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Fé e cultura

"Sinais dos Tempos" hoje, na sociedade e na Igreja em Portugal

O cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, proferiu a 16 de Junho uma conferência dirigida aos bispos que participaram nas Jornadas Pastorais da Conferência Episcopal Portuguesa, realizadas em Fátima.

Apresentamos seguidamente alguns excertos dessa intervenção.

“A obrigação de estar atento aos “sinais dos tempos” para intuir os caminhos da missão, em cada tempo e circunstância concretos, é dos maiores desafios pastorais do Concílio Vaticano II, o que melhor define a maneira de conceber a presença da Igreja na sociedade e a sua missão de salvação.”

“Logo no início, o Concílio rejeitou um texto condenatório dos erros da sociedade contemporânea. O Concílio não se reunia para condenar, mas para anunciar a salvação.”

“Não é um convite à simples análise sociológica, mas à intuição profética. O verbo escolhido é importante: trata-se de “perscrutar”, o que lembra a atitude dos profetas que estavam à espreita, para perceber nos acontecimentos o modo e a circunstância do seu anúncio. Só da fé e do amor salvífico de Deus pode brotar essa “intuição”, esse “perscrutar” dos sinais, que indicam portas abertas ao anúncio da salvação e do desígnio de Deus para a humanidade.”

“Este é um ponto prévio para uma leitura actual dos “sinais dos tempos”: olhar o mundo com amor e com esperança. Podemos cair, facilmente de mais, na atitude de condenação da sociedade actual. Mas é possível amar o mundo sem concordar com o mundo. O anúncio cristão pode, por vezes, ser uma denúncia, embora deva ser, sobretudo, anúncio. Mas se começa pela denúncia, corre o risco de nunca ser anúncio.”

“Este olhar construtivo sobre a sociedade, por parte da Igreja, tem como fundamento duas dimensões: a certeza da fé que Deus ama o mundo e que o Espírito Santo está em acção, levando muitos homens e mulheres a buscarem a rectidão de consciência, a lutarem pela justiça e pela defesa da dignidade do homem, a procurarem para a sociedade caminhos de dignidade, de generosidade e de solidariedade; e que os valores explicitamente enunciados na doutrina da Igreja não são apenas afirmados, mas vividos e postos em prática na luta por uma sociedade renovada.”

“Esta atitude aberta e dialogante é afirmada por Bento XVI ainda no avião a caminho de Lisboa, falando da dialéctica entre secularismo e fé: ‘A dialéctica entre secularismo e fé tem uma longa história em Portugal. Já no século XVIII há uma forte presença do Iluminismo. Basta pensar no nome Pombal. Assim, vemos que Portugal viveu sempre, nesses séculos, na dialéctica que, naturalmente hoje, se radicalizou e se mostra com todos os sinais do espírito europeu de hoje. Este parece-me um desafio e uma grande possibilidade. Nesses séculos de dialéctica entre Iluminismo, secularismo e fé, nunca faltaram pessoas que quiseram estabelecer pontes e criar um diálogo, ainda que, infelizmente, a tendência dominante foi a da contraposição e da exclusão de um e de outro. Hoje, vemos que justamente esta dialéctica é uma chance; que devemos encontrar uma síntese e um diálogo profundo e de vanguarda’.”

“Esta atitude dialogante da Igreja perante a sociedade real, com os seus valores e os seus desvios, não pode significar uma cedência. Em todas as circunstâncias, a Igreja deve anunciar a perspectiva evangélica, os próprios atropelos à verdade, à justiça, e à dignidade do homem são ocasião desse anúncio, antes, exigem esse anúncio, que não pode ser apenas denúncia negativa, mas afirmação do nosso empenho no progresso da humanidade. Se nos limitarmos à denúncia a nossa voz pode ser facilmente interpretada como mera tomada de posição política e ser vítima de fundamentalismos. E estes, sejam de matriz religiosa ou ideológica, acabam sempre por roçar a intervenção política na defesa de posições pessoais ou grupais, isolando a verdade que defendem da verdade fundamental que é o amor salvífico de Deus. Esquecem facilmente que por detrás de um erro, se podem abrir portas a outras dimensões da verdade.”

“Estamos a cair na situação anacrónica que qualquer intervenção da Igreja, de modo particular da hierarquia, em dimensões fundamentais como o são uma sã antropologia ou a defesa de valores éticos é facilmente julgada como intervenção na esfera do estritamente político, esquecendo que o domínio político é todo o interesse pelo bem da ‘polis’.”

“É preciso valorizar a Igreja como o conjunto dos fiéis, a comunidade crente, e não a identificar só com a hierarquia. Esta, por decisão própria e em defesa do carácter específico do seu ministério, abstém-se habitualmente de se imiscuir no âmbito do estritamente político. Mas os cristãos leigos não são a isso obrigados e devem ser porta-vozes, no seio da sociedade, dos autênticos valores cristãos. Aliás, pressinto que virá dos leigos a energia para esta renovação da intervenção da Igreja na sociedade.”

“ Aprofundar o conhecimento do mistério e da dignidade do homem, donde decorre uma visão ética da vida, supõe um esforço acrescido de formação do laicado. A doutrina social da Igreja continua a ser a grande desconhecida. Só esse aprofundamento cultural formará a consciência dos cristãos sobre todas as dimensões da vida humana, pessoal e comunitariamente considerada.”

“Esta busca do sentido é, hoje, a maior expressão da densidade da existência humana, diria mesmo, do drama humano. O que é a vida, o que é o amor, que sentido tem o sofrimento? As mutações sociais, que não é possível referir aqui, adensaram este drama do sentido, relativizaram as respostas adquiridas e transmitidas, lançaram dúvidas sobre a porta a que se deve bater para encontrar uma resposta. (...) Sinto que muitos já não procuram, espontaneamente, a resposta da Igreja, na sua acção institucional. Será que as nossas estruturas de acolhimento estão preparadas para essa resposta, adaptada à geração presente?”

“É preocupante a evolução na nossa sociedade e mesmo entre os cristãos, sobre a fé na vida eterna. Muitos já não acreditam nela e mesmo os que não a excluem não fazem dela o objectivo mobilizador da esperança e não fazem a relação dessa esperança com o sentido da vida presente.”

“Nas respostas a dar a esta busca do sentido, adaptadas a cada geração, sou particularmente sensível ao universo juvenil. No seu todo eles buscam respostas, sem sequer rejeitar aprioristicamente a resposta de Jesus Cristo, mas não a encontram nas respostas da Igreja, ou porque nem sequer a escutam ou porque não a compreendem. É preciso dar-lha de forma que a compreendam e lhes toque o coração.”

“A leitura dos sinais dos tempos não pode ser, apenas, um tema sugestivo e interessante. É, sobretudo, um desafio profético de quem reage com amor à realidade da história.”

“Temos de ter consciência, sobretudo nós os clérigos, que a Igreja é o Povo de Deus, que os leigos têm um papel decisivo na renovação da Igreja e que também são chamados a ler os ‘sinais’.”

“A pastoral não é apenas a arte de programar, mas a manifestação, no concreto da história, do amor de Jesus Cristo pelos homens. Mas é decisivo que os sacerdotes redescubram, no exercício do seu ministério, o modelo do Pastor. Trabalhamos mais do que amamos, criamos estruturas mas quando as pessoas precisam do pastor, nós estamos ocupados.”

 

rm
© SNPC | 18.06.10

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D. José Policarpo






















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