Literatura
Antero de Quental
Assim se expressa José Calvet de Magalhães sobre a origem de Antero de Quental: «Nessa mágica ilha de S. Miguel, coberta de prados verdes, de tufos de hortênsias azuis orlando os caminhos, de lagoas profundas e misteriosas e de vulcões adormecidos, nasceu, em 18 de abril de 1842, Antero de Quental, um homem estranho, física e intelectualmente, cujo nome ficaria na história como um dos grandes poetas nacionais».
Antero de Quental, poeta da nossa gente, era filho de Fernando de Quental, proprietário e descendente de uma família fidalga de S. Miguel, e de D. Ana Guilhermina da Maia, nascida em Setúbal e filha do desembargador Antero José Maia e Silva.
O menino Antero nasceu na cidade de Ponta Delgada e foi batizado na igreja matriz de S. Sebastião, no dia 2 de maio de 1842 pelo pároco da terra. A infância decorreu em Ponta Delgada, em casa de seus pais. Frequentou o colégio particular «Liceu Açoriano», dirigido por Pedro de Alcântara Leite.
No ano de 1852 foi para Lisboa para frequentar o Colégio do Pórtico de António Feliciano de Castilho, que viria a ser encerrado em abril do ano seguinte, pelo que regressou a Ponta Delgada. Continuou os seus estudos e em 1855 foi aprovado no exame de instrução primária. Nesse mesmo ano partiu novamente para a capital a fim de ingressar na Escola Académica de Lisboa. Em 1856 seguiu para Coimbra, onde frequentou o Colégio de S. Bento, dirigido pelo padre António Xavier Pinto Homem.
Em 1858 matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Nos primeiros tempos na Lusa Atenas viveu em casa do seu tio, Filipe de Quental, que terminava o curso de Medicina. Depois passou a viver em casa de amigos. Filipe de Quental possuía uma enorme livraria, onde Antero descobriu Proudhon, o seu autor preferido toda a vida.
Era fechado no seu quarto que Antero escrevia os seus poemas, que publicou em 1859 em revistas como “Prelúdios Literários” e “O Fósforo”. Foi também nos “Prelúdios” que editou o seu primeiro trabalho em prosa, intitulado “Educação das Mulheres”.
Estava Antero no terceiro ano de Direito, em 1860, quando conheceu em Coimbra o seu conterrâneo Teófilo Braga, que se instalou em casa de Filipe de Quental. Ainda nesse ano, Antero fundou a revista mensal “O Académico”, juntamente com João de Deus, Alberto Sampaio, Alberto Teles, entre outros. No verão organizou uma “Lírica Açoriana” com Alberto Teles.
No ano de 1861, Antero publicou o seu primeiro livro, editado em Coimbra por Stenio (pseudónimo de Alberto Teles), sob o título “Sonetos de Antero”, com 21 poemas. Em 1861-1862 criou com outros a “Sociedade do Raio”. Em 1863 conheceu Eça de Queiroz, também ele estudante de Direito em Coimbra, publicou o poemeto «Beatrice» e concluiu as suas «Odes Modernas», que só seriam publicadas em 1864.
Tornou-se bacharel “nemine discrepante” em Direito pela Universidade de Coimbra em 1864. Em janeiro do ano seguinte redigiu o opúsculo “Defesa da Carta Encíclica de Sua Santidade Pio IX contra a chamada opinião liberal”. Escreveu ainda, em 1865, “Bom Senso e Bom Gosto: Carta ao Excelentíssimo Senhor António Feliciano de Castilho”, onde afirma que este havia praticado uma ação desonesta atacando o direito à independência da “Escola de Coimbra”, da qual o próprio Antero e Teófilo eram os principais protagonistas. A carta gerou grande polémica, dando origem a uma quantidade enorme de artigos e opúsculos a favor ou contra tal Escola.
No ano de 1871 deu início às chamadas “Conferências Democráticas”, também chamadas “Conferências do Casino”, com a colaboração de Eça, Adolfo Coelho, Manuel de Arriaga, Oliveira Martins, José Falcão, Batalha Reis, entre outros que constituíam o chamado “Grupo do Cenáculo”. Os encontros, abertos a todos, procuraram tratar as grandes questões contemporâneas, religiosas, políticas, sociais, literárias e científicas. A 27 de maio de 1871 Antero proferiu a primeira conferência sobre “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares nos últimos Séculos”. Em novembro desse ano mudou-se para o Porto onde viveu com o seu amigo Germano Meireles, que dirigia o “Primeiro de janeiro”.
Antero volta para Lisboa em 1872, uma vez que sua mãe e sua irmã tinham ido viver para a capital. Instalou-se primeiramente numa mansarda do prédio número 135 da Rua dos Douradores (Baixa), mas mudou-se pouco depois para uma casa de hóspedes próxima, na Rua da Madalena.
A 13 de fevereiro de 1873 foi proclamada a República espanhola e dez dias depois Antero publicou no “Pensamento Social” um artigo com o título «A República e o Socialismo», no qual tecia uma diferença entre o republicanismo e o socialismo.
Em 1876 Antero recebeu um duro golpe com a morte súbita da mãe, de 65 anos, que pouco antes de falecer pediu o viático. A 1 de julho de 1877 partiu para França, onde em Paris consultou o famoso médico Jean Martin Charcot, que lhe diagnosticou uma histeria, receitando-lhe a hidroterapia como terapêutica. Antero só regressou da capital gaulesa em dezembro de 1877, passando a residir primeiro em Lisboa, partindo depois para o Porto, onde ficou a viver em casa do seu amigo Oliveira Martins.
Antero publicou pela Livraria Portuense de Lopes & Cª os “Sonetos Completos” (1886), prefaciados por Oliveira Marques. No ano de 1889 Columbano Bordalo Pinheiro fez o retrato de Antero que se encontra no Museu do Chiado. Em 1890 publicou o ensaio “Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XX”, escrito a pedido de Eça, na “Revista Portugal”, da qual era diretor e fundador.
No dia 11 de setembro do ano de 1891 morreu Antero de Quental, suicidando-se no Largo de São Francisco, junto ao Convento da Esperança, em Ponta Delgada.
Antero escreveu o soneto “A um Poeta”, que pode ser cada um de nós:
«Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,
Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...
Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!
Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!»
L. Oliveira Marques
© SNPC |
08.06.11

Antero de Quental
Retrato: Columbano Bordalo Pinheiro









