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Quem quer ser bilionário?

Já vi muita gente irritada e outra em deslumbre com a fita de Danny Boyle, o triunfador da maratona dos Óscares. A irritação percebe-se bem: é um melodrama convencional servido numa narrativa sempre controlada, tanto no modo como no conteúdo. A adesão também não cai das nuvens: há uma eficácia evidente na construção e uma energia visual que contagia.

Mas não é para medir entusiasmos e alergias que torno a esse filme recente. Queria dele apenas uma cena, a dos dois irmãos (um sub-empreiteiro de sucesso e o outro paquete num call-center) empoleirados num arranha-céus em construção. Olham para a velocidade a que Bombaim se abate e reconstrói, uma paisagem em cratera, povoada por gruas e efervescente megalomania, e tentam nesse mapa de betão novo reconhecer o traçado da sua infância, os telheiros, os caminhos, os vestígios do que já não há. Tudo o que separa aqueles dois irmãos está dito naquela imagem lentíssima, para lá de todas as palavras.

A visão do progresso carece necessariamente de modulações humanas. Os saltos, as ruturas bruscas, os chamados “milagres económicos” (e quem inventou a expressão usava certamente de alguma ironia) têm custos muitas vezes sonegados, porque não se escolheu crescer conjuntamente. É mais fácil abater um bairro de lata, por exemplo, que construir comunidades humanas integradas. Mas disso, e de uma forma absolutamente magistral e comovente, fala-nos o cinema de Pedro Costa, esse mestre incómodo do Portugal de hoje.

Talvez o mal-estar e a solidão das vidas que vivemos, talvez os nossos trajetos cambaleantes e meio sonâmbulos, o sem porquê de tamanhas colisões nasçam daqui: de não reconhecermos já, na topografia alterada e massificante das cidades, os traços do sítio onde nascemos. A própria arquitetura não só trabalha pouco a questão da memória, como parece muitas vezes um elogio ao esquecimento. Para não falar das habitabilidades pouco pensadas, da desolação das periferias e do próprio centro.

Olhamos em redor e a própria cidade desmantela rapidamente o que até há pouco fomos. É pouco provável que ao cruzar a rua nos corra ao encontro a própria infância.

José Tolentino Mendonça

in Página 1

27.02.2009

 

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