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E se aos jovens se dessem a ler versos do Cântico dos Cânticos?

O Domingo da Palavra de Deus, instituído pelo papa Francisco, volta a entregar nas mãos de cada um de nós um imenso património de fé e de cultura, que – digamo-lo com franqueza – muitos já perderam ou relegaram para o pó das estantes de casa. O valor desta iniciativa, como sublinhou o arcebispo Rino Fisichella, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, está sem dúvida ligado a um novo anúncio (particularmente nas nossas sociedades secularizadas), e tem por isso notáveis aplicações de carácter pastoral e ecuménico. De resto, a própria escolha do nome, com a referência à Palavra de Deus, e não só à Escritura, tem referência direta ao Concílio Vaticano II, e ao seu documento “Dei Verbum” (n. 9) em particular. Mas para além disto, também não pode ser subvalorizado o seu alcance cultural. Especialmente se entendermos a cultura não como uma fortaleza ideal habitada por um número restrito de eleitos, mas como o substrato profundo que orienta a nossa vida e as nossas ações diárias, individuais e comunitárias.

Deste ponto de vista, não há dúvida de que a Palavra de Deus (tal como fixada na Bíblia e iluminada pela Tradição) deve ser considerada não só o grande códice cultural do Ocidente (seria restritivo considerá-la assim), mas do humano, sem mais. O Beato Antonio Rosmini define-a «verdadeiramente o livro do género humano (…) por antonomásia». E acrescenta que «em tal códice a humanidade é retratada do princípio ao fim». Por isso não está longe da verdade afirmar que o declínio desta fonte de perene inspiração para as gerações dos últimos dois milénios comportou o eclipse de Deus, várias vezes denunciado pelo magistério, e abriu as portas não só à crise de fé hoje tão patente, mas também ao adormecimento da razão que, sobretudo no século XX, gerou monstros como os totalitarismos ateus, os campos de concentração de várias cores políticas, e, por último, o individualismo, que tende a fazer de cada ser humano uma ilha na corrente de uma vida sem sentido, com o corolário de pobrezas existenciais e materiais bem conhecidas.



Ecologia integral, que não por acaso o papa Francisco coloca como fundamento de todos os discursos – hoje tão em crescimento, especialmente entre os jovens – de atenção à “casa comum”, tão seriamente ameaçada também, e sobretudo, pelo eclipse da Palavra nas nossas vidas



A iniciativa do papa assemelha-se, por isso, a uma espécie de regresso ao ponto de partida. Uma pedra angular que nos coloca novamente perante uma herança por muitos considerada ultrapassada, e “obriga-nos” a acertar as contas com a sua inesgotável vitalidade. É preciso refletir sobre o que o cardeal presidente do episcopado italiano recordava na sua introdução à reunião do Conselho Permanente desta semana. Esse episódio em que um escritor, estando à mesa com amigos, citava um passo da Escritura, dando por adquirido o seu conhecimento da parte dos interlocutores, mas descobrindo, ao contrário, que para eles se tratava de um inédito, é a indicação de quanta ignorância bíblica se tem vindo a acumular nas nossas mentes, nos nossos corações e, consequentemente, nas nossas condutas. E dá também conta da surpresa com que os observatórios, mesmo os mais esclarecidos, olham para certas derivas éticas, sociais e, porque não, também eleitorais do nosso tempo. Escavando bem, o que se descobre na raiz de tudo isto? O eclipse – ou pelo menos o desvanecimento – da referência àquele códice que o alfabeto do humano fundou desde as dez palavras entregues a Moisés, e às quais Cristo morto e ressuscitado acrescentou uma décima primeira e definitiva.

Será um bem, portanto, para a nossa humanidade stressada por tantas palavras que arriscam sufocar o som incarnado pelo único Verbo, celebrar este Domingo e prolongá-lo na vida dos próximos 365 dias. Será um bem refletir e olhar à volta e dar-se conta que a nossa arte, a nossa literatura, a nossa música devem àquele Livro a máxima parte da sua inspiração, e por isso não seriam inteligíveis sem o conhecimento dos arquétipos narrativos neles contidos. Como se pode ler o encontro entre o Inominado e o cardeal Borromeu sem conhecer a parábola do filho pródigo, que Manzoni reescreve naquela maravilhosa página de “Os noivos”? Como se pode pegar no “Pinóquio” de Collodi ignorando as muitas referências bíblicas (a partir de Geppetto, novo Jonas no ventre da baleia) que ele encerra? Como se pode escutar o “Coro dos escravos hebreus” (“Va’pensiero” de Verdi sem remontar ao exílio babilónico dos judeus? Como se vê – e as citações de autores não declaradamente crentes são propositadas – o dinamismo vital da inspiração bíblica prossegue (por vezes submerso ou subliminar) inclusive nos nossos dias. Bastaria ler os textos de cantautores como Bruce Springsteen, Bob Dylan ou Bono Vox para se dar conta. Ou, para ter confirmação, ver com olhar atento filmes (“Matrix”, “Guerra das Estrelas”, por exemplo) que o filão da chamada teologia pop começou a indagar com resultados surpreendentes.

Este Domingo “providencial” oferece-nos uma ocasião imperdível para voltar a atar os fios de um percurso também cultural, além de espiritual e pastoral. De resto, como dizia S. João Paulo II, «uma fé que não se torna cultura é uma fé não plenamente acolhida, não inteiramente pensada, não fielmente vivida». Como seria belo, por isso, que esta ocasião fosse recebida também e sobretudo pelas nossas agências educativas, a começar pela escola. Depositar nas mãos dos nossos jovens os versos maravilhosos do Cântico dos Cânticos e dos Salmos, em vez das brutalidades de certos rappers e “trappers”, o encanto da narração da criação («e Deus viu que era coisa boa»), em vez dos videojogos violentos, o relato luminoso das parábolas evangélicas em lugar de certos respingos de fantasia, inclusive demoníacos, seria além do mais uma obra de saudável ecologia. Ecologia da mente e do coração. Numa palavra, ecologia integral, que não por acaso o papa Francisco coloca como fundamento de todos os discursos – hoje tão em crescimento, especialmente entre os jovens – de atenção à “casa comum”, tão seriamente ameaçada também, e sobretudo, pelo eclipse da Palavra nas nossas vidas.


 

Mimmo Muolo
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Nicoletta Bertelle | D.R.
Publicado em 28.01.2020

 

 
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