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Evocação

D. Manuel Falcão, bispo da cultura

D. Manuel Falcão, antigo bispo de Beja, morreu esta terça-feira na Casa Episcopal da diocese alentejana, aos 89 anos.

Nascido a 10 de novembro de 1922, em Lisboa, foi ordenado padre em 1951, depois de concluir o curso de Engenharia.

Enquanto sacerdote promoveu os estudos de sociografia religiosa, o lançamento do Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado de Lisboa, a criação do Secretariado de Informação Religiosa e a publicação do ‘Boletim de Informação Pastoral’ (1959-1970), seguida do ‘Boletim Diocesano de Pastoral’ do Patriarcado (1968-1975).

Recebeu a ordenação episcopal a 22 de janeiro de 1967, com a missão de ser bispo auxiliar de Lisboa, era então D. Manuel Cerejeira o cardeal-patriarca.

O Papa Paulo VI encarregou-o de suceder ao bispo de Beja, diocese a que chegou em janeiro de 1975. A 8 de setembro de 1980 sucedeu a D. Manuel dos Santos Rocha, tendo resignado em 1999.

Promoveu a realização primeiro recenseamento da prática dominical em todas as dioceses do país (1977) e em 1984 criou o Departamento do Património Histórico e Artístico da diocese de Beja, que a Igreja Católica em Portugal viria a distinguir em 2010 com o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, atribuído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

“Ele entusiasmou a lançar a pontes entre a grande tradição cristã e a vanguarda da criação contemporânea”, afirmou à Agência Ecclesia o atual diretor do Departamento, José António Falcão, acrescentando que o prelado nunca deixou de servir de «orientação» para a estrutura, que continuava a apoiar «na vertente científica».

Nas exéquias que decorreram esta quarta-feira o cardeal-patriarca de Lisboa afirmou que D. Manuel Falcão se distinguiu pela «competência, a que aliou sempre o aspeto cultural e até científico».

D. José Policarpo, antigo aluno do bispo emérito de Beja, sublinhou que ele «tem o grande mérito de ter sido um homem que viu o futuro e arriscou caminhos novos».

O secretário de Estado do Vaticano, cardeal Tarcisio Bertone, escreveu uma mensagem onde transmitiu as condolências do Papa e realçou o serviço do falecido bispo em “anos não fáceis”.

O presidente da República, Cavaco Silva, enviou também as condolências à diocese alentejana, referindo que D. Manuel Falcão era «possuidor de notáveis qualidades de inteligência, que colocou ao serviço do diálogo entre a cultura e a Igreja, e de profunda sensibilidade social».

Por seu lado o presidente da Câmara Municipal de Beja, Jorge Pulido Valente, recordou que o bispo «soube sempre apaziguar os ânimos», especialmente nos tempos conturbados que se seguiram à Revolução dos Cravos, tendo deixado uma «marca indelével» no «património espiritual, religioso e civil».

O bispo emérito escreveu no semanário diocesano “Notícias de Beja” até morrer e foi o autor da Enciclopédia Católica Popular, obra de referência disponível na internet.

O testamento de D. Manuel Falcão dá indicações para que de parte do seu espólio «se faça chegar ainda uma última dádiva aos pobres que ele assistia - de perto e de longe», revelou o atual bispo de Beja, D. António Vitalino, que presidiu à missa exequial celebrada na sé.

Para D. Manuel Falcão, é necessária uma «ação concertada e persistente no sentido de evangelizar o ambiente cultural de forma a torná-lo cada vez mais propício à aceitação do pensamento e dos valores cristãos».

«É bom de ver - escrevia em artigo publicado em 2001 na revista Communio - que nestes campos se torna necessário usar linguagem diversas que vão das do testemunho (pessoal, comunitário, da cultura, da literatura, das artes, etc.), até às linguagens globalizantes dos meios de comunicação social, da internet e dos outros meios dominantes de formação da opinião pública e do clima cultural de cada lugar e momento.»

Em 1987, D. António Falcão escreveu para a mesma publicação um depoimento sobre a Doutrina Social da Igreja, onde caracterizava Portugal e o catolicismo. Vinte e cinco anos depois os leitores julgarão da atualidade do texto, que transcrevemos.

«(...) É realmente de grande importância a Doutrina Social da Igreja na atual situação portuguesa. E os motivos são óbvios.

O primeiro está na multiplicidade e premência dos problemas, em grande parte novos, com que os portugueses e em geral a sociedade portuguesa se defrontam hoje, e para os quais urge encontrar soluções inspiradas nessa doutrina.

O segundo está no acordar do laicado católico português para a missão que lhe é específica de contribuir para a descoberta e aplicação dessas soluções cristãs.

Chamar a atenção para a importância da Doutrina Social da Igreja é necessário e oportuno. Antes de mais necessário, porque ela é desconhecida da generalidade dos católicos portugueses, mesmo dos praticantes, sem excluir desta ignorância e da inerente falta de interesse o próprio clero. Disto é índice a muito fraca difusão entre nós dos documentos sociais do Magistério. Seria de toda a utilidade procurar saber por que motivos a reanimação pós-conciliar da vida da Igreja em Portugal se está a fazer predominantemente ad intra, visando quase exclusivamente 'as expressões estritamente religiosas da vida cristã, com a consequente fraca projeção desta vida no mundo português em processo de rápida e profunda descristianização. (...)

Esta sociedade portuguesa não enferma somente de ancestrais carências na linha da satisfação das necessidades materiais. Outros males, não menos importantes, a afetam sobretudo na linha sócio-cultural, como a falta de sentido crítico das situações, a sua aceitação fatalista, o providencialismo estatal, etc. A recente experiência de democracia não parece ter aguçado nos portugueses o sentido de participação responsável na vida social; e a experiência da liberdade de opinião, sem o referido poder crítico, está a resultar numa perigosa queda no indiferentismo ideológico e moral, com a consequente substituição dos valores pelos interesses nos critérios práticos do seu pensar e agir.

Só um esforço de sensibilização às situações de mentira, injustiça e banalidade que pululam na nossa sociedade, e de iniciação séria à sua apreciação crítica segundo os valores evangélicos, poderá salvar a sociedade portuguesa da degenerescência civilizacional que a está a contaminar num mundo ocidental já fortemente atingido por males sociais e morais que ameaçam destruí-lo.

Ora, esta sensibilização às realidades e aos valores que permitem a sua autêntica apreciação, postula a promoção da Doutrina Social da Igreja, em termos concretos e vivos, como foi feita entre nós, de forma quase sistemática, nos tempos áureos da Ação Católica, sobretudo nos anos 30 e 40, como se depreende da análise dos temas de estudo anuais, esquemas para as reuniões de militantes e certas grandes manifestações culturais.

Julgo hoje necessário e viável um esforço semelhante de divulgação e aplicação da Doutrina Social da Igreja entre nós. O Magistério conciliar e pós-conciliar tem-se mostrado atento à evolução dos acontecimentos e situações, e capaz de fazer a sua iluminação evangélica a tempo e em profundidade. Há claros sinais de um despertar promissor do laicado católico. A Igreja goza de suficiente liberdade para fazer ouvir a sua voz. Praza a Deus que não perca tão excelentes oportunidades de contribuir, como é seu inalienável dever, para tornar sempre mais cristão este Portugal que foi sempre cristão.»

 

SNPC / Agência Ecclesia
© SNPC | 23.02.12

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D. Manuel Falcão

















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