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Leitura: "A Igreja em diálogo com o mundo"

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Leitura: "A Igreja em diálogo com o mundo"

"A Igreja em diálogo com o mundo" recolhe um conjunto de reflexões escritas por D. João Lavrador no semanário "Voz Portucalense", da diocese do Porto, de que foi até há semanas bispo auxiliar, antes de o papa Francisco o ter nomeado bispo coadjutor de Angra.

O volume, de que apresentamos alguns excertos, vai ser apresentado a 22 de novembro, no Paço Episcopal do Porto, às 17h30, após a cerimónia de homenagem organizada pela diocese.

A sessão conta com as intervenções do bispo diocesano, D. António Francisco dos Santos, que prefacia a obra, do diretor da "Voz Portucalense", P. Manuel Correia Fernandes, e do P. José Carlos Nunes, diretor da Paulus Editora, que publica o livro.

A coletânea compreende 86 títulos, redigidos entre julho de 2009 e julho de 2015, divididos em sete capítulos: "Evangelho e cultura", "Promover a justiça e a paz", "Testemunhar a alegria do Evangelho", "Promover a renovação comunitária", "Comunidade e ministérios", "Alguns âmbitos educativos - Família/Escola" e "Maria de Nazaré".

«Sabemos todos quanto a cultura molda o ser humano e como, por seu lado, a pessoa faz a cultura. Importa, por isso, que o Evangelho, os seus critérios éticos e os seus valores pedagógicos fermentem a própria cultura. Muitos dos dramas do nosso tempo e, em grande parte, a insegurança que a sociedade sente perante o futuro devem-se a esta rutura da cultura com o Evangelho», aponta o bispo do Porto no prefácio.

Para D. António Francisco dos Santos, «preside à elaboração dos textos o desejo de ajudar o leitor a ser protagonista da evangelização mais do que seu destinatário, interventor num mundo em mudança mais do que recetor da mudança do mundo, comprometido com a missão da Igreja mais do que espectador passivo do que diariamente acontece».

D. João Lavrador, de 59 anos, acompanha de perto, desde há uma década, o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, primeiro como Referente da diocese de Coimbra, e mais recentemente como vogal da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais.

A 29 de novembro, D. João Lavrador entra solenemente na diocese de que vai ser bispo, após a aceitação pelo papa Francisco do pedido de resignação do atual prelado, D. António Sousa Braga, que provavelmente ocorrerá quando completar 75 anos, a 15 de março de 2016.

 

A Igreja de todos e para todos
D. João Lavrador
In "A Igreja em diálogo com o mundo"

Estamos a celebrar os cinquenta anos do Concílio Vaticano II. No documento que se refere à natureza e missão da Igreja, "A luz dos povos", esta é apresentada como mistério de comunhão que mergulha as suas raízes na Trindade divina e se concretiza no chamamento de Deus a constituir-se como Povo peregrino e evangelizador.

Já muito se avançou na consciencialização da comunhão eclesial e da participação de todos os batizados na vida e missão da Igreja. Contudo, é frequente ouvir-se a advertência não só do afastamento entre os pastores e os fiéis leigos, da dificuldade dos consagrados na vida das comunidades cristãs, mas também da exígua corresponsabilidade de cada um dos membros da Igreja na sua missão.

Passados estes anos, não é tão sensível quanto se desejaria a consciência da vinculação comunitária daqueles que receberam os sacramentos da iniciação cristã. A Eucaristia, sacramento gerador da comunhão e edificador da comunidade, é vivida, por muitos, apenas na dimensão espiritual e individual.

Os órgãos de comunhão, participação e corresponsabilidade ainda não atingiram, em muitas comunidades cristãs, o grau de exigência que proporcione não só a coordenação da vida pastoral mas sobretudo a reflexão acerca da cultura circundante e suas correntes dominantes, pelas quais se pode ou não propor uma autêntica inculturação da fé.

Daí, tal como afirma o Papa Francisco no documento programático "A alegria do Evangelho"(EG), urge uma Igreja de todos e para todos. Segundo o Pontífice, «ser Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projeto de amor do Pai». E, nas suas palavras, «isto implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e levar a salvação de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o caminho». Termina dizendo que «a Igreja deve ser o lugar da misericórdia gratuita, onde todos se possam sentir acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho» (n.º 114).

Quando se diz que a Igreja é para todos, não se está a querer oferecer uma visão de cristandade típica de tempos passados, nem a isentar de um processo de conversão que, através da adequada formação catecumenal, oriente o homem para uma opção livre, consciente e conforme com o Evangelho.

O que se exige é, antes de mais, focarmo-nos na proposta de Jesus Cristo, que enviou os seus Apóstolos a todo o mundo com o mandato de ensinar e batizar, e deste modo fazer discípulos (cf. Mt 16,15-16). Mas também colocar o nosso olhar nas realidades humanas e sociais que confrontam a Igreja para encontrar uma resposta no acolhimento e na misericórdia.

