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De que estamos à espera neste Advento?

No tempo de Jesus, a situação política e social era marcada pela crise: Israel tinha perdido a sua independência e era governado por uma potência estrangeira, o Império Romano.

Sendo governado a partir de fora, com a presença forte de um exército e de autoridades nomeadas pelo imperador no próprio território, Israel vivia um estado de diminuição. O povo sentia que a alma e o coração se tinham tornado pequeninos. Contudo, ele tinha a seu lado as promessas. Tinha a certeza, a convicção, de que Deus era o seu salvador, de que Deus ia manifestar-se, de que Deus ia libertá-lo, não só como o tinha libertado séculos antes no Egito, mas agora, de forma mais total, Deus ia salvá-lo através do envio do seu Messias.

Por isso precisamos de entender o século I, o século de Maria, de José, de João Batista, de Zacarias, de Pedro e de João, como um tempo de grande expetativa e sobressalto. Toda a gente estava à escuta, perguntando: “É agora? É agora que Deus se vai manifestar?”.

A verdade é que, historicamente, apareceram muitos naquelas décadas a dizer que eram o Messias. De uma escaramuça na Galileia emergia alguém que atraía seguidores, e logo depois as autoridades prendiam, matavam, dissipavam e perdia-se a memória dele. Mas logo a seguir, ao sul, aparecia outro foco de reforma e sublevação.

Tomemos João Batista. O seu pai era sacerdote, e por isso pertencia a uma classe bem estabelecida em Jerusalém. Mas este filho rebelde vai dizer: “Para preparar a vinda do Senhor, temos de mudar completamente; temos de deixar os ritos, o templo, essa máquina de sacrifícios que não leva a lado nenhum. O que precisamos é de arrependimento. Precisamos de voltar ao princípio, ao espírito inicial”.

João vai então para o rio Jordão, que é por onde o povo de Deus passa para entrar na Terra Prometida. João leva o povo ao quilómetro zero, como que a dizer: “Vamos passar o filme para trás. Vamos voltar à fronteira do rio Jordão, onde tudo se iniciou, para começar um povo novo”.

Havia, de formas diferentes, uma expetativa muito grande, uma ânsia de libertação. Por isso, quando Jesus surge na sua vida pública, começa a fazer sinais, começa a dizer coisas, começa a ser olhado, a ser seguido. Vai-se criando, em torno a Ele, uma expetativa. É então que João Batista envia os seus emissários com esta pergunta a Jesus; “És Tu aquele que esperamos, ou a nossa espera tem de continuar? És Tu, ou devemos esperar outro?”.

Jesus não responde diretamente, mas diz-lhes: “Ide contar a João o que vedes e ouvis”, que é o programa messiânico anunciado pelo profeta Isaías: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres”. Esta era a senha, um facto indesmentível.

Nós queremos reduzir Jesus a uma ideologia: “Para mim, Jesus é o Filho de Deus; ou acreditas, ou não acreditas”. Queremos reduzir Jesus a uma ideia. Mas Jesus não quer ficar reduzido a ideias, com uns que são seus partidários, e outros que são contra, cada um com a sua razão. Jesus não quer ficar sequestrado por uma ideia ou por uma convicção.

Jesus diz: “Ide contar a João Batista o que vedes e ouvis”; isto é, há uma objetividade. Qualquer olhar pode ver. Há razões para acreditar nele.

Também nós somos chamados a viver a expetativa, a viver a espera. Mas uma espera que seja espera. Por vezes penso que nós esperamos muito pouco. Por exemplo, o que é que esperamos deste Natal de 2013? Esperamos que as filhoses saiam bem – estou a caricaturar –, esperamos que a ceia corra bem, que o bacalhau esteja mais tenro do que o do ano passado, que haja paz no meio de nós, na pequena família. Tudo isto está certo; não tenho nada contra o bacalhau e a filhós. Mas é pouco.

Um cristão tem de querer muito. Temos de estar à espera de coisas grandes, de coisas maiores do que nós. Se eu estou à espera de uma coisa que posso comprar, é uma esperança muito pequenina. Eu tenho de esperar uma coisa que seja maior do que nós todos juntos e que responda, de facto, às expetativas do coração.

Este domingo lemos o profeta Isaías, e ele diz coisas incríveis: “Alegrem-se o deserto e o descampado, rejubile e floresça a terra árida, cubra-se de flores, exulte com alegria porque todos verão a glória do Senhor e o esplendor do nosso Deus. Fortalecei as mãos fatigadas, robustecei os joelhos vacilantes e dizei aos corações assustados: ‘não temais’”.

Há um compromisso nosso, nós que somos o povo do Advento. Os cristãos são o povo do Advento. Isto é, nós somos sentinelas e anunciadores do que está para vir. Mas o que é que nós anunciamos? A nossa mensagem não se pode confundir com uma mensagem comercial ou ideológica qualquer, ou com os votos estafados que fazemos.

