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Um colar de promessas e de temores: Sobre o conto "Colar de flores bravias", de Agustina Bessa-Luís

Imagem Capa (det.) | D.R.

Um colar de promessas e de temores: Sobre o conto "Colar de flores bravias", de Agustina Bessa-Luís

Por indagação de fontes extratextuais, outros críticos poderiam vir a patentear a origem deste conto até agora inédito, do seu relato e do seu cenário, em dados da biografia da escritora. Mas, abstendo-me de tal processo de inquirição e inferência, prefiro fazer notar que o tom e os motivos da narrativa sugerem ao leitor familiarizado com as grandes ficções ou digressões discursivas de Agustina aquela frequente insinuação de substrato autobiográfico que, nunca chegando este a ser claramente assumido, atua sempre como lance de eficiente cumplicidade com o leitor.

Eis-nos perante uma narrativa em que não só a protagonista, Dorinha, é uma menina e crianças são outras personagens, especialmente a prima Rosa, amiga dileta de Dorinha, como também prevalece a perspetiva infantil da protagonista, com a consequente índole das imagens percetivas e dos meios expressivos.

Todavia, não se me impõe considerar o conto como texto típico de literatura infantil, na aceção de criação estética escrita em função do intencionado leitor de primeira idade juvenil. Antes me parece pertinente ler o conto como ficção narrativa em que acontecimentos da história narrada e suas figuras centrais provêm do mundo de crianças, mas que cifra sentidos para gente grande e que a esta dirige a sua estrutura de solicitação à resposta do leitor (como também acontecerá noutros casos da obra agustiniana) – do leitor adulto que já foi criança e não desiste de enfrentar a sua condição humana mediante a seriedade brincada da escrita agustiniana, sob o princípio da incerteza.  

Se não tresleio os indícios que esta escrita oferece, trata-se de texto que datará dos tempos de primícias de Agustina, lá pelos anos quarenta do século XX – o que não será despiciendo para o leitor balancear a sua avaliação do alcance artístico do texto, mas também para colocar a leitura atenta ao que nele pode anunciar aspetos da obra da maturidade de Agustina.

Ironicamente, somos tentados a descobrir neste texto vindo dos inícios da escrita de Agustina promessas cumpridas na sua maturidade artística, mas só o podemos ler a partir de um horizonte de expectativas indelevelmente marcado por quanto nos foi depois trazido pela sua genial imaginação escrita. Entre a nossa vontade atual de leitura e o corpo de "Colar de Flores Bravias" intromete-se a memória seduzida de leituras de outros textos de Agustina, com seus estilemas de cognição inferencial e sentenciosa, que dotam o discurso de uma aura sapiencial e conferem à sua receção um índice abissal de profundidade ou um índice sideral de projeção (mas também certamente, de quando em vez, motivos de reticente questionação).

Que poderá anunciar este conto primordial de como nesses lances – fulgurantes e deslumbrantes, ou desconcertantes – de inferência sapiencial e gnómica alternam ou intercalam-se, numa gradação de níveis visados, ora certo traço humano em passo que releva da sabedoria ancestral ou a que julgamos reagir como perante mera corroboração de algo já adquirido, ora certo tipo de humanidade (grupo sócio-económico, padrão de comportamento, etc.) evidenciado por observação insólita e, por vezes, inesperada no curso do passo narrativo que então lemos, ora uma mais ousada conjetura de âmbito universal?

Não importa sofismar que "Colar de Flores Bravias" começa por suscitar a impressão de quase banal contarelo, entretecendo uma experiência ao rés da vida comum. Importa antes apostar numa compreensão mais facetada do seu potencial significativo, que justamente mais se realça a partir daquela chã impressão de uma primeira e apressada leitura.

Assim, este conto dos inícios do trajeto estético-literário de Agustina Bessa Luís permite-se, como depois a sua obra amadurecida, uma estratégia que não se esquiva a uma primeira impressão de banalidade, de tal modo os quadros remetem para o comezinho, o banal, o comum…mas encerrando, e disso dando sugestão algures, mais cativantes linhas de sentido, que poderão revestir feição oracular ou problemática.

