
Panorama - Mostra do documentário português
De 13 a 22 de Fevereiro decorre em Lisboa o «Panorama», mostra não competitiva do documentário português, onde filmes de fôlegos diferentes, com contornos e acabamentos distintos, feitos por realizadores com graus de experiência variados, se juntam lado a lado para o retrato da cinematografia documental.
Composto por trinta e cinco sessões que retratam o país, «Panorama» é também o ponto de encontro entre quem faz e quem vê. Realizadores, produtores, programadores televisivos, distribuidores, críticos e outros agentes debatem com os espectadores o estado actual do documentário português, contribuindo uns e outros para o crescimento e enriquecimento de uma cinematografia cada vez mais presente nos circuitos internacionais.
Com documentários produzidos entre 2008 e 2009, esta 3.ª edição inclui ante-estreias - Conversa entre duas Mulheres; Da Vida das Bonecas; O Parque; Morar Aqui; Árvores e a curta Imorredoira -, nomes sábios e experientes - João Mário Grilo, Fernando Lopes, Regina Guimarães, Saguenail e Jorge Silva Melo - e filmes premiados - Bab Septa de Frederico Lobo e Pedro Pinho e Aquele Querido Mês de Agosto de Miguel Gomes.
Retrospectiva da obra de António Campos
Um dos destaques desta edição é a exibição de sete obras de António Campos, um dos primeiros cineastas a dedicar-se ao género, homenageando um percurso fundamental para a cinematografia documental portuguesa.
Para todos os que vão ao Cinema São Jorge, e sobretudo para aqueles que não podem estar presentes, apresentamos a sinopse dos filmes que fazem parte desta secção.
A Festa
Ano: 1975
Duração:24´
Uma festa religiosa tradicional na «Primavera» das transformações que revolucionaram a sociedade, no seguimento do golpe de 25 de Abril de 1974. Tradições ancestrais, mantidas nomeadamente pelos emigrantes que sempre voltam à terra por alturas da santa padroeira confrontam-se, quase imperceptivelmente, com indícios do momento convulsivo do processo
revolucionário então em curso.
A Almadraba Atuneira
Ano: 1961
Duração:27´
Por altura da passagem dos cardumes de atum pela costa algarvia em direcção ao Mediterrâneo onde vão procriar, na costa sul da Península Ibérica mobilizam-se comunidades piscatórias muito peculiares. Os participantes das campanhas do atum vão preparar e lidar com as almadrabas, as hoje extintas armadilhas especiais para a captura do atum, desaparecidas devido à diminuição brutal dos cardumes e desvio de rotas. António Campos capta todo o processo de preparação dessa pesca artesanal até à «matança», acompanhando por uma temporada as actividades no arraial que se instalava na ilha da Abóbora, diante da localidade de Cabanas de Tavira. Foi a última campanha daquele arraial, que o mar engoliria no Inverno seguinte – desapareceram as casas e a própria ilha –, e é um dos documentários maiores do cinema português.
Falamos de Rio de Onor
Ano: 1974
Duração:62´
Numa aldeia transmontana, a cavalo sobre a fronteira com o território espanhol, nos primeiros anos da década de 70. O comunitarismo, com os seus ancestrais hábitos tradicionais de organização associados à propriedade e às práticas agrícolas e pastoris, encontra-se já em decadência. Mantêm-se visíveis as suas marcas no quotidiano da população. António Campos é informado da existência da aldeia em 1971, pelo etnólogo Jorge Dias, e vai rodar o seu documentário entre Outubro de 1972 e Agosto de 1973. Por dificuldades de pós-produção a obra só será apresentada em Outubro de 1974.
Gente da Praia da Vieira
Ano: 1975
Duração: 73`
Filme com o qual «emparceira» A Festa, rodados na mesma aldeia de pescadores, mostra-nos a confrontação do olhar sobre uma comunidade da beira-mar da região leiriense onde os populares, galvanizados pelo ambiente revolucionário onde todos os sonhos são possíveis, lançam mãos à obra em transformações e modernizações que alguns contestam. Campos apresenta esse fresco de contradições e desejos díspares e revisita alguns momentos da sua obra anterior, com inclusão de trechos de O Tesoiro e A Invenção do Amor, que tinham sido rodados na mesma região.