Por isso, lembra o Papa Francisco que «a salvação, que Deus nos oferece, é obra da sua misericórdia». Sublinha, então, que «não há ação humana, por melhor que seja, que nos faça merecer tão grande dom». Para concluir que «a Igreja é enviada por Jesus Cristo como sacramento da salvação oferecida por Deus. Através da sua ação evangelizadora, ela colabora como instrumento da graça divina, que opera incessantemente para além de toda e qualquer possível supervisão» (EG, n.º 112).

É urgente o despertar do ímpeto missionário em todos os membros da comunidade cristã. A missão é essencial à natureza cristã do batizado. Di-lo o Papa Francisco quando refere que «em virtude do Batismo recebido, cada membro do povo de Deus se tornou discípulo missionário (cf. Mt 28, 19)». Isto significa que «cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização», e sublinha que «seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas recetor das suas ações» (EG, n.º 120)

Só com a participação de todos os fiéis cristãos no pensar, no discernir, no programar e no executar da atividade missionária da Igreja é possível atingir todos os homens que no íntimo de si mesmos procuram Cristo mesmo sem o saberem. Porque, «se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, não precisa de muito tempo de preparação para sair a anunciá-lo, não pode esperar que lhe deem muitas lições ou longas instruções. Cada cristão é missionário na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus.» (Ibidem, n.º 120)

Com esta convicção reconhece-se não só que a missão está ao alcance de cada um dos batizados, mas também que toda a formação cristã tem de incluir a vivência da comunhão eclesial, a participação no apostolado e a responsabilização de todo o fiel cristão na vida da comunidade.

É dever dos agentes pastorais proporcionar o melhor meio de «comunicar Jesus que corresponda à situação em que vivemos. Seja como for, todos somos chamados a dar aos outros o testemunho explícito do amor salvífico do Senhor, que, sem olhar às nossas imperfeições, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua força, e dá sentido à nossa vida.» (Ibidem,
n.º 121)

O mundo de hoje volta a olhar para a Igreja como quem tem fome de Deus. O alimento a dar deve ser o genuíno Evangelho e não a maneira de pensar de cada um. Por isso, só quem se encontra com Jesus Cristo aprende d’Ele mesmo o modo de acolher e de oferecer a Vida que a pessoa humana, na cultura atual, procura e anseia. Ninguém pode ficar excluído de receber a Vida e de a comunicar.

 

A comunidade cristã é o agente evangelizador
D. João Lavrador
In "A Igreja em diálogo com o mundo"

Dada a importância que o ministério sacerdotal manifesta na comunidade cristã, acabou por se ver reduzida a ministerialidade da Igreja, tão rica e diversificada nas primeiras comunidades, à figura do presbítero. Apesar da renovação e refontalização que a reflexão conciliar e pós-conciliar provocaram, ainda é muito difícil reconhecer, em muitas paróquias, que a missão evangelizadora é obra de toda a comunidade cristã.

Acrescentemos a esta verificação uma outra que tem a ver com o lamento de tantas vozes que denunciam a falta de verdadeiras comunidades cristãs. Isto é, ainda encontramos muitas paróquias num estilo de procura de serviços prestados pelo presbítero e por alguns colaboradores, e não uma consciência nuclear da responsabilidade que cabe a todos os membros do Povo de Deus, que através do batismo são discípulos de Jesus Cristo e por isso por Ele convidados a testemunharem a vida nova em Cristo no meio do mundo.

Vejamos alguns traços de uma comunidade cristã:

– Comunidade cristocêntrica. Implica uma iniciação cristã capaz de permitir uma experiência de encontro pessoal com Cristo de modo a que se reconheça verdadeiramente o Deus cristão, o Deus-Pai revelado por Jesus Cristo e a ação do Espírito Santo na comunidade e em cada crente. Trata-se, deste modo, de implantar comunidades que tornem presente no mundo o Reino de Deus anunciado e iniciado por Jesus Cristo.

– Comunidade convocada pela Palavra de Deus. Implica uma constante escuta da Palavra de Deus que conduz a uma contínua conversão de vida em ordem a uma atitude de resposta fiel e generosa à vontade de Deus (cf. At 2,42).

– Comunidade centrada na Eucaristia. A comunidade nasce, tal como a Igreja, da celebração da Eucaristia, banquete eucarístico, onde Jesus Se entrega no seu Corpo e no seu Sangue, para alimento dos fiéis. Aí se gera o Corpo Eclesial (cf. 1Cor 10,17).

