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A obra religiosa de Marcos António Portugal

A Biblioteca Nacional de Portugal lançou no final de março o volume “A obra religiosa de Marcos António Portugal, 1762-1830”, de António Jorge Marques.

«O corpus da obra religiosa de Marcos Portugal, tema praticamente omisso na musicologia luso-brasileira, foi aqui organizado e descrito em pormenor num catálogo temático (com incipit musicais), permitindo uma visão global – ainda que necessariamente incompleta – deste repertório, da sua disseminação, e indiciando uma alargada influência na produção de outros criadores e nos paradigmas composicionais», escreve o autor na nota de lançamento.

A investigação correspondente à tese de doutoramento, de que oferecemos o prefácio, é apresentada no ano em que se assinala o 250.º aniversário do nascimento do compositor.

A Biblioteca Nacional de Portugal anuncia que entre setembro e dezembro vai organizar uma exposição sobre o compositor, cujo núcleo será proveniente dos seus fundos e da Biblioteca da Ajuda, «possuidores de um importante acervo marciano, onde se inclui uma boa parte dos autógrafos musicais em existência».

 

Prefácio
David Cranmer

«Sacred: numerous masses, Credos, Glorias, hymns, matins, psalms, Te Deums, sequences, litanies, antiphons, Lamentations, canticles, etc. P-La, Ln, Mp

Assim, sem mais, no seu verbete para The New Grove Dictionary of Music and Musicians, na 1.ª edição, de 1980, Gerard Béhague se livra da necessidade de incluir a música religiosa na lista de obras de Marcos Portugal: somente uma lista de géneros sacros e três localizações para as suas fontes. Culpado do mesmo pecado é o autor deste prefácio, que seguiu precisamente este modelo reducionista no seu artigo para a 2.ª edição do mesmo dicionário (2001). Marcos Portugal era considerado essencialmente como um compositor de óperas italianas, que por acaso também compunha música sacra, uma música para todos os devidos efeitos desconhecida e presumivelmente sem grande interesse. Agora, apenas 10 anos mais tarde, tornou-se impossível continuar a ignorar o repertório religioso, graças às investigações infatigáveis de António Jorge Marques, cujos resultados se publicam no presente volume e que tornam imperiosa uma reavaliação de base de toda a produção musical de Marcos Portugal.

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Este catálogo temático mostra, antes de mais, a vasta produção sacra do compositor, as suas estruturas e temas, e o paradeiro das fontes conhecidas. Revela, contudo, muito mais ainda. São exemplos:

- À exceção dos dois períodos que o compositor passou em Itália, entre finais de1792 e 1800, Marcos Portugal, ao longo da sua carreira, nunca deixou de compor música religiosa.

- Trabalhou na música religiosa de uma forma especialmente intensa nos meses que antecederam a 1.ª invasão francesa (1807), com composições destinadas à Basílica de Mafra.

- Várias das obras para Mafra foram revistas (ou mesmo recompostas) para outros cantores e recursos no Rio de Janeiro (a partir da sua chegada a esta cidade, em 1811).

- Em qualquer espólio de música religiosa em Portugal é quase inevitável a existência de partituras de Marcos Portugal.

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- Foram encontrados manuscritos também no Brasil, em vários países europeus e em Macau.

- Cem anos após a sua composição, algumas das suas obras mais populares ainda se mantinham no repertório em Portugal.

- Foram conservadas múltiplas versões de muitas obras, em alguns casos feitas pelo próprio compositor, mas também realizadas por mestres de capela locais, para execução nas instituições onde atuavam.

Através dos dados fornecidos por este catálogo, tornou-se possível estudar, escolher, transcrever, executar e gravar obras sacras de Marcos Portugal, porque agora sabemos exatamente o que existe e onde se encontram as fontes. Agora podemos afirmar com convicção, com base num conhecimento muito real, que a música religiosa deste compositor é de grande valor em termos absolutos, em tudo comparável à dos mais destacados autores europeus da sua época.

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Se António Jorge Marques se tivesse limitado à elaboração de um catálogo temático strictu sensu, com um simples ensaio introdutório, já teria cumprido um trabalho de vastas proporções. No entanto, o autor escolheu um caminho mais duro e espinhoso ainda, abrangendo uma série de estudos complementares, que, por um lado, permitiram a datação mais exata das obras, mas, por outro, resultaram adicionalmente na disponibilização de informações e ferramentas de pesquisa da maior importância. Encontrou novos dados biográficos de relevo sobre o compositor, corrigindo, por exemplo, a data do seu falecimento e estabelecendo com exatidão quando viajou para o Brasil (e em que circunstâncias). O seu estudo sobre as fontes – as marcas de água bem como as caligrafias do compositor e dos copistas – não só esclareceram aspetos destas fontes em particular, mas ajudarão bastante na datação e identificação de proveniências de manuscritos de outros compositores luso-brasileiros contemporâneos de Marcos Portugal.

