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A cultura como dimensão específica do humano

Na sua reflexão antropológica, Lluís Duch, dedica uma grande atenção à dimensão cultural do ser humano. Para ele o problema decisivo de qualquer articulação antropológica coloca-se, como já vimos, na tensão existente entre uma unidade estrutural e uma diversidade cultural. Tentar saber que é o ser humano constitui, sem dúvida, a pergunta antropológica por excelência. O que se pretende é chegar a entender o que configura a condição humana como tal, independentemente das diversas situações concretas em que este se possa encontrar. Mas a este ‘em si’ da humanidade, só se pode chegar através das suas concretizações históricas e culturais. Aquilo que o ser humano é ‘em si’ só pode ser verdadeiramente percetível através daquilo que ele manifesta.

Ao colocar a questão desta maneira aquilo que se afirma é que a cultura não pertence apenas ao âmbito do fazer, mas, pelo contrário, situa-se no âmbito do ser. Neste sentido, Lluís Duch afirma sem qualquer hesitação que é «a disposição cultural do ser humano e não as possibilidades da sua dotação genética que constitui a sua verdadeira natureza.» O próprio processo de humanização, começado há mais de 15 milhões de anos, é revelador do que se acaba de afirmar: o ser humano vai tornando-se, digamos assim, cada vez mais humano na constante e progressiva passagem de uma mera adequação genética ao mundo envolvente a uma progressiva e marcante adaptação cultural. Deste modo, podemos descartar, como insuficiente e incorreta, a distinção entre homem primitivo e homem cultural, pois quando falamos em ser humano estamos sempre a falar em ‘homem cultural’, ainda que existam, como sabemos, grandes diferenças no que se refere ao património cultural. Desde o primeiro momento da sua presença no mundo, o ser humano é um ser cultural.

É verdade que, por um lado, o ser humano pertence ao que podemos chamar o mundo natural. Este constitui um espaço fundamental para a sua existência. As alterações que aí se verificarem, marcam-na indubitavelmente, facilitando ou dificultando o seu viver. O ser humano não pode, de modo nenhum, viver sem natureza. Ela é, em certo sentido, a sua casa e pertence à sua própria constituição. Contudo, basta um olhar um pouco mais atento para a experiência humana para se perceber que esta vai muito mais além do que é o ‘mero natural’. Para confirmar este dado, basta ver como o instinto é claramente insuficiente para que possamos falar em vida propriamente humana. De forma diferente do animal, o ser humano necessita de muito mais do que do instinto, para ter garantia de êxito no desempenho da sua tarefa.

Isto é de tal maneira evidente que, no caso do ser humano, nem sequer podemos considerar que os seus instintos sejam meramente naturais, uma vez que na sua vida concreta eles sempre aparecem configurados e mediados por uma determinada cultura. E a razão parece ser simples, é que o ser humano nem se encontra completamente ‘fixado’ pelos instintos que são próprios da sua espécie, nem se acha limitado e pré-definido pelas possibilidades, também sempre limitadas, que lhe oferece um determinado meio natural, sendo muitos outros fatores que intervêm de maneira decisiva na sua instalação no mundo. A vida instintiva é claramente insuficiente para que o ser humano possa realizar o seu trajeto vital desde o nascimento até à morte, pelo que obrigatoriamente necessita de desenvolver outras capacidades e competências.

Entre elas podemos destacar a capacidade, que simultaneamente é uma necessidade, que tem de se distanciar do seu «centro de vida», para sobre ele refletir e atribuir significados. Tal capacidade está vedada aos animais, os quais jamais podem deixar de viver no «centro» que lhes é próprio e que se encontra inscrito na sua instintividade característica. De facto, o animal só pode ser texto, enquanto ser humano obrigatoriamente tem de procurar os contextos. Ele é consciente do seu «centro», que faz verdadeiramente seu a partir de um processo que à primeira vista até pode ser considerado paradoxal, pois é na medida em que se desloca desse centro, para desde fora o refletir, que pode então fazê-lo humanamente seu. Neste sentido, Lluís Duch chama ao ser humano um ser «excêntrico».

O próprio acesso do ser humano à realidade que o rodeia vem ainda sublinhar mais esta intuição. Para ele, a realidade na qual se insere e sem a qual não pode viver, nunca pode ser apreendida de uma maneira direta. O seu acesso ao real é sempre mediado e condicionado, pois a realidade não está à sua disposição de uma maneira bruta e natural. De certo modo, a natureza como natureza é inacessível ao ser humano, porque tudo o que ele faz pensa e sente, é sempre feito, pensado e sentido a partir de uma determinada perspetiva cultural. Só através deste tipo de mediação ele pode aceder ao ‘mundo natural’ para o fazer seu, para o humanizar, de modo a possibilitar a concretização de uma vida que não seja simplesmente vida, mas que seja efetivamente vida humana.

