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Evocação

Doris Lessing (1919-2013): Escrever sem poupar nada de si

Quando, em 2007, se espalharam as imagens de Doris Lessing que, sentada nos degraus de sua casa, em Londres, comentava o Prémio Nobel da Literatura que tinha recebido, pareceu-nos que uma nossa bisavó se tinha revelado ao mundo. Uma bisavó que, ao longo dos anos, tínhamos primeiro amado muito, depois contestado e quase refutado, uma bisavó a quem queríamos bem enquanto parte de nossa história, mas de quem não partilhávamos nem escolhas nem perspetivas. Porque Doris Lessing foi quase uma passagem obrigatória. Especialmente para nós, filhas enamoradíssimas da literatura como espelho da vida, surgida na década de 70.

Nascida em Kermanshah (quando o atual Irão era ainda a Pérsia) de pais ingleses, em 1919, Doris Lessing (apelido do segundo marido) passou a adolescência no Zimbabué (então Rodésia do Sul), e depois mudou-se para Londres, onde morreu este domingo, 17 de novembro, aos 94 anos. 

Por si só, este rápido percurso histórico-geográfico (entre datas que abrangem um século e países que mudam de nome) poderia ser suficiente para apresentar a sua escrita. Uma escrita que cantou (The Grass Is Singing, A canção da relva, é o título do primeiro romance) o mundo da Grande Guerra ao século XXI. Um mundo onde tudo se foi desmoronando, segundo o seu olhar, deixando-nos a grande dúvida: alguma coisa conseguiu salvar-se?

Muito narrou o canto de Doris Lessing: a infância que nunca foi fácil, a juventude que nunca foi fácil, o casamento, o trabalho, a política, a parentalidade, a fraternidade, a cidadania, a dimensão intelectual e operativa, os idosos, tudo o que também nunca foi fácil. 

Foi uma produção vastíssima, de 1950 a 2008, em que não poupou nada de si mesmo. Sem descontos, com uma sinceridade até ao limite de dureza, nas suas páginas revelou muito mais do que os dois volumes da autobiografia, em que, paradoxalmente, foi muito escassa, ao dizer pouquíssimo de verdadeiramente pessoal. 

Experimentadora, lúcida e participativa, contudo sem nunca ser realmente afetuosa com os seus personagens (o seu eu incluído), Doris Lessing foi uma escritora da tribulação, com exceção, talvez, das suas narrativas sobre gatos. Temas sociais, políticos, visionários, temas do fantástico, temas feministas - não gostava da rótulo, mas The golden notebook (O caderno dourado), de 1962, foi a Bíblia não só das feministas durante o feminismo, mas também de qualquer pessoa que tenha tido pelo menos um pouco de curiosidade sobre essa fase. 

Na nossa opinião, as suas melhores páginas foram redigidas mais de trinta anos depois, com The Good Terrorist (A boa terrorista), de 1985, em que, contando-nos como uma pessoa pode ser boa ou má de acordo com quem interage, oferece a sua resposta para o eterno dilema entre natureza e cultura.

Grande parte dos comentadores descreveu Doris Lessing como aquela que colocou o feminismo na literatura, ou que elevou o feminismo a literatura. A nós, no entanto, parece que ela foi, por excelência, a cantora do tormenta, mais do que a cantora das mulheres. Embora não haja dúvida de que ter cantado o tormento no século que viu as mulheres mais estraçalhadas que nunca (bem mais do que os homens, provavelmente), qualifica de alguma forma esse tormento.

 

 

 

Giulia Galeotti
In L'Osservatore Romano, 18.11.2013
18.11.13

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