Ouso, pois, admitir que em "Colar de Flores Bravias" está já em ensaio indeciso aquela prospeção do ser humano, geradora de um projeto totalizador jamais concluído, que ficará como apanágio e legado da obra maior de Agustina.

Como nessa sortílega maturidade, já o conto aponta à densidade de análise do humano, entre o psicológico e o social, o antropológico e o escatológico – antes do mais por experiência e revelação feminina. Nestas primícias de "Colar de Flores Bravias", já os homens surgem em dispersão envolvente e intromissão meteórica, com função de embrayeurs do fluxo da ação e da experiência feminina do real. Assim acontece com os políticos aludidos e com os trabalhadores da paisagem social no campo, com os miúdos vizinhos e o moço recadeiro, assim acontece sobretudo com o pai – fugazmente marcante no início (como seria próprio da presumível figura de origem da vinda à vida e de padrão da presença ao mundo, num paradigma tradicional), mas logo tão agustinianamente remetido (e resguardado) para uma ausência de intermitente lembrança e de importância feita de disjunção e diferimento – e com o rapaz que na desfolhada diz a frase decisiva do conto, sob a aparência anódina de dado circunstancial e de evidência socializada. 

Embora na forma de relance que é própria da exiguidade textual em que se realiza a narrativa breve, essa sondagem e figuração do humano (privilegiadamente feminino) já se inscreve sobre um flagrante quadro de costumes, circunstâncias e discursos – que, como haveria de dizer a própria autora, se constituem em fundo inalienável da sua criação literária [«Eu sou uma escritora, testemunha sensível dos costumes, circunstâncias e discursos da minha época. A minha tarefa é compreendê-los», in Contemplação carinhosa da angústia. Lisboa, Guimarães Ed., 2000].

Havemos, então, de convocar para húmus das nossas hipóteses interpretativas o conhecimento de que, na obra maior de Agustina, aqueles costumes, circunstâncias e discursos epocais raramente são amenos e confrontam incomodamente o leitor condigno com práticas que nem porque consuetudinárias ou confortadas por estereótipos sociais se tornam menos contestáveis ou menos inquietantes.

Com suas conotações de beleza natural e de força irridente, de adorno ritual sob disfarce frívolo, o título deste conto projeta-nos, em catáfora, para o meio do trajeto narrativo, onde se enlaçam, com sua coloração terrestre e solar, os «colares com rosa amarela», singela eflorescência de simbolismo cósmico e anímico (ao mesmo tempo, princípio passivo e perfeição espiritual, evocação do estado edénico remanescente no ser infantil e promessa de harmonia amorosa), prenunciando a arte singular de Agustina  na tendência para colocar no sítio e em ordem uma diversidade mais ou menos caótica, mas sem desbotar  aquela “sageza do singular que é uma verdadeira paixão da beleza do mundo” (como um dia sintetizou Eduardo Prado Coelho).

Por seu turno, o incipit do conto, que pudéramos supor despretensioso, indica a estação do ano em tom bíblico de referência a tempo qualificado («Quando chegou setembro, naquele ano, […]»); e, logo de seguida, surpreende  no retrato não convencional da previsível heroína do relato, uma nota disfórica que a ótica depreciativa da mãe agrava: «a menina gorda que se chamava Dorinha».

Longe ainda da aura mítica do genius loci nas grandes narrativas da maturidade, o espaço do conto anuncia no entanto esse espírito do lugar num quadro geo-económico e social nortenho. Mais do que isso, todavia, desde o incipit esse espaço associa-se ao imaginário ancestral da ruralidade para fascinar e atemorizar, como o sagrado, enquanto mundo fechado («num buraco antigo»)onde se entretecem o hábito e o mistério. Sobrevêm novas notações disfóricas sobre a “terra prometida” – a quinta «num buraco antigo», que, comprada há pouco tempo, «estava arrasada, cheia de cepas velhas» – e sobre a casa rústica, quase inóspita – depois matizada por aspetos agradáveis e compensada pelo «passeio bonito» até à capela e por vislumbres edénicos no espaço ritual do ser ludens («Assim brincava Dorinha. O céu era claro, as vinhas cheiravam a morango, a água corria no pomar, nos regos empedrados; havia pequenas flores lilases nos muros, entre musgos.»), ou por vislumbres de seráfica via pulchritudinis (perante a imagem da Virgem de «rosto bizantino e moreno com olhos largos de paciência doce»). 