- Comunidade que exprime a Comunhão. Toda a comunidade cristã que se alicerça na Trindade Divina – na Comunhão do Pai, Filho e Espírito Santo –, e se alimenta da Comunhão no Corpo e Sangue de Cristo, vive e testemunha esta mesma Comunhão. Por isso, vive em todos os seus membros o amor fraterno e corresponde à vontade de Jesus Cristo que diz: «Nisto conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros.» ( Jo 13,35) O amor fraterno caracteriza-se pelo serviço e pela preferência pelos mais pobres.

– Comunidade missionária. Toda a comunidade cristã, para ser verdadeiramente eclesial, é, em todos os seus membros, necessariamente missionária, isto é, reconhece a sua missão no meio do mundo. Certamente que a alegria, a esperança, a generosidade, são características de uma comunidade cristã, mas teríamos ainda de acrescentar como critério de verdadeira comunidade amadurecida pela Palavra e pela vivência da Eucaristia, a fecundidade das vocações sacerdotais, religiosas e missionárias, sem excluir as matrimoniais. O testemunho de vida dos batizados, constituídos em comunidade cristã, deve despertar em quem o observe um conjunto de perguntas sobre a fonte do seu ser e do seu atuar. Como diz o beato Paulo VI, «este testemunho constitui, por si mesmo, uma proclamação silenciosa, mas muito clara e eficaz da Boa Nova» (EN, n.º 21).

– Comunidade diversificada nos carismas e ministérios e corresponsável pela missão. Por uma iniciação cristã bem feita e pela inserção ativa na comunidade cristã, cada um dos batizados descobre os dons do Espírito e o serviço a que o Senhor o convida a realizar em ordem à única missão da Igreja no mundo: evangelizar. Comunidade que se sente animada, estimulada e orientada pelo ministério sacerdotal, do bispo e do presbítero.

– Comunidade que se abre a outras comunidades. A paróquia deve ser entendida como comunidade de comunidades. No interior da paróquia crescem grupos e movimentos que, na comunhão eclesial, ajudam ao fortalecimento dos laços fraternos e animam a missão de todo o Povo de Deus. Mas abre-se também à comunhão com outras paróquias, à diocese e à Igreja Universal. Hoje, sente-se que o espaço de melhor partilha e expressão da missão eclesial é a vigararia. Animada e coordenada por um vigário, é a realidade eclesial que exprime a comunhão eclesial entre os sacerdotes e os demais agentes evangelizadores, na proximidade e com a extensão suficiente para que os diversos serviços à missão se possam desempenhar.

Da comunidade cristã nasce sempre o anúncio da Boa Notícia do Reino que convida cada pessoa à vida em Cristo e ao seu seguimento. Mesmo no testemunho e no anúncio individual, é essencial que aquele que o realiza saiba que está integrado numa comunidade eclesial e é em nome desta que exerce a sua missão.

 

Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 17.11.2015

 

Título: A Igreja em diálogo com o mundo
Autor: D. João Lavrador
Editora: Paulus
Páginas: 384
Preço: 18,00 €
ISBN: 978-972-301-901-8

 

 
Imagem Capa | D.R.
Sabemos todos quanto a cultura molda o ser humano e como, por seu lado, a pessoa faz a cultura. Importa, por isso, que o Evangelho, os seus critérios éticos e os seus valores pedagógicos fermentem a própria cultura. Muitos dos dramas do nosso tempo e, em grande parte, a insegurança que a sociedade sente perante o futuro devem-se a esta rutura da cultura com o Evangelho
É frequente ouvir-se a advertência não só do afastamento entre os pastores e os fiéis leigos, da dificuldade dos consagrados na vida das comunidades cristãs, mas também da exígua corresponsabilidade de cada um dos membros da Igreja na sua missão
Os órgãos de comunhão, participação e corresponsabilidade ainda não atingiram, em muitas comunidades cristãs, o grau de exigência que proporcione não só a coordenação da vida pastoral mas sobretudo a reflexão acerca da cultura circundante e suas correntes dominantes, pelas quais se pode ou não propor uma autêntica inculturação da fé
O mundo de hoje volta a olhar para a Igreja como quem tem fome de Deus. O alimento a dar deve ser o genuíno Evangelho e não a maneira de pensar de cada um. Por isso, só quem se encontra com Jesus Cristo aprende d’Ele mesmo o modo de acolher e de oferecer a Vida que a pessoa humana, na cultura atual, procura e anseia
Apesar da renovação e refontalização que a reflexão conciliar e pós-conciliar provocaram, ainda é muito difícil reconhecer, em muitas paróquias, que a missão evangelizadora é obra de toda a comunidade cristã
Certamente que a alegria, a esperança, a generosidade, são características de uma comunidade cristã, mas teríamos ainda de acrescentar como critério de verdadeira comunidade amadurecida pela Palavra e pela vivência da Eucaristia, a fecundidade das vocações sacerdotais, religiosas e missionárias, sem excluir as matrimoniais
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