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Sidereus Nuncius - O Mensageiro das Estrelas

Quatrocentos anos volvidos após a sua publicação original em Veneza, surge agora, pela primeira vez no nosso país, uma tradução para português do “Sidereus Nuncius” (1610), uma obra que pode, sem qualquer exagero, ser considerada a mais emblemática, a mais perturbadora, mas também a mais acessível de todas quantas compõem o excepcional panteão dos textos da “Revolução Científica”. O “Sidereus Nuncius” é o livro em que Galileu Galilei (1564-1642) deu a conhecer as novidades que descobrira com o telescópio, e é seguramente uma das mais importantes obras em toda a história do pensamento científico. Não são necessárias, portanto, grandes justificações para o aparecimento desta tradução portuguesa. Pelo contrário, dir-se-ia que, antes mesmo da leitura, se impõe um momento de reflexão acerca do que parece ser um estranho atraso de quatro séculos.

Há algo de preocupante na circunstância de se ter chegado ao século XXI sem existir uma tradução portuguesa do “Sidereus Nuncius” feita no nosso país (existe, contudo, uma tradução feita no Brasil). A bem dizer, quase nada do que Galileu escreveu foi alguma vez traduzido em Portugal, o que não só nos coloca numa posição diferente de praticamente todos os outros países do mundo ocidental, mas denuncia uma real falta de interesse pela obra do famoso cientista, a despeito dos inúmeros protestos de admiração e do tom declamatório e moralista em que muitas vezes se redigem textos sobre ele.

Galileu parece ter adquirido, na sociedade portuguesa, o estatuto paradoxal do ícone do homem de saber, de curiosidade fervilhante, apaixonado pelo conhecimento, com um espírito indómito em busca da verdade, mas que não suscita pelo seu exemplo, nem curiosidade, nem amor ao saber, ao estudo e à investigação. Pelo menos no que diz respeito à sua própria obra isso é certo. Há aqui, parece-me, muita matéria para a reflexão dos especialistas em questões de sociedade, e talvez a sugestão de alguma prudência nas análises que, com demasiada facilidade, equacionam “cultura científica” com a popularidade de certos nomes e a transacção de chavões.

FotoNebulosa Tarântula

O trabalho que agora se apresenta não se dirige, evidentemente, ao especialista; tem, sobretudo, um propósito de divulgação junto de um público culto e informado, mas desconhecedor dos meandros da erudição galileana. O especialista nunca dispensará a leitura do texto de Galileu na versão latina original, mas o mesmo já não se pode pedir ao amador, por muito interessado que seja por estes temas. Por esta razão, não se justificava que se preparassem anotações muito detalhadas e muito técnicas, numa edição que tem propósitos de leitura amplos.

FotoEstrelas no aglomerado Omega Centauro

Mas, por outro lado, sem os elementos essenciais de contextualização e alguns esclarecimentos pontuais, a obra seria dificilmente compreensível para o leitor actual. Nenhum texto flutua a-historicamente sobre a época em que foi escrito, encontrando-se sempre relacionado com as polémicas, as personagens e o espírito do seu tempo, de maneira que a compreensão fica muito melhorada com o esclarecimento destes elementos externos. (...)

FotoNebulosa do Anel

 

O impacto do “Sedereus Nuncius”

Galileu começou a divulgar as sensacionais descobertas celestiais que ia fazendo em cartas particulares a partir de Dezembro de 1609, quando ainda não tinha sequer formado a intenção de redigir um opúsculo dedicado ao assunto. A 7 de Janeiro de 1610, escrevia a Antonio de Medici um primeiro relatório, extenso, acerca desses descobrimentos e, nas semanas seguintes, revelaria, de modo esporádico e fragmentário, mais algumas das novidades.

FotoLua e Júpiter

O aparecimento do “Sidereus Nuncius” provocou um impacto imediato. Em poucos dias, primeiro Veneza, depois toda a Itália, e finalmente os mais diversos pontos da Europa, receberam com espanto, excitação ou incredulidade, as sensacionais notícias. Os quinhentos e cinquenta exemplares postos à venda esgotaram em menos de uma semana, e tal era a apetência por informações acerca desse factos que ainda no ano de 1610 apareceu em Frankfurt uma edição ilegal do livro. (...)

FotoPlêiades

O maior impacto das descobertas de Galileu foi o provocado junto dos matemáticos e astrónomos da Companhia de Jesus. As primeiras notícias acerca das observações telescópicas de Galileu causaram grande comoção entre os astrónomos do Collegio Romano, mas não se pode dizer que tenham apanhado os jesuítas completamente de surpresa. Tal como sucedera a Galileu, também os rumores de um novo instrumento óptico haviam chegado aos jesuítas e, logo depois, o próprio instrumento. Pelo final de 1609, ou, o mais tardar, nos inícios de 1610, tinham já começado a fazer observações telescópicas dos céus. O aparecimento do “Sidereus Nuncius”, em Março de 1610, tornou ainda mais urgentes as investigações dos jesuítas. (...) A confirmação das observações telescópicas pelos jesuítas do colégio romano foi talvez o mais importante passo na credibilização das novidades que Galileu descobrira e do valor do instrumento que usara para as descobrir. (...)

FotoGás, estrelas e poeira na constelação de Orion

As novidades telescópicas de Galileu foram conhecidas em Portugal devido aos padres da Companhia de Jesus. Diferentemente de outros grandes debates científicos, em outras épocas, o debate cosmológico do século XVII, iniciado em consequência das observações com o telescópio, ressoou quase de imediato entre nós, mercê dos canais de comunicação que a Companhia de Jesus possibilitava. Na verdade, aquele que poderia ser chamado o “período jesuíta” da história científica portuguesa teve características que o distinguem de todas as outras épocas, senso a principal a existência de uma extensa e eficaz rede de comunicação entre Portugal e a Europa, o que permitiu a profunda internacionalização da prática científica no nosso país.

FotoAntares

Nessa rede, as notícias acerca do telescópio circularam de maneira muito célere, sendo rapidamente conhecidas e comentadas em Lisboa e, imediatamente depois, circuladas para fora da Europa, num movimento de enorme amplidão geográfica e uma espantosa celeridade. O mesmo se passou com o próprio instrumento que, através da rede de colégios e residências jesuítas, circulou rapidamente até Lisboa, e daí a muitos outros pontos do globo.

FotoNebulosa Orion

A notícias dos debates astronómicos que se desencadearam em Itália em torno a 1610 chegou muito cedo a Portugal. A “Aula da Esfera” do Colégio de Santo Antão mantinha uma relação estreita com a Academia de Matemática de Clávio e devido a este facto as novidades científicas foram conhecidas e discutidas em Lisboa pouco depois.

 

Henrique Leitão
In Sidereus Nuncius - O Mensageiro das Estrelas (Galileu Galilei), ed. Fundação Calouste Gulbenkian
Fotografia: Astronomy Picture of the Day
23.05.10

Capa

Siderus Nuncius
O Mensageiro das Estrelas

Autor
Galileu Galilei
Trad. estudo e notas: Henrique Leitão

Editora
Fundação Calouste Gulbenkian

Ano
2010

Páginas
286

Preço
16,50 €

ISBN
978-972-31-1317-4

 

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