Desde a chegada à quinta até à vindima próxima e ao serão de desfolhada em casa da vizinha, não faltam já os recursos de cor local – na ruralidade agreste, mas contrastada («cheirava muito bem a glicíneas», «O luar entrava no quarto e fazia uma cauda de noiva cor de prata nas tábuas brancas, estendendo-se em leque, e era uma coisa linda de ver.», «mulher que tinha muitos filhos sujos e com olhos azuis (…) azuis escuros, lindos, lindos – mas decerto não o sabiam.»).

Nem faltam já, com a mestria no monólogo interior indireto, os traços de cor psicológica: o leitmotiv do gosto e valor de pão com manteiga, os sustos e fantasias noturnos, as dissimulações menineiras de Rosa que «gostava de pescar palavras estranhas que lhe explicassem mistérios da vida», a visão infantil das touradas, o fazer certas coisas (como engolir talos de roseira e pâmpanos das vides) «só por fanfarronice», as brincadeiras no pomar ou na mata ao pé do vinhedo, a «boneca de trapos com uns olhos saltões» e a relação de Dorinha com ela, etc.

A jovem Agustina de "Colar de Flores Bravias" mostra-se hábil a dar os tiques psicoverbais no retrato de personagens  (particularmente da mãe: «não havia nada que a aborrecesse mais que…»), a estimular a curiosidade do leitor através de algum dado insólito ou incompleto («Dorinha ergueu-se então, lavou o lado direito do rosto, vestiu…»), a infantilizar oportunamente o estilo pela predominância da forma mais elementar de coordenação, a lançar insights sobre a força do convencional ou do habitual nas reações e relações humanas, até mesmo nas estados de ânimo ou nas atitudes correspondentes («mas acharam muito bom ir para lá, porque eram férias e enquanto eram férias era bom estar em qualquer parte», «Ficaram todos sem vontade de estar contentes»), enfim a provocar o estranhamento pelo rasgo imagístico e pela deslocação súbita do mundo temível e fascinante dos arquétipos para o pequeno elemento do quotidiano burguês («cheia de terror, abrindo muito os olhos para o escuro e para o recorte da janela onde havia um céu de treva com uma estrela pequenina pregada como um alfinete de gravata.»).

Mas as mais importantes significações implicadas pelo texto são de outra ordem, beneficiando aliás do dom aqui precocemente revelado por Agustina para fundir a verbalização da corrente da consciência das personagens com a voz da narradora, de molde a gerar-se a ambiguidade da instância responsável pelo discurso e a achar-se o leitor solicitado à dúplice atribuição de sentido.

Certos efeitos de coloquialidade explicativa com os leitores, ao mesmo tempo os chamam a uma presunção de familiaridade e tanto os podem deixar encantados com a poderosa sugestão visualista da enargeia inerente à escrita de Agustina, como perturbados por um alarme de displicência ou de antecipação ominosa do devir de personagens e situações.

O embrionário mundo pessoal de Dorinha é já, miniatural, o caleidoscópio de fantasias maravilhosas e de temores, de pequenas vontades interventivas e de suspeitas de pré-determinações que por toda a segunda metade do século XX nos viria cativar nas grandes personagens criadas por Agustina – com a sua personalidade a estruturar-se em defesas e expectativas, fantasias e transformações, e a solicitar-nos para homóloga leitura DEFT (como diria Norman Holland).

Só que, nesta história de crianças, a protagonista vive um período de mudança de território e o advento de novo ciclo da sua personalidade.

Após peripécias de afastamento do pai, primeiro, e da mãe, depois, como que desguarnecendo e/ou libertando Dorinha do envolvimento de progenitores, o conto concede-lhe um espaço de autogestão íntima de busca – como o sucedâneo insuspeitado de peregrinação na  inintencional romagem até à ermida «branca e poética como a fé que a fez ali surgir».

