

D. Manuel Clemente | Foto: Diocese do Porto | D.R.Manuel Clemente tinha 17 ou 18 anos quando, num «sábado à tarde», em Lisboa, parou numa igreja: «De repente deu-me, não propriamente uma branca, mas uma preta. Uma escuridão total. “Eu não acredito em nada disto.” Nunca me tinha acontecido».
O patriarca de Lisboa recorda este episódio na grande entrevista publicada neste domingo no jornal “Público”, antes de se referir à “purificação” suscitada pela «angústia» deste questionamento.
«Foi importante descrer?», pergunta a jornalista. «Foi muito importante. Desfez-se tudo. O que é que ficou? A pessoa de Jesus. Passaram 50 anos. Isto mantém-se com a mesma força. Permanece mais consistente, até. Vai passando provas, desafios», responde o prelado.
A entrevista de Anabela Mota Ribeiro centra-se em três temas: a formação do patriarca, a sua oração e a dimensão política.
Ação e espiritualidade de D. Manuel Clemente fundam-se em Cristo – «Dá-me ideia que já não vejo mais nada senão a pessoa de Jesus e as outras pessoas todas nele» – e no Evangelho, interpelador: «O que a palavra de Deus poderia sugerir no abstrato é no concreto que a apanho. O verbo de Deus encarnado, para mim, é que é a religião».
Como a narração da natividade: «Uma frase simples sobre o nascimento de Jesus: “Os pastores foram apressadamente e encontraram Maria, José e o Menino deitado numa manjedoura”. Quantas vezes li esta frase... Mas em relação à nossa situação atual, 2014, receber um anúncio, ir apressadamente, encontrar uma família, uma criança e um meio tão pobre como é a manjedoura... não me sai da cabeça. Numa situação de pobreza, de desprovimento, acrescida e para tanta gente, encontrar uma criaturinha tão frágil como uma criança acabada de nascer — mas pode ser uma pessoa idosa, prestes a morrer — e eu acreditar que a realidade absoluta a que chamamos Deus se revela assim, não me sai da cabeça», aponta.
Para D. Manuel Clemente, «o sentido do cristianismo é, na pessoa de Jesus, Deus viver a aventura humana até ao ponto do abandono. E mesmo aí manter-se fiel a si próprio. Recita-se aquele salmo em que ao mesmo tempo está Deus e o abandono. “Meus Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” E cria-se um novo futuro. Há futuro, mesmo onde parece não haver nada».
«Muito simples» é como o patriarca define a sua oração: «Está muito marcada pela liturgia da igreja. Portanto, os textos da missa de cada dia. Alargada com aquilo a que chamamos a liturgia das horas, que antigamente se chamava Breviário. Na oração pessoal, que faço todos os dias, há muitos anos que rezo o rosário completo».
Concentrar o pensamento em Deus é uma das chaves da espiritualidade: «Para que a minha imaginação não dispare e eu permaneça sempre ligado, com a recitação dessas orações, aos episódios da vida de Jesus. As cenas em que medito são as do dia-a-dia».
«Por exemplo, no tráfego de Lisboa, a conduzir o carro. Penso no mistério da visitação. Maria leva Jesus até Isabel. Rezo para que a vida das pessoas, dos carros, dos autocarros, seja também uma visitação. Que levem Jesus umas às outras. Essas cenas evangélicas contracenam com a vida das pessoas. Saem das páginas bíblicas para o dia a dia. E ajudam-me a interpretar a vida, na sua tragédia e na sua glória. As crianças que nascem, as pessoas que sofrem, os outros que a gente encontra, os momentos de festa», refere.
As dificuldades sociais e económicas de Portugal interpelam D. Manuel Clemente: «Encontro pessoas que são para mim lições magníficas. É pena não podermos abrir um telejornal diário com gente de todos os dias. Gente que perdeu o emprego, que sobrevive em condições precárias, que perdeu pessoas. Às vezes estou pesado. Pesado com coisas que tenho de levar por diante. Vou a comunidades e vejo gente que vive tragédias. Nem sei onde vão buscar maneira de ajudar outros. Fico tão agradecido, não é?».
