Concílio Vaticano II - 50 anos
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Eduardo Lourenço: Concílio Vaticano II fez Igreja «reatar-se com o mundo»

Se eu penso em quem terá pensado por mim ainda antes de eu ter consciência de que estava neste mundo (estou a referir-me à minha mãe, imagino que ela, beatíssima criatura, pensou que este seu filho mais velho podia ter um destino outro, diferente, o melhor dos destinos, sendo padre.

Sou natural de uma província das mais arcaicas do nosso país, pertencente a uma família católica, educado catolicamente, e essa educação em relação a mim próprio é de caráter indelével. Por mais que eu faça, por mais heterodoxo que eu seja (e não o faço para me distinguir do comum dos mortais), estou inscrito em algo que é anterior a qualquer opção de ordem mais refletida, aceite, uma opção - escolha, já com caráter mais sério e mais profundo, uma espécie de conversão. Ora eu não preciso de ser convertido, porque nasci cristão, fui batizado (...).

Não é fácil para mim estar aqui a dar a minha opinião, a qualquer título que seja, em relação a esse grande acontecimento que foi efetivamente o Vaticano II [1962-1965]. Provavelmente seria mais fácil para mim, na qualidade apenas de estudioso de um certo período da nossa História, sobretudo europeia, falar do Concílio de Trento[1545-1563]por causa do Erasmo, do Lutero, da Companhia de Jesus.

Foi um concílio que, na nossa História de europeus, teve uma importância capital nos destinos espirituais, ideológicos e políticos de toda a Europa, uma Europa que estava nessa altura (ou nós pensávamos que estava) no centro do mundo. Já não o está hoje porque fomos ter com eles, os não europeus. Não foram eles que vieram ter connosco. E se nós, europeus, fomos ter com eles, isso provavelmente deve-se a várias coisas de ordem profana e da ordem de motivações mais profundas que são de ordem religiosa.

É um facto que o cristianismo, não sendo, na sua raiz, de origem europeia, tendo-se implantado primeiro de uma maneira eficaz, institucional, a partir do Médio Oriente, depressa ocupou o espaço que era o espaço histórico do Império Romano e por conseguinte nós ficámos católicos e romanos. Já éramos romanos (a língua que hoje falamos, como dizia Camões, é latina).

E com o triunfo do cristianismo (triunfo que sabemos que não foi automático, resultou de um processo de divulgação de uma mensagem determinada, que pouco a pouco transformou do interior aquilo que era a herança, mais conhecida do ponto de vista cultural, como grega e sobretudo latina) nós ficámos católicos e romanos até ao famoso concílio de Trento. Concílio que instituiu duas versões da tradição cristã: uma apresentando-se como prolongando a que vem do tempo dos apóstolos e depois uma outra a que os protestantes chamam a Reforma e que nós chamamos também culturalmente a Reforma. E ficámos com duas Europas. De qualquer modo foi uma Europa que, durante séculos, com essas duas modalidades de fé cristã, se projetou no mundo, primeiramente através de nós.

(...) Uma das novidades da consciencialização que a Igreja toma de si mesmo, no momento em que o Papa João XXIII toma a iniciativa de propor um novo concílio, é a de que os tempos já eram outros. A Igreja vai tomar consciência de que (conforme referia um jovem cardeal que assistiu já à primeira sessão, hoje mais que famoso, chamado Karol Wojtyla) o tempo europeu não era já o único tempo em que a mensagem cristã tinha sido acolhida e determinava o comportamento religioso, ético, ideológico, dos europeus mas que havia uma pluralidade de mundos.

Essa pluralidade não era uma pluralidade que se manifestava, que tinha uma visibilidade só nestes anos tardios do séc. XX. Essa universalidade, em todo o caso pontual, foi aquela que a Europa cristã e sobretudo a Europa católica pós-Reforma levou para a América Latina, levou em parte para a Ásia, etc. Isto quer dizer que não era a primeira vez que a Igreja podia reivindicar um espaço não europeu noutros continentes com a sua presença existente. Mas na verdade era uma presença que estava naturalmente relacionada com o que nós podemos chamar, em todas as ordens, uma forma de imperialismo europeu. (...)

A vontade de "aggiornamento" [atualização] no sentido de ter em conta que espécie de mundo era o nosso, nos anos 60 do século passado, era algo que não era uma novidade absoluta porque realmente a palavra chave do Evangelho foi:«Ide por esse mundo (muito embora não se conhecesse quais os limites desse mundo), pregai e ensinai...». Efetivamente aconteceu que essa pregação, em grande parte, foi nos tempos modernos levada a cabo quer por espanhóis, quer por portugueses, e depois por outros (franceses, italianos, etc.) e os protestantes teriam também a sua maneira de ocupar espaços. Mas sempre, por mais justificada que seja em todos as ordens, tudo se faz na pregação evangélica em função dos valores que eram os valores do Evangelho mas que ao mesmo tempo estavam imbricados na vontade de poderio que era representada pela Europa enquanto primeira potência de tipo universalizante e conquistadora do mundo.