Tenho amigos e amigas que dizem: “Odeio o Natal porque tudo me soa a falso: ‘Bom Natal’, ‘feliz natal’… e o que é que acontece?’”. Penso que cada um de nós tem de se sentir muito comprometido a que o significado do Natal seja, de facto, alguma coisa que transforme a vida, seja uma boa nova a cada coração; nem que seja aproximar-se de alguém, abraçá-lo, cuidar dele, fazer um gesto, dizer-lhe “não temas, tem confiança”. Isto é, humanizarmos.

Não podemos fazer milagres. E mesmo em relação aos milagres de Jesus, temos de os entender bem, porque Jesus não era um mago; era um mestre de humanidade, que é uma coisa muito diferente. Um mestre de humanidade é alguém capaz de abrir uma porta fechada no coração. É alguém capaz de devolver cada pessoa à vida. É alguém capaz de desatar nós.

A cegueira pode ser um nó, mas o egoísmo não é um nó menor. Andar coxo é um nó, mas o preconceito não é um nó menor. Estar acamado é um nó, mas a solidão e a autossuficiência de quem está no meio de uma multidão não são um nó menor. É preciso desatar nós. Sintamos a grande responsabilidade de atuar o Natal.

S. Tiago convida os cristãos do final do século I, quando escreve a sua epístola, a terem paciência: “Saibam esperar. O Senhor já está aí”. Porque parece que Ele tarda em vir, nós deixamos de esperar. Estamos à espera de Jesus? Vivemos à sua espera? Vivemos na expetativa de Deus? Esta é a grande questão.

Lembro-me do conjunto de textos da grande filósofa Simone Weil, chamados “Espera de Deus”. Em cada um de nós, esta expetativa de Deus tem de estar viva. Perdemos a vigilância e a atenção àquele que vem.

O papa Francisco, na sua exortação apostólica, desafia muito a Igreja a redescobrir a sua condição missionária, ou seja, a de nos sentirmos testemunhas. Sintamo-nos testemunhas de um Natal que dialogue com as grandes questões do coração humano, com as grandes perguntas do coração humano.

As perguntas do coração humano não são tratados de filosofia; são tratados de vida: Porque é que eu estou só? Porque é que me aconteceu isto? Porque é que a vida não foi de outra maneira? Como é que eu me posso reconciliar? O que é que eu posso perdoar? O que é que eu posso fazer? Dialogarmos com as questões que cada um traz. Isto é ser povo de Advento, é habitar a expetativa. Em todos nós há uma grande responsabilidade em relação a isto.

Mesmo em relação às crianças, temos de lhes passar o sentido da espera, da expetativa. Que o Natal não seja só para desembrulhar caixas. As crianças não precisam de coisas. As coisas são importantes para dizer outra coisa ainda mais importante que aquela coisa. O verdadeiro presente não é a coisa. O verdadeiro presente é aquilo que a coisa pode significar. E a verdade é que quando há muitas coisas, nós ficamos perdidos, embaraçados. Se nós, adultos, ficamos sem saber bem, imaginem o que se passa com uma criança.

Que possamos educar as crianças na fé neste sentido: vivermos o tempo do Natal como uma espera, mas como uma espera que não acaba aqui. Que não acaba em nós, que não acaba na roupa, que não acaba nos presentes, que não acaba na mesa, que não acaba no dia 25. É uma espera mais fundamental, mais importante.

Sintamos por isso o desafio muito grande a vivermos o tempo do Advento como um tempo de espera e um tempo da alegria.

Uma última palavra sobre a alegria. Normalmente as nossas alegrias são pelas coisas que conquistamos. É sempre uma alegria pelo presente ou pelo passado. Por vezes sorrimos e trazemos um contentamento por coisas que nos aconteceram ontem, anteontem ou há 20 anos. Compreendemos a alegria pelo passado e pelo presente.

Mas os textos sagrados deste domingo falam-nos de uma alegria que não é do passado nem do presente. É a alegria do futuro. Nós, cristãos, temos de testemunhar o que é a alegria do futuro, a alegria do que está para chegar, a alegria do que esperamos, a alegria daquilo pelo qual rezamos, a alegria do Deus que vem, a alegria deste Deus que é dom. Esta é uma alegria com a qual temos de contagiar o mundo à nossa volta, a cidade onde vivemos, a família onde estamos.

Rezemos por cada um de nós, porque aquilo que nos é pedido não é pouco. Mas acreditem: Deus só pede coisas grandes.

 

P. José Tolentino Mendonça
Texto redigido e adaptado por Rui Jorge Martins a partir da homilia de 15.12.2013
In Capela do Rato
© SNPC | 17.12.13

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