Eis-nos, por conseguinte, perante um rito de passagem e de revelação, num conto prometedor de Bildungsroman. "Colar de Flores Bravias" entrega Dorinha à experiência de construção da identidade pessoal, sob o signo agustiniano da individualidade que desde cedo intui ou quer já mesmo arvorar a diferença (aliás, a própria mãe estatuía que «ela não era uma menina como as outras»). Mas Dorinha depressa pressente também que liberdade e diferença vão ter sempre o seu custo na socialização e na vida de relação interpessoal («com a alma atrofiada e a sua gentil dignidade de pessoazinha original maltratada entre as paredes convencionais do que se deve fazer, do que se deve usar e querer, do que se deve querer ser entre todos os que querem coisas iguais»). 

Dorinha surge tocada por vago sentimento de deceção («dizendo às vezes, com um olhar de roda, que se aborreciam»), de carência compensada em insónia pelo substrato de leituras de literatura negra e de recordações de filmes de fascinante terror – de acordo com mais largas sugestões de precoce leitora e de precoce força da imaginação figurante (que lhe permite, por exemplo, brincar à Duquesa de Mântua na mata).

Paira no conto incipiente obsessão premonitória, talvez ominosa, indiciada inadvertidamente pelos sustos noturnos do ser em infância e pelo temor de fantasmas, pelo piar do mocho e pelo crocitar dos corvos, ou, ao longo da incursão ao monte romano sob «o ar pesado», pelo regresso com «o medo nos olhos – medo do silêncio do monte calmo, dos próprios passos atirados pelos finos caminhitos nus», ou pelos frémitos, primeiro de anúncio e expectação incerta, depois de inexplicável aflição e de precipitada fuga, nos fins de tarde na mata.  

Em vez do desfecho feliz, com a surpresa final ou a boa moralidade das fábulas tradicionais (e das suas réplicas canónicas na chamada literatura infantil), este "Colar de Flores Bravias" encaminha-se para lance indefinidamente perturbador, que deixa vinco dorido («É a menina do senhor tal, minha mãe», «Pensa na voz dura que diz “É a menina do senhor…” e não sorri.»)… e ainda mais quando evocado «depois de muitos anos, de muitas horas vividas, de muitos passos sofridos em luta, em tédio, em apatia e em sonho, em vida e em dor, em alma e em desencanto

Aquela fala, aparentemente tão simples na conjuntura, era de novo «aquela voz que pressentia no coração e na pele e em todo o seu ser revoltado, a ensinar-lhe a inutilidade de deixar de ser ela para ser um palhaço guiado pelas emoções dos outros». Afinal, «sempre havia aquela voz, sempre lhe revelara a falsidade da sua posição, a doidice que era ela estar ali»… 

Porventura Dorinha sente uma ameaça da socialização contra o seu desejo de identidade em afirmação autónoma, enquanto no cadinho arquetípico da sua segunda consciência a vinculação da identidade à figura do pai esbate o símbolo da transcendência ordenada, sábia e justa, em favor da imagem de doador de leis e fonte de instituição (como diria Paul Ricoeur).

Porventura, Dorinha intui nebulosamente nessa heterorrepresentação da sua personalidade em construção – «é a menina do senhor tal»… – quanto a vida adulta em sociedade lhe reserva de confronto com alguma função parental que desencoraja os esforços de emancipação e exerce uma influência que priva ou limita, enquanto o génio emergente de Agustina talvez já cifre, sem nenhum pesadume programático, o confronto da consciência com as pulsões e os instintos ou os ímpetos espontâneos do inconsciente.

Assim, nesta Dorinha de "Colar de Flores Bravias" esboça-se a predisposição das grandes protagonistas de Agustina para atenderem às vozes dos desejos e enfrentarem as oposições dos legados e do meio, na medida em que a menina parece pressentir que o seu destino irá suportar os efeitos de forças conservadoras da natureza e da estrutura histórico-social, que impedirão o ser feminino de viver e fruir em livre dissociação de responsabilidades inerentes à preservação (do sangue, do nome, da casa…).