Histórias Selvagens
Ano: 1978
Duração: 102´
Sobre esta adaptação de dois contos de Passos Coelho, rodado essencialmente num vale que é território ameaçado pelas cheias, disse António Campos por altura da sua estreia: Histórias Selvagens desejaria ser uma crónica cinematográfica sobre o trabalhador rural, implantada na área de Montemor-o-Velho, desde tempos recuados até aos nossos dias.» E Maria João Madeira refere-se sobre ele assim: «Mais uma vez, pela sua complexidade narrativa onde convivem tempos diferentes, personagens e paisagem, vigor documental e afirmação ficcional, o filme é recebido como um ponto de viragem na obra do realizador (…)»
Um Tesoiro
Ano: 1958
Duração: 14`
Primeira obra importante de António Campos, depois do inicial O Rio Lis, dela diz o cineasta: «Relata a vida de fome e de miséria que no Inverno todos sofriam com a paragem das campanhas de arrasto. Os mais novos partiam para as florestas da Galiza, outros para as beiras interiores de Portugal, todos como madeireiros. Nem todos regressavam (ver o meu filme Gente da Praia da Vieira), mesmo os que iam para as margens do Tejo. Com este filme inaugurei o meu etnocinema que preocupadamente tenho tentado prosseguir durante toda a minha vida.»
Vilarinho das Furnas
Ano: 1971
Duração: 77´
Uma aldeia perdida nas faldas da serra Amarela, Gerês, e a sua vivência comunitária, das raras experiências integrais que ainda restam em território
português do comunitarismo agro-pastoril, serão destruídas pelas águas represadas de uma grande barragem «estratégica». A integração será difícil, mas conseguida por fim, e Campos regista as derradeiras tarefas, como a última apanha do milho, a última procissão, a manutenção sem esperanças dos últimos diques tradicionais.
Mais filmes - Sugestões
Adeus à Brisa
Realização: Possidónio Cachapa
Duração:55´
Um homem fala sobre o seu passado que se confunde com o da história do
seu país. Num discurso comovente, evoca a luta pela liberdade e a sua
crença nas revoluções e na supremacia da beleza. Sentado na sua sala, Urbano Tavares Rodrigues mantém-se o escritor, o resistente, o que acredita no melhor do Homem.
Aleluia
Realização: Fábio Ribeiro
Duração: 9’
Imagens de santos e não santos, que por vezes são produzidas em massa e numa grande variedade...
Árvores
Realização: Eva Ângelo
Duração: 71’
Memórias de experiências quotidianas na voz de Homens e Mulheres em
diálogo com a vida e com a morte. Testemunhos de pessoas que contam
histórias de salvação. Doze pessoas. Doze Árvores, corpos e viagens a
transformar o tempo e o lugar.
Desvio Padrão
Realização: Sara Morais
Duração:18’
Em 18 minutos percorrem-se 10 estações de metro mas, desta vez, pára-se para olhar e escutar. Partindo dos azulejos criados por Maria Keil para o Metropolitano de Lisboa entre 1957 e 1972, procuram-se relações visuais entre a geometria de uma obra que permanece e o movimento de uma cidade.
Dificilmente o que Habita Perto da Origem Abandona o Lugar
Realização: Olga Ramos
Duração: 50’
Alberto Carneiro é escultor. Nasceu na zona rural nortenha de São Mamede do Coronado. Aí exerceu o ofício de santeiro durante vários anos, antes de iniciar um percurso artístico que o transformaria num dos mais importantes artistas da sua geração.
Morar Aqui
Realização: Maria Remédio
Duração: 27’
É um bairro de Lisboa, e no bairro existe uma rua. Nessa rua, pequenos negócios da família ditam a rotina acolhedora do sítio. Gentes que nascem e crescem ali, que se cruzam todos os dias, durante muitos anos, às vezes quase uma vida. Os laços familiares estendem-se aos vizinhos, aos colegas de trabalho, aos transeuntes, aos habitantes do lugar.
O Lar
Realização: António Borges Correia
Duração: 71´
Aldeia do Reboleiro, norte de Portugal, 103 velhos vivem no Lar de Santa Catarina. Eram pessoas do campo. A maior parte deles perderam a noção do tempo num espaço que lhes é estranho. Há um grande desejo de comunicar, não querem estar sozinhos.
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© SNPC | 04.02.2009
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