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Comentário às leituras do 4.º Domingo do Tempo Comum (C)

Aceitar a humildade, confiar na contradição, amar o serviço

Comentário às leituras do 4.º Domingo do Tempo Comum (3.2.2013)

Para apresentar o percurso de Jesus cada evangelista segue um plano próprio, que começa pelos acontecimentos que, aos seus olhos, são paradigmáticos da boa nova que ele anuncia.

S. Mateus começa pela proclamação do Reino, em palavras e em atos: as Bem-aventuranças e o sermão da montanha, à semelhança da proclamação da Lei no Sinai. S. Marcos mostra, numa passagem por Cafarnaum, as diferentes dimensões da ação de Jesus. A narrativa de S. João abre-se para uma semana inaugural que se conclui no dia de Caná onde os discípulos veem a glória de Jesus.

S. Lucas, através do relato dos factos que se desenrolaram na sinagoga de Nazaré, deixa pressagiar a recusa do povo face a Jesus e a transferência para fora de Israel, ou melhor, o alargamento da salvação que Cristo leva ao ser humano.

 

A perspetiva de Lucas

Note-se que a entrada de Jesus na sinagoga de Nazaré está separada das suas tentações no deserto por apenas dois versículos lacónicos: «Impelido pelo Espírito, Jesus voltou para a Galileia e a sua fama propagou-se por toda a região. Ensinava nas sinagogas e todos o elogiavam» (Lucas 4, 14-15).

No último domingo lemos a primeira parte desta narrativa. No dia de Sábado Jesus entra na sinagoga, recebe o livro de Isaías para ler e encontra a passagem onde está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim».

Jesus proclama – e é aí que começa a leitura deste quarto domingo do Tempo Comum - «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Esta afirmação suscita reações que vão modificar-se progressivamente. «Todos davam testemunho em seu favor».

O primeiro movimento da assistência é favorável ao reconhecer que ele pronuncia palavras de graça. São Lucas notou-o. Não é o filho de Maria, «cheia de graça»? E Jesus chegou aqui depois de crescer «em sabedoria, em estatura e em graça, diante de Deus e dos homens» (Lucas 2, 52).

Começam depois a aparecer algumas dúvidas: «Todos se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca». 

Em poucas frases passamos da aprovação unânime à rejeição, que chega à intenção de o matar. Lendo a maneira como Lucas relatou o acontecimento, é natural considerar a conduta de Jesus como provocadora. Efetivamente ele quer clarificar os pensamentos e as dúvidas dos seus ouvintes.

Após um impulso inicial os habitantes de Nazaré perdem o entusiasmo admirativo em favor de um certo realismo. Como é que o filho de José se pode dizer marcado pela unção do Espírito Santo? E as resistências aumentam. Por quem se toma ele? É um pretensioso, um louco ou um impostor. Mesmo os familiares de Jesus querem dominar as suas palavras, visto que diziam: «Está fora de si» (Marcos 3, 21).

Esta questão vai atravessar todo o Evangelho e chega até hoje. Para muitos dos nossos contemporâneos as verdades essenciais da fé e da boa nova são desconcertantes, e até provocantes.

«Por quem se toma a Igreja?» Ela devia adaptar melhor a sua doutrina e o seu pensamento para estar a par da religiosidade do futuro...

Neste sentido é útil ler S. Lucas à luz das passagens paralelas dos dois outros evangelhos sinópticos. O ceticismo e a ausência de fé dos habitantes de Nazaré exprimem-se mais claramente em S. Mateus (13, 53-58) e S. Marcos (6, 1-6).

S. Lucas dá-lhes outra perspetiva, totalmente derivada de S. Paulo. O Evangelho anunciado por Jesus falhou na sua pátria; por isso deve ser proclamado fora dela. Esta constatação dirige o plano de toda a obra de S. Lucas, incluindo os Atos dos Apóstolos.

Começa com o anúncio de Zacarias no templo de Jerusalém. É assim igualmente nas narrativas da infância de Jesus. Os pobres (pastores) e os pagãos (magos), reconhecem; os poderosos recusam (Herodes e a sua corte). E esta tendência termina com a chegada de Paulo a Roma, ao centro do império pagão (Atos 28, 14). Também lá Isaías é citado, também lá há contradição: «Alguns deixaram-se persuadir com as suas palavras; outros, porém, mantiveram-se incrédulos».

