

Enunciar uma verdade relativa a Deus não pode ser dissociado da compreensão da fraqueza humana, sublinhou hoje o papa, na missa a que presidiu, no Vaticano, em que voltou a alertar para as consequências negativas da «casuística» de «teólogos iluminados», a propósito da avaliação do comportamento humano.
No excerto do Evangelho proclamado nas missas desta sexta-feira (Marcos 10, 1-12), é descrita aquela que Francisco chamou de «armadilha» da «casuística», montada por um conjunto de fariseus que estavam convencidos «de terem toda a ciência e sabedoria do povo de Deus».
Na narrativa bíblica, alguns fariseus aproximaram-se de Jesus e, «para o porem à prova», perguntam se «pode um homem repudiar a sua mulher», ardil de que Jesus sai, segundo o papa, apontando «para a plenitude do matrimónio».
A resposta à cilada é dada, afirmou Francisco, citado pela Rádio Vaticano, com a «verdade contundente»: «Jesus nunca negoceia a verdade. E este pequeno grupinho de teólogos iluminados negociavam sempre a verdade, reduzindo-a à casuística. E Jesus não negoceia a verdade. Esta é a verdade sobre o matrimónio, não há outra».
«Mas Jesus é muito misericordioso, é tão grande que nunca, nunca, nunca fecha a porta aos pecadores», vincou Francisco, que acrescentou. «Jesus é capaz de dizer aquela verdade tão grande e ao mesmo tempo ser tão compreensivo com os pecadores, com os frágeis.»
O que Cristo ensina é, ao mesmo tempo, «a verdade e a compreensão», binómio que os fariseus não conseguem estabelecer porque estão encerrados na «equação matemática» do «pode-se?», «não se pode?», e por isso «incapazes quer de grandes horizontes quer de amor» pela fragilidade humana.
Francisco recordou «a delicadeza» com que Jesus tratou a mulher adúltera que estava prestes a ser lapidada: «Também Eu não te condeno; vai e daqui em diante não voltes a pecar».
«Que Jesus nos ensine a ter com o coração uma grande adesão à verdade e também com o coração uma grande compreensão e acompanhamento a todos os nossos irmãos que estão em dificuldade. E isto é um dom, isto ensina-o o Espírito Santo, não aqueles doutores iluminados, que para nos ensinarem precisam de reduzir a plenitude de Deus a uma equação casuística», concluiu Francisco.
Rui Jorge Martins