Pertencendo à natureza o ser humano supera-a constantemente como criatura criadora, ou seja, jamais poderá deixar de ser um criador de cultura sempre ‘obrigado’ a instituir determinadas formas de relação e esquemas operativos que, em cada aqui e agora, o ajudem a concretizar a sua tarefa de pensar a realidade e de pensar-se a si mesmo. De facto, até na construção da sua identidade pessoal é possível descobrir esta presença mediadora da cultura. Face à inevitável pergunta quem sou eu? (pergunta que acaba por levantar também a questão da identidade dos outros) a resposta obrigatoriamente está marcada pelos diversos contextos em que se processa. O próprio conceito de pessoa revela idêntico processo. Todos sabemos como no contexto da chamada mentalidade primitiva o conceito de pessoa e a ideia do eu é algo que não tem a tematização que hoje lhe damos. Eles foram-se lentamente desenvolvendo ao longo dos séculos e ainda hoje se encontram num processo de constante e necessária reelaboração. Hoje somos, por exemplo, capazes de afirmar que os nossos primeiros antepassados viviam ‘cosmologicamente centrados’, enquanto nós vivemos ‘antropologicamente centrados’. Claro que esta ‘nova’ orientação da existência humana só pode ser sustentada pela ‘descoberta’ e pela ‘convicção’ de que o ser humano é um ser pessoal e histórico.

Sem dúvida que este passo significou um momento de absoluta importância na historia da cultura europeia, uma vez que permitiu a edificação do ser humano a partir da sua própria responsabilidade e decisão. Mas, também sem dúvida, ele revela como a perspetiva própria de cada cultura oferece os princípios fundamentais e fundamentadores a partir dos quais os indivíduos e os grupos, dum determinado espaço histórico-temporal, podem realizar a sua presença no mundo e ir construindo a sua identidade. A importância ainda hoje dada ao ‘eu’, como critério único e último para refletir a identidade, está claramente marcada por uma cultura que promove a individualidade e o indivíduo. Por outro lado, a enorme fragmentarização, a que crescentemente vamos assistindo a todos os níveis do viver e do pensar, ajuda igualmente a compreender a cada vez maior multiplicidade de propostas a este nível.

Esta realidade pode igualmente ser percebida nos processos biográficos da construção da identidade pessoal. Não ainda há muito tempo a construção dessa identidade, se bem que era um processo dinâmico não possuía a mobilidade e provisionalidade tão características dos nossos dias. De certo modo, após um necessário e indispensável processo de amadurecimento as pessoas eram o que eram de uma vez para todas, de tal maneira que, salvo raras exceções, eram capazes de manter a sua consciência identitária de uma forma bastante harmónica ao longo da sua vida. Neste processo a própria situação de cada um, no momento do nascimento, acabava por ter um peso que hoje de todo não tem. O facto de ser branco ou negro, cristão ou judeu, homem ou mulher, era uma realidade cuja presença se fazia notar de uma maneira muito mais estável e decisiva. Nos nossos dias, porém, e nas nossas sociedades ocidentais, a construção da identidade pessoal passa por um processo muito mais dinâmico e muito menos estável. Em cada aqui e agora os indivíduos são desafiados a reordenar e repensar a sua existência para responder às interpelações que constantemente lhe vão surgindo, de tal modo que é possível falar-se na construção da identidade como sendo o resultado de uma ‘bricolage de sentidos’. A identidade é, nesta linha, um processo sempre a ser realizado e sempre possível de transformação. A pessoa, de certo modo, não é aquilo que é, mas aquilo que vai sendo, ou dito de outro modo, vai manifestando e vivendo ao longo da sua vida. Como é óbvio, esse viver e esse manifestar têm a marca iniludível e sempre inevitável da cultura.

Claro que esta realidade leva Lluís Duch a afirmar que o ser humano está sempre sujeito às possibilidades expressivas de que dispõe uma determinada tradição cultural. O acesso à realidade que o rodeia, bem como à sua própria identidade implica o recurso à mediação expressiva da cultura, que obrigatoriamente veicula um determinado sistema com os seus princípios e as suas opções, com todas as suas potencialidades facilitadoras da tarefa da humanização, mas também com todas as suas limitações. Não há que ignorar que toda a cultura é relativa e balizada sendo, pois, portadora de certas limitações que dificultam o correto exercício do ser homem e mulher. Não há também que ignorar, que todas as mediações culturais estabelecem um certo sistema de classificações que incluem obrigatoriamente preferências e opções e que se encontram sempre marcados pela ideologia ou ideologias em vigência.

Esta constatação, se bem que mostre os limites e a provisionalidade de toda a mediação cultural, em nada afeta a afirmação de que a cultura é aquilo que é mais natural no ser humano, ou, dito de outro modo e utilizando as palavras do próprio Luís Duch, «em cada caso, a natureza de tal homem em concreto encontra-se constituída (vai constituindo-se) por meio das possibilidades e dos limites que são inerentes não à cultura em geral, mas à sua cultura concreta, no interior da qual a mulher e o homem concretos se instalam como seres históricos». 

A cultura é, pois, uma realidade indispensável para compreender o próprio ser humano. Toda a reflexão antropológica que queira ser minimamente séria não pode ignorar este dado, apesar de todas as suas ambiguidades e limitações, e isto porque sabe que o próprio ser humano se define a si mesmo, responde as suas questões fundacionais e reflete a realidade que o rodeia em ordem a transforma-la no seu mundo, sempre através da mediação cultural.

Apesar de não ser possível reduzir o ser humano à mera dimensão histórica, pois vem de um «prius histórico» e encaminha-se para um «supra histórico» a verdade é que a cultura constitui a forma de existência histórica do ser humano: a cultura é o modo de existência verdadeiramente humano; um modo de existência que em cada momento histórico recria e transmite o passado no presente para que possa nascer o futuro. Como repetidamente afirma Lluís Duch, para o ser humano não há verdadeira possibilidade extra cultural.

 

Juan Ambrosio
Professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa
© SNPC | 18.04.12

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