Também nós precisamos de assumir que o pensamento de Deus nunca reunirá a unanimidade. Mas este facto não é razão para nos encerrarmos numa “fortaleza de certezas”. O maior conhecimento de Deus passa em primeiro lugar e sempre pela caridade (1.ª Carta aos Coríntios, 4, 13).

 

A “maneira de fazer” de Deus

S. Lucas une-se, assim, às palavras de S. Paulo aos Coríntios, com quem partilhou o ministério. Para além da esperança e da fé, toda a ação de Deus deve ser lida à luz do olhar que Deus nos lança, que não é um olhar humano, admirador dos dons que recebemos.

«Agora, vemos como num espelho, de maneira confusa» (1 Coríntios 13, 12). Em Nazaré eles não viam aquele de que falava Isaías, mas apenas o filho de José, o seu compatriota. Viam «como num espelho, de maneira confusa».

Também os nossos contemporâneos. Talvez a população de Nazaré tenha esquecido a maneira de fazer que é própria de Deus. Deus não escolhe os notáveis. Não os recusa se aceitarem tornar-se pobres em espírito, isto é, despojados dos seus pontos de vista humanos e pessoais. Quando Deus vem, vem na humildade do pensamento e do agir. O filho do carpinteiro não pode ser um enviado de Deus. Não é digno de Deus, pensavam eles.

Um segundo mal-entendido entre Jesus e os seus ouvintes desconcertados é a forma de realizar, para os seus, os mesmos milagres que fez a 20 km de distância. Esta intimação de fazer milagres lembra a tentação do diabo: «Se tu és o filho de Deus, ordena…» (Lucas 4,3).

Estão aqui anunciados os desafios lançados a Cristo: «Se tu és o rei dos Judeus, salva-te a ti mesmo», como lemos em Lucas 23, 27, quando Jesus está preso à cruz. Em Nazaré Jesus desconstrói este raciocínio: «Por certo Me citareis o ditado: “Médico, cura-te a ti mesmo”. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». Eles pensam que têm prioridade sobre Jesus. É o inverso de uma atitude de fé.

 

A universal liberdade de Deus

Aquele que pensa possuir direitos sobre Deus nunca o encontrará. Jesus vai dar aos habitantes de Nazaré dois exemplos de ação divina em favor de pagãos enquanto que o povo de Israel dela parecia excluída, como sucede em Nazaré.

Estes exemplos ligam-se a dois profetas muito unidos entre si: Elias e Eliseu. Eles falaram e agiram não longe da Galileia, no Reino do Norte. Os ouvintes de Jesus não podiam ser mais diretamente atingidos pela evocação dos seus milagres, tanto mais que não podiam duvidar dos seus títulos de profeta, dado que Elias estava assinalado como devendo estar presente nos dias do Messias.

Não seria admissível conceber que Elias e Eliseu eram traidores ou indiferentes ao destino de Israel. Elias promete à mulher de Sarepta um alimento inesgotável «em nome do Senhor Deus de Israel» (1.º livro dos Reis 17, 14). Quando Naaman foi curado da lepra, depois de obedecer à ordem de Eliseu, professa a sua fé: «Reconheço agora que não há outro Deus em toda a Terra, senão o de Israel» (2.º livro dos Reis 5, 15). Ele chega mesmo a guardar um pouco da terra de Isarel para que os sacrifícios que a partir de então oferecerá a Deus sejam legítimos.

Se os dois outros Sinópticos, S. Mateus e S. Lucas, mencionam apenas a falta de fé dos habitantes de Nazaré, S. Lucas faz seguir imediatamente a rejeição de Jesus pela violência, uma tentativa de homicídio. A lógica espiritual do Evangelho é bem iluminada. A recusa da fé encerra nas trevas e só pode provocar o desejo de eliminação daquele que escandaliza. S. Lucas experimentou-o muitas vezes com S. Paulo, durante as viagens missionárias que realizaram.

É Jesus que dá a sua vida ao Pai. Não é suicída. Levam-no «até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo», como um Gólgota prematuro fora de Jerusalém. «Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.» Ele é livre no meio deles. No evangelho lucano saberemos depressa que este caminho é o que o conduz a Jerusalém, à Paixão e à Ressurreição. A sua morte é um mistério cuja última palavra está em Deus. Jesus «andou de lugar em lugar, fazendo o bem» (Atos 10, 38).

