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As mulheres do papa Francisco

A mulher deve ser «plenamente associada aos processos de decisão», porque «quando as mulheres podem transmitir os seus dons, o mundo torna-se mais unido e mais em paz». Assim falava Francisco na missa de Santa Maria, Mãe de Deus, do passado primeiro de janeiro. Duas semanas depois, o papa realizou um gesto sem precedentes ao nomear a advogada italiana Francesca Di Giovanni como subsecretária para o Setor Multilateral da Secção para a Relação com os Estados, da Secretaria de Estado. Por outras palavras, a vice-ministra das Relações Internacionais (Negócios estrangeiros) da Santa Sé.

Esta nomeação feminina é talvez a de mais alto nível, tendo a nova subsecretária um papel cimeiro na Secretaria de Estado, o primeiro e mais importante dicastério (ministério) da Cúria romana com contacto direto com o pontífice, que implica inclusive uma posição de autoridade sobre bispos (em particular os núncios apostólicos (embaixadores da Santa Sé); todavia, não é a primeira nomeação "rosa" executada pelo papa. A lista ainda é exígua - fala-se de menos de uma dezena -, mas nestes sete anos de pontificado, durante os quais promoveu o ideal de uma Igreja de rosto mais feminino contra a cultura "machista" que ainda parece predominar nos organogramas eclesiais, Bergoglio confiou a várias mulheres, e ainda para mais leigas, papéis de responsabilidade em departamentos e dicastérios.

O nome que em primeiro lugar vem à mente é o de Barbara Jatta, a diretora dos Museus do Vaticano, primeira mulher a ocupar o cargo. Casada e mãe de três filhos, após quase uma década na Biblioteca Apostólica do Vaticano, Jatta foi nomeada por Francisco diretora dos "Museus do Papa" a 1 de janeiro de 2017. Desde então distinguiu-se por iniciativas interessantes, como a mostra dos Museus do Vaticano do passado verão na Cidade Proibida de Pequim, que, através da arte, criou uma ponte diplomática com a China.



No dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, Francisco quis que fossem duas mulheres a assumir cargos de decisão



Antes, Jorge Mario Bergoglio pediu expressamente e pessoalmente que fosse uma mulher a desempenhar o papel de vice-diretora da Sala de Imprensa da Santa Sé. A escolha recaiu, a 11 de julho de 2016, em Paloma Garcia Ovejero, brilhante jornalista espanhola da Rádio Cope, da Conferência episcopal Espanhola. Como diretor tinha sido nomeado o norte-americano Greg Burke. Ambos apresentaram a demissão a 31 de dezembro de 2017.

No lugar de Garcia Ovejero, após uma espera de quase oito meses, foi nomeada a jornalista brasileira Christiane Murray, mãe de dois filhos, voz histórica da redação portuguesa da Rádio Vaticano e desde 2018 colaboradora da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos na preparação da assembleia sinodal para a região panamazónica. Foi fundamental o seu papel de "guia" durante as enchentes verificadas nas conferências de imprensa durante as três semanas de outubro passado em que o encontro se realizou, no Vaticano.

A propósito do sínodo, recorde-se a decisão do papa, a 24 de maio de 2019, de nomear quatro mulheres, três religiosas e uma leiga, como consultoras da Secretaria Geral do Sínodo dos Bispos. Uma escolha saudada por vários setores como uma reviravolta histórica. Uma das nomeadas, a Ir. Alessandra Smerilli, docente de Economia na Pontifícia Faculdade de Ciências de Educação Auxilium e membro do comité científico e organizativo das Semanas Sociais dos Católicos (Conferência Episcopal Italiana), descrita por muitos como figura de grande densidade e inteligência, tinha sido nomeada pelo papa, meses antes, conselheira de Estado da Cidade do Vaticano, cargo que prevê a tarefa de prestar assistência na elaboração de leis e noutras matérias de especial importância.



Em mais de uma ocasião Bergoglio aludiu ao desejo de querer, mais cedo ou mais tarde, uma mulher a dirigir um dicastério



No dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, Francisco quis que fossem duas mulheres a assumir cargos de decisão. No fim de 2017 nomeou duas investigadoras, leigas, como subsecretárias: Gabriela Gambino, casada, cinco filhos, docente de Bioética e Filosofia do Direito e professora do Instituto João Paulo II para o Matrimónio e a Família, e Linda Ghisoni, casada, dois filhos, antes juíza instrutora do tribunal de primeira instância para as causas de nulidade do matrimónio na Vigararia de Roma, e que foi relatora na cimeira sobre a proteção de menores realizada no Vaticano em fevereiro de 2019.

O ano passado, o papa incluiu no organograma da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada sete novos membros, todas mulheres. Entre elas, seis são as superioras-gerais de ordens religiosas feminina. Para a Congregação para as Causas dos Santos nomeou Stefania Nanni, professora de História Moderna na Universidade la Sapienza, de Roma, como consultora.

A lista das "mulheres de Francisco" termina aqui. Pelo menos por agora, porque é sabido que o papa argentino quer aumentar a presença feminina na Santa Sé e nas instituições a ela ligada. Em mais de uma ocasião Bergoglio aludiu ao desejo de querer, mais cedo ou mais tarde, uma mulher a dirigir um dicastério.

Alguns, como a União Internacional das Superioras-gerais, observam com criticismo que a máquina vaticana ainda tenha um pendor demasiado masculino, e que os poucos cargos femininos de direção sejam quase sempre subordinados a homens. Um dado que, segundo a Associação, não respeita o facto de que mais da metade dos 1,3 mil milhões de católicos do mundo são mulheres, e que a pertença às ordens religiosas femininas é cerca de três vezes maior do que das ordens masculinas.

Os dados publicados em março pelo departamento de pessoal da Santa Sé atestam, no entanto, uma mudança da tendência, com a duplicação de colaboradoras nos últimos dez anos. Basta pensar que só no Governatorato da Cidade do Vaticano, por exemplo, passaram de 195 a 371.


 

Salvatore Cernuzio
In Vatican Insider
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: D.R.
Publicado em 16.01.2020

 

 
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