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Ao longo das investigações de António Jorge Marques, tive a tarefa de acompanhar o seu trabalho, como orientador da sua tese de doutoramento – o texto base desta edição. Foi uma orientação exigente, porque o orientando insistiu sempre em fazer tudo “como deve ser”, não admitindo qualquer atalho ou meia verdade. O rigor científico e a persistência estão patentes em todas as páginas do catálogo e dos textos. Para mim, foi um prazer poder seguir tão proximamente o percurso cujos frutos se publicam aqui. E agradeço ao seu autor a honra do convite para escrever este prefácio.

 

Biografia
Biblioteca Nacional de Portugal

Marcos António da Fonseca Portugal [Marco Portogallo] (Lisboa, 24.03.1762 – Rio de Janeiro, 17.02.1830) ingressou no Seminário da Santa Igreja Patriarcal de Lisboa aos 9 anos, onde estudou com João de Sousa Carvalho e provavelmente com José Joaquim dos Santos. Na Patriarcal foi admitido como organista (1782) e, a partir de 1 de setembro de 1787, também formalmente como compositor, passando a receber um salário anual de 200$000 reis. No ano de 1782 recebe a primeira encomenda da Família Real, uma Missa com instrumental (para vozes e orquestra) para a festividade de Santa Bárbara, evento que viria a marcar decisivamente o seu percurso profissional e estético, pelas constantes encomendas, pelos cargos e mercês concedidos, e pela progressiva modificação do seu estilo, na tentativa de agradar a D. João e adaptar-se à importante função sociopolítica que a sua música desempenhou.

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Até 1792, e depois de ter sido admitido na Irmandade de S. Cecília a 23 de julho de 1783, acumulou o emprego na Patriarcal com o de Mestre de Música do Teatro do Salitre (a partir de c.1784) para o qual compôs entremezes, elogios e óperas em português.

Em setembro de 1792 parte para Itália onde estreia mais de 21 óperas, a maior parte delas opere buffe, com um sucesso sem precedentes, com centenas de réplicas e milhares de representações em Itália e por toda a Europa.

De volta a Lisboa em meados de 1800, é nomeado Mestre de Solfa do Seminário da Patriarcal e Mestre de Música do Real Teatro de S. Carlos, onde compõe essencialmente opere serie, quase todas com papeis principais escritos expressamente para a célebre Angelica Catalani. Durante os anos 1806 e 1807, Marcos Portugal compõe mais de 20 obras religiosas para as vozes masculinas dos monges arrábidos, e para o conjunto único de 6 órgãos da Basílica do Palácio de Mafra, onde o Príncipe Regente tinha passado a residir em consequência do abortado golpe do outono de 1805.

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Por vontade expressa do Monarca, Marcos juntou-se à corte portuguesa no Rio de Janeiro, cidade para onde se tinha transferido no advento das invasões francesas. Após a sua chegada, a 11 de junho de 1811, foi nomeado Mestre de Suas Altezas Reais os infantes, e incumbido de compôr a música para as ocasiões de maior significado religioso, social e político, quando D. João VI estivesse presente, ou seja, música adequada à encenação do esplendor e grandiloquência do Poder Real, com a Capela Real como palco privilegiado. A produção deste período é, por isso, quase exclusivamente dedicada à música religiosa.

A situação dos músicos alterou-se radicalmente com o regresso da corte para Portugal, e a subsequente Independência do Brasil em 1822. A importância estratégica que a música de Marcos tinha tido, perdeu-se. A música do seu aluno D. Pedro, primeiro Imperador do Brasil, substituiu a música do mestre nas ocasiões mais importantes.

De acordo com Artigo 6. § 4º, da primeira Constituição do Brasil, de 1824, os cidadãos portugueses residentes que permanecessem no Brasil, automaticamente adquiriam a nacionalidade brasileira. Marcos Portugal não só se tornou brasileiro, como compôs um Hino da Independência do Brasil, cantado nas comemorações do 7 de setembro durante dezenas de anos.

 

Imagens: Partituras de missas compostas por Marcos Portugal (Digitalização: Biblioteca Nacional de Portugal)
17.04.12

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Capa

A obra religiosa de
Marcos António Portugal

Autor
António Jorge Marques

Editora
Biblioteca Nacional
de Portugal

Ano
2012

Páginas
1052

Preço
35,00 €

ISBN
978-972-565-4729

 

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