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Revista "Arqa - Arquitetura e arte" dedica edição aos «Lugares Sagrados»
A mais recente edição da revista "Arqa - Arquitetura e arte" (julho/agosto 2013) é dedicada aos «Lugares Sagrados», tema apresentado ao longo de mais de 80 páginas com entrevistas, textos e notas sobre projetos em Portugal e no estrangeiro.
«Poderíamos afirmar que o desafio intimidante encarado por muitos arquitetos na atualidade, reside no facto de que para que os edifícios religiosos sejam afetivos devem não só ser representativos da tradição religiosa, na qual têm origem, mas ao mesmo tempo, incluir uma crítica mais universal da materialidade da cultura pós-moderna que transcende qualquer tradição específica», observa Karla Britton, professora da Yale School of Architecture, que abre a secção de entrevistas.
Para Esteban Fernández-Cobián, docente na Universidade da Corunha e autor da obra "Arquitecturas de lo sagrado: memoria y proyecto", a arquitetura religiosa é «particularmente densa» por nela ocorrerem «alguns dos desafios mais interessantes que se podem colocar a um arquiteto».
Ruta del peregrino (e foto seguinte)
«A criação de amplos espaços de reunião, com os problemas estruturais e construtivos de grande alcance que isso implica; a manifestação do espaço com toda a sua força; a materialização simbólica de uma ideia de transcendência, onde o conceito de dignidade, tão ligado ao ornamento, tem um papel fundamental; o trabalho coletivo - muitas vezes anónimo - para materializar uma arquitetura que possa converter-se no símbolo de identidade de uma comunidade» e «o diálogo com a história a partir da própria contemporaneidade» constituem algumas das especificidades da arquitetura religiosa.
Andrea Longhi, professor de História da Arquitetura no Politécnico de Turim, e autor do livro "Luoghi di culto: Architetture 1997-2007 e Architettura, Chiesa e Società in Italia", realça que há uma «ambiguidade fundamental» que deve ser declarada.

«Muitas vezes, no mundo da arquitetura o termo "sagrado" está associado com muita ambiguidade a termos como "silêncio", "isolamento", "contemplação" ou "meditação". Ora, a contemplação e a meditação nunca foram os pressupostos dos lugares de culto das religiões tradicionais do Mediterrâneo: são a comunidade, a assembleia litúrgica, o estar juntos que "formam" a arquitetura, e não uma conceção individualista da relação com a divindade», explica.
O arquiteto, urbanista e professor universitário argentino Leonardo Garabieta acentua a importância do sagrado, que «foi sempre parte da vida humana».
Mosteiro de Ronchamp (e foto seguinte)
Depois de recordar Malreaux, para quem «este será o século das religiões», o autor de "Arquitectura sagrada: un tiempo sin tiempo" observa que a eleição do papa Francisco «é uma mostra evidente» desse «ressurgir no ocidente», enquanto que no oriente «a religião e a vida quotidiana seguem como sempre, irmãs e inseparáveis».
«Desde o ano 2000 nascem, tanto na construção de igrejas católicas como evangélicas, espaços que convidam à celebração e à reunião em função dos materiais utilizados, mas especialmente no respeito às qualidades da luz e da proporção», aponta Walter Zahner.

O teólogo alemão sustenta que «só a oferta de espaços litúrgicos abertos é o passo primordial para que as pessoas se aproximem» e entrem nas igrejas para uma breve meditação ou oração.
Para o arquiteto Zorán Vukoszávlyev, docente da Budapest University of Technology and Economics, «a igreja é um "espaço público", uma transição no mundo criado pelo homem».
«A mudança na compreensão do espaço vem da orientação da "comunhão", tenta refletir as necessidades espaciais de uma comunidade - mas atenta no crescimento do papel do indivíduo», salienta o co-editor de "New lutheran churches".
Igreja e complexo de Nossa Senhora da Boa Nova, Estoril (e foto seguinte). Fotografias: João Morgado
A secção dedicada aos projetos começa com a "Ruta del peregrino", no México percurso de 117 km percorrido anualmente por dois milhões de pessoas, prossegue com a "Receção e Mosteiro de Ronchamp" (França), de Renzo Piano, junto à capela projetada por Le Corbusier, e o crematório "Uitzicht", em Kortrijk (Bélgica), assinado por Eduardo Souto de Moura e Sum Project.
A igreja da Senhora da Boa Nova, no Estoril, de Roseta Vaz Monteiro Arquitetos, é também apresentada neste dossiê, que inclui o Memorial da Abolição da Escravatura (Nantes, França), a sinagoga em Ulm (Alemanha) e a Capela de Ar (Chile).