A voz «que mais se ouve será a dos desmobilizados. Entramos num outro campo, que não sei como é que se vai resolver. Não quero dizer que não sei se algum dia se resolverá. Ligo o noticiário das sete. Às vezes não dá vontade de enfrentar a vida. Interrogo-me. Porquê esta atração pelo abismo quando há alguns troncos a que nos podemos agarrar na derrocada?».
Depois de frisar que a política «é absolutamente necessária», o patriarca, que poderá ser criado cardeal pelo papa Francisco no próximo consistório, marcado para fevereiro, detém-se sobre a importância da família: «Quando o resto falha, é o que aguenta».
«Estamos a regressar de outra maneira, com muitos contornos e com muita problemática à mistura, a realidades familiares. Por vezes como única segurança possível. Até económica. Os avós que o digam. Outras vezes como zona de conforto, de suporte afetivo. Parecia que estava em crise. Que era menos valorizada. A família alargada. Os encontros de fim-de-semana. O regresso a casa», assinala.
O facto de na legislação haver «permissões legais» que não coincidem com a proposta da Igreja relativa ao matrimónio» exige a cada católico «levar a sério» os ensinamentos cristãos sobre a família, defende D. Manuel Clemente, acrescentando que «tudo quanto seja proporcionar, manter, acompanhar a realidade familiar é uma prioridade política».
Os casos que não coincidem com a proposta cristã «merecem todo o respeito», ao mesmo tempo que requerem «mais» aos católicos «em termos de presença e reforço» das suas convicções.
O cruzamento entre o pensamento cristão e o mundo da política, trabalho e empresa constitui outra das vertentes do ministério do patriarca: «Vêm cá de um leque ao outro. De associações laborais a empresariais, vários partidos. Há imensa gente de boa vontade em todos os meios. Cada um na sua perspetiva. Algumas, podemos ligar. Outras, temos de ir a votos para ver qual é aquela que [o povo] vai escolher».
«Não entro no discurso de sistematicamente desvalorizar as participações políticas. “É tudo igual”. Não, não é. Vamos ver uma por uma. Porque é que valorizamos tanto o contraste e tão pouco a harmonia? Não quer dizer que a realidade não tenha contrastes, não quer dizer que entremos num angelismo. Mas porque é que é preciso gritar tanto?», questiona.
Entre monarcas e presidentes da República de Portugal, quem o historiador mais admira é o rei D. João VI: «Era uma pessoa muito pouco ou nada dotada para as funções que teve. Era pacato, com gostos muito simples. No fim dos anos 1780, quando toda a Europa desaba com a Revolução Francesa, com a loucura da mãe (D. Maria I), acaba por ficar no centro da governação. Aguenta, no fio da navalha, estar bem com franceses e ingleses. Parte precipitadamente para o Brasil. Napoleão, que depôs sucessivamente reis e príncipes da Europa, dirá mais tarde, em relação a D. João VI, que foi o único que o enganou».
«Aprecio figuras assim. Um homem de bom senso, dedicado» e simultaneamente «boa pessoa» e que «tenta conciliar o inconciliável»: «Não sou de grandes heróis. O heroísmo é o de todos os dias», diz.
A tendência para criar pontes, «ser uma espécie de atador de pontas», é exercitada no serviço episcopal, desde há 15 anos, quando o papa S. João Paulo II o nomeou bispo auxiliar de Lisboa:
«Estamos no serviço das comunidades, dos movimentos, dos serviços religiosos, dos leigos, dos casais tentando atar pontas. Fazer a união das comunidades, das iniciativas. Puxa por aqui. Puxa por acolá. E já agora tentar não esquecer este. Venha cá. Conjugar esta atividade com aquela. Cada vez tenho mais pontas para atar», declara.
Pergunta Anabela Mota Ribeiro, quase a terminar: «Hoje de manhã, na sua oração, em que coisas pensou?».
«Tenho uma imagem junto da minha cama com a Anunciação. Olho para lá e peço que uma realidade nova aconteça no mundo. Maria disse: “Como é que isso é possível?” E foi. Que seja hoje assim, também. Não sei como é que vai ser. Pedem-me coisas que ultrapassam em absoluto a minha capacidade de pensar, sentir, decidir, saber... Que seja. Penso muito na Anunciação, no acreditar que é possível, no abrir-se à mensagem, ao anúncio», aponta D. Manuel Clemente.
Rui Jorge Martins
D. Manuel Clemente | Foto: Diocese do Porto | D.R.