Lá nos dirá mais tarde a obra de Agustina, em textos como o conto "A Mãe do Rio", que «os vigilantes do espírito humano precisam de ser rendidos». Por agora, neste "Colar de Flores Bravias", «qualquer coisa se lhe prende como uma amargura que apetece esquecer e apetece lembrar», mas deixando em todo o caso «o perfume seco das coisas sem fim a que a gente chama saudade». 

 

José Carlos Seabra Pereira
Posfácio a "Colar de flores bravias", de Agustina Bessa-Luís, ed. Labirinto de Letras
Publicado em 16.11.2015

 

 
Imagem Capa | D.R.
Parece-me pertinente ler o conto como ficção narrativa em que acontecimentos da história narrada e suas figuras centrais provêm do mundo de crianças, mas que cifra sentidos para gente grande e que a esta dirige a sua estrutura de solicitação à resposta do leitor
Este conto dos inícios do trajeto estético-literário de Agustina Bessa Luís permite-se, como depois a sua obra amadurecida, uma estratégia que não se esquiva a uma primeira impressão de banalidade, de tal modo os quadros remetem para o comezinho, o banal, o comum…mas encerrando, e disso dando sugestão algures, mais cativantes linhas de sentido, que poderão revestir feição oracular ou problemática
Ouso, pois, admitir que em "Colar de Flores Bravias" está já em ensaio indeciso aquela prospeção do ser humano, geradora de um projeto totalizador jamais concluído, que ficará como apanágio e legado da obra maior de Agustina
Como nessa sortílega maturidade, já o conto aponta à densidade de análise do humano, entre o psicológico e o social, o antropológico e o escatológico – antes do mais por experiência e revelação feminina
«Assim brincava Dorinha. O céu era claro, as vinhas cheiravam a morango, a água corria no pomar, nos regos empedrados; havia pequenas flores lilases nos muros, entre musgos.»), ou por vislumbres de seráfica via pulchritudinis (perante a imagem da Virgem de «rosto bizantino e moreno com olhos largos de paciência doce»
Desde a chegada à quinta até à vindima próxima e ao serão de desfolhada em casa da vizinha, não faltam já os recursos de cor local – na ruralidade agreste, mas contrastada («cheirava muito bem a glicíneas», «O luar entrava no quarto e fazia uma cauda de noiva cor de prata nas tábuas brancas, estendendo-se em leque, e era uma coisa linda de ver.»)
A jovem Agustina de "Colar de Flores Bravias" mostra-se hábil a dar os tiques psicoverbais no retrato de personagens (particularmente da mãe: «não havia nada que a aborrecesse mais que…»), a estimular a curiosidade do leitor através de algum dado insólito ou incompleto
As mais importantes significações implicadas pelo texto são de outra ordem, beneficiando aliás do dom aqui precocemente revelado por Agustina para fundir a verbalização da corrente da consciência das personagens com a voz da narradora, de molde a gerar-se a ambiguidade da instância responsável pelo discurso e a achar-se o leitor solicitado à dúplice atribuição de sentido
O embrionário mundo pessoal de Dorinha é já, miniatural, o caleidoscópio de fantasias maravilhosas e de temores, de pequenas vontades interventivas e de suspeitas de pré-determinações que por toda a segunda metade do século XX nos viria cativar nas grandes personagens criadas por Agustina
Em vez do desfecho feliz, com a surpresa final ou a boa moralidade das fábulas tradicionais (e das suas réplicas canónicas na chamada literatura infantil), este "Colar de Flores Bravias" encaminha-se para lance indefinidamente perturbador, que deixa vinco dorido
Nesta Dorinha de "Colar de Flores Bravias" esboça-se a predisposição das grandes protagonistas de Agustina para atenderem às vozes dos desejos e enfrentarem as oposições dos legados e do meio, na medida em que a menina parece pressentir que o seu destino irá suportar os efeitos de forças conservadoras da natureza e da estrutura histórico-social
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