No espaço dedicado às "Investigações", Pedro Abreu e Dulce Loução, da Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa defendem que «o sagrado é para o humano - ao ponto de o humano não o ser verdadeiramente sem o sagrado -, mas o humano não consegue produzir o sagrado», porque neste existe «um excesso relativamente à realidade (mas dentro da realidade).
No ensaio sobre design, Carla Carbone acentua que «a ordem está inequivocamente associada ao sagrado», porque «o espaço que ocupa o sagrado quer-se "limpo", claro, com sentido, com significado».
Igreja de Nossa Senhora das Necessidades (e foto seguinte). Fotografias: Fernando Guerra, Sérgio Guerra
«Todo o homem, mesmo aquele que se afirma não religioso, necessita, nas diferentes vertentes da sua vida, de domínios ou expressões do sagrado, do elevado, quanto mais não seja no brilho do veículo do seu carro de luxo. Há lugares "puros" e que se fundem com base em significados, transcendentes, suscetíveis de uma hierofania", refere.
A "Arqa" oferece ainda um conjunto de fotografias obtidas na igreja de Nossa Senhora das Necessidades, em Leiria (arq.ªs. Célia Faria e Inês Cortesão).

Editorial (excerto)
Luís Santiago Baptista
O sagrado tem sido um tema recorrente na arquitetura. Apesar disso, nas últimas décadas, a questão do sagrado tem andado afastada dos principais debates disciplinares. A isto não será estranho o processo de secularização das sociedades ditas ocidentais ao longo da modernidade.
No entanto, o sagrado nunca deixou de se manifestar das mais diversas formas nas sociedades modernas e contemporâneas, sendo a arquitetura um dos instrumentos privilegiados da sua manifestação.
Dublin, Irlanda. Foto: Paul Tierney
Porém, na contemporaneidade, a questão arquitetónica do sagrado parece habitar horizontes dificilmente conciliáveis, dividida entre duas perspectivas dominantes.
Por um lado, existe a consciência crescente do poder da criação arquitetónica para manifestar, pelas suas próprias qualidades, o transcendente e o indizível. A arquitetura, ao instaurar lugares de transcendência, contemplação e reflexão, incorpora materialmente e expressa espacialmente esse horizonte intangível do sagrado.
Intensificando a experiência subjetiva do espaço, a arquitetura pode criar pontes entre o indivíduo e o universo transcendente, algo que não deixa de estar na base das diversas religiões.
L'Aquila, Itália. Foto: Leo Torri
A abstração, minimizando a determinação linguística e simbólica da arquitetura e, deste modo, explorando as qualidades intrínsecas da experiência fenomenológica do espaço, vem responder a essa universalidade do espaço sagrado.
Mas, esta tendência diríamos ecuménica da arquitetura sagrada, não deixa de evidenciar uma certa autonomia em relação aos hábitos comunitários e rotinas rituais, de natureza mais coletiva do que individual.
Parma, Itália. Foto: Mauro Davoli
A verdade é que os grandes edifícios religiosos das últimas décadas podem ser identificados pelos seus arquitetos, no âmbito das suas investigações projetuais, muito para além da especificidade das práticas religiosas.
Por outro lado, e em sentido contrário, existe uma perspetiva centrada na experiência comunitária do ritual religioso, no qual o espaço, sendo importante, não está no fulcro das preocupações.
Capela de Santo Inácio, Universidade de Seattle, Washington, EUA
Um sentido mais participado e anónimo emerge destes pontos de vista mais programáticos, colocando a ênfase na comunhão que se realiza no espaço e não na experiência estética do espaço em si mesmo.
Neste sentido, as dimensões da permanência, como a organização do ritual, as estruturas simbólicas e as determinações do uso, adquirem uma maior preponderância, contribuindo para o estabelecer de vínculos coletivos entre os crentes constituídos em assembleia.
Capela Árvore da Vida, Seminário Maior de Braga
A arquitetura sagrada parece estar assim numa encruzilhada. Tornar-se pura experiência significante do espaço, sempre ameaçada pela proximidade às lógicas massificadas da autoria e do espetáculo, ou assumir-se como estrita prática de comunhão coletiva, perante o espectro da fragmentação e rarefação dos praticantes numa sociedade secularizada.
A estetização da experiência do sagrado contra o confinamento das práticas religiosas. No limite, como habitar esse espaço entre a sacralização do espaço e a ritualização das práticas?
Rui Jorge Martins
© SNPC |
07.08.13