 

O hoje de Deus

«Hoje» é uma palavra de que S. Lucas gosta muito e que emprega nos grandes momentos da existência de Jesus. «Hoje nasceu-vos um Salvador», canta o anjo aos pastores de Belém. «Hoje serás comigo no paraíso», afirma Jesus crucificado ao ladrão arrependido no último minuto da vida. «Hoje cumpriu-se esta palavra», proclama em Nazaré.

Cristo é o hoje de Deus. E nós, para estarmos com Ele, só temos o hoje entre as nossas mãos. O passado deixou de estar nas nossas mãos e o futuro está nas mãos de Deus. A nostalgia do ontem ou a preocupação do amanhã, a distração da memória ou a agitação dos projetos são “ausência” que nos impede de viver o momento que Deus nos oferece.

Para nós, como para Jesus em Nazaré, cada dia, cada instante, condensa o devir daquilo que somos. «O pão nosso de cada dia nos dai hoje», pediu-nos Jesus para repetir na oração que dirigimos ao “Pai nosso”.

 

O hino ao amor

O episódio de Nazaré dá-lhe um sentido particular. Devemos, antes de tudo, lê-lo na vida de Cristo e de cada um dos seus acontecimentos. E depois traduzi-lo na nossa existência enquanto seus discípulos.

Os ouvintes de Nazaré pensavam, sem dúvida, ter a ciência do mistério do Messias e o conhecimento de Deus graças à escuta da Escritura e aos comentários dos mestres judaicos. Têm uma fé que move montanhas mas falta-lhe ver tudo com o mesmo olhar do amor de Deus.

É uma grande lição de realismo. É fácil reconhecer os dons da graça. Mas isso é insuficiente dado que devem ser avaliados segundo o seu amor e não apenas de acordo com a sua execução pragmática.

A profusão dos dons de Deus está ao serviço do amor mútuo. São Paulo fala, neste sentido, de diaconia. É através dela que se deve ler todo o hino paulino. Diaconia ao serviço de Deus, diaconia ao serviço dos nossos irmãos. O nosso futuro é juntarmo-nos a Deus, que é o amor e a vida. Será então um tempo onde cessarão os «carismas» na incompletude das nossas ações.

Quando tudo se desvanece e desaparece, permanece o amor que é o encontro face a face de Deus e do homem para a nossa divinização. O amor nunca passará porque é o próprio ser de Deus. Esta é a única realidade. Que deve tornar-se a nossa. Tudo o mais só nos é dado para um tempo e para uma missão precisas.

 

Leituras do 4.º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Jeremias 1, 4-5.17-19

No tempo de Josias, rei de Judá, a palavra do Senhor foi-me dirigida nestes termos: «Antes de te formar no ventre materno, Eu te escolhi; antes que saísses do seio de tua mãe, Eu te consagrei e te constituí profeta entre as nações. Cinge os teus rins e levanta-te, para ires dizer tudo o que Eu te ordenar. Não temas diante deles, senão serei Eu que te farei temer a sua presença. Hoje mesmo faço de ti uma cidade fortificada, uma coluna de ferro e uma muralha de bronze, diante de todo este país, dos reis de Judá e dos seus chefes, diante dos sacerdotes e do povo da terra. Eles combaterão contra ti, mas não poderão vencer-te, porque Eu estou contigo para te salvar».

 

1.ª Carta aos Coríntios, 12, 31 – 13, 13

Irmãos: Aspirai com ardor aos dons espirituais mais elevados. Vou mostrar-vos um caminho de perfeição que ultrapassa tudo: Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como bronze que ressoa ou como címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu possua a plenitude da fé, a ponto de transportar montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que distribua todos os meus bens aos famintos e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita. A caridade é paciente, a caridade é benigna; não é invejosa, não é altiva nem orgulhosa; não é inconveniente, não procura o próprio interesse; não se irrita, não guarda ressentimento; não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O dom da profecia acabará, o dom das línguas há de cessar, a ciência desaparecerá; mas a caridade não acaba nunca. De maneira imperfeita conhecemos, de maneira imperfeita profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito desaparecerá. Quando eu era criança, falava como criança, sentia como criança e pensava como criança. Mas quando me fiz homem, deixei o que era infantil. Agora vemos como num espelho e de maneira confusa, depois, veremos face a face. Agora, conheço de maneira imperfeita, depois, conhecerei como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade.

 

Lucas 4, 21-30

Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho.

 

Comentários: P. Jacques Fournier
In Conferência Episcopal Francesa
© SNPC (trad.) | 02.02.13

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