas da sua fé e a vontade de construir o futuro sobre o Evangelho». Agradeceu-lhes o «testemunho jubiloso a Cristo» e o «carinho» manifestado «ao seu pobre Vigário». Mas pediu-lhes «do coração» que o deixassem dormir, porque o dia seguinte era importante e precisava de forças para o aguentar.

Com a bênção a todos, o Papa voltou para dentro. Foi a imagem de um avô a despedir-se, carinhosamente, dos seus netos, e a pedir-lhes para terem juízo. O rosto humano de Bento XVI não podia ter retrato mais fiel. Portugal viu em direto. E gostou.
Foi então que tudo começou a mudar.
In O Papa em Portugal - «Continuamos a caminhar na esperança», ed. Lucerna
08.11.10