Sucede que quando o concílio é convocado, a Europa, curiosamente, já não se encontra em estado de colonizar ninguém. Está exatamente a atravessar a fase da grande descolonização mundial. De resto há uma relação entre uma coisa e outra. Quer dizer, não é já uma Igreja de recorte imperialista. Mas mantendo-se ainda ela própria herdeira de uma das suas tonalidades que foi o facto de decalcar na sua origem, na ordem institucional, os moldes do império romano em que inseriu a sua mensagem, encontra-se presa a uma Europa que está numa situação extremamente delicada.

É uma Igreja europeia, consciente de que pode fazer alguma coisa por essa mesma Europa na qual ela está inserida e que tinha atravessado a sua maior crise até aos dias de hoje: foi tudo quanto se passou no século XX, em que a Europa esteve à beira do suicídio total e em que duas nações se suicidaram. A vida e a História são uma coisa fantástica: houve civilizações no passado que desapareceram efetivamente, foram riscadas do mapa. Estou a lembrar-me de Nínive, de Babilónia e Cartago, que foram arrasados do mapa. Houve uma nação, que era mais forte, mais potente desta Europa, e que o continua a ser, depois de ter passado pelo grau zero da sua própria história, a Alemanha, que era um zero há pouco mais de 50 anos e agora é o ómega, pelo menos em relação à Europa. E nós sabemos bem que assim é!

Portanto essa decisão da convocação de um concílio foi tomada num tempo de grande crise no interior da história da Europa. Mas com uma Igreja consciente, sem dúvida, de que era necessário fazer qualquer coisa que servisse para sairmos coletivamente dessa Europa que estava sem futuro, que estava com um futuro dificilmente compreensível, que estava nessa altura dividida, ideologicamente, em duas Europas, sofrendo uma divisão que se projeta no planeta inteiro: uma parte dessa Europa vivendo sob aquilo que o Cardeal Wojtyla chamava um ateísmo de Estado e a outra Europa, a Europa protestante e a Europa católica do sul, fiéis a uma tradição a que nós próprios pertencemos.

E, não sendo teólogo nem historiador da Igreja, reconheço que se vai jogar nesse Vaticano II algo de novo. A Igreja, a nossa Igreja, é uma Igreja que está no tempo, é uma Igreja incarnada, é uma Igreja que está na História. Eu penso que a grande característica da religião cristã é o ser uma religião incarnada, em todos os sentidos do termo. É uma religião que tem um corpo, que tem uma História e que interfere sobre a História, não representa apenas uma opção meramente espiritual, uma espécie de separação do espírito. É uma religião incarnada que sempre esteve e sempre se preocupou com o destino dos homens no tempo, porventura demais para alguns (há religiões que vivem numa espécie de atmosfera quase mística, rarefeita e abstrata), mas a Igreja Católica calçou efetivamente em todos os sentidos as botas do Império Romano, sobretudo a Igreja Católica Romana.

E portanto estes acontecimentos por mais que nós devamos interpretá-los em função daquilo que se pretende alcançar neste concílio ou em todos os concílios, em todas as ordens (religiosa, ideológica, ética, etc.) são também acontecimentos políticos. A Igreja é eminentemente política. Mesmo o que nós vimos ontem na televisão com a beatificação de João Paulo II não é alheio a isso. Ele foi um grande cristão (quem sou eu para estar a dizer o que é que religiosamente ele era!) mas ao mesmo tempo ele foi uma personalidade com um papel e uma capacidade política fora do comum.

Portanto esse "aggiornamento" foi um "aggiornamento" na ordem dos princípios que têm a sua origem na mensagem cristã, mas de um Cristo (sempre achei isto extraordinário) que o único prisma (se assim podemos dizer) que ele deu de si próprio foi o de "Filho do Homem". Não sei como é que os teólogos interpretam exatamente esta expressão, mas para mim "Filho do Homem" quer dizer, filho da Humanidade inteira, enraizado na História toda do Homem.

Este concílio foi todo um "aggiornamento" da Igreja passada com outro tempo, que é o da modernidade, a modernidade que pouco a pouco tinha conhecido uma metamorfose que a conduziu a uma anti-Igreja ou pelo menos a uma não Igreja.

A modernidade constrói-se a vários níveis, contra os valores, as proposições, as práticas que eram até ali alimentadas fundamentalmente pela mensagem cristã nas suas diversas traduções. A palavra modernismo era mesmo, para alguns, uma palavra pejorativa.

Na História dos princípios do séc. XX há uma primeira tentativa de gente perfeitamente imbuída de toda uma série de ideias que a partir do séc. XVIII põem em causa o funcionamento da cultura europeia a todos os níveis, e fundamentalmente a sua prática religiosa. É gente que quer responder a essas questões que lhe tinham sido postas pelas filosofias das Luzes e respetivos filósofos, que tinham reenviado a Igreja no seu discurso para uma espécie de defesa.

É a Igreja em estado de defesa, a Igreja pós Revolução Francesa, a Igreja do séc. XIX que vai responder a esses ataques, a essa denegação, à vontade de desestruturar toda a visão do mundo que está incarnada na tradição cristã, particularmente na cristã católica, para lhe opor um outro tipo de construção, puramente profana, puramente humana, laica, como se dirá nalguns países. E a isso respondeu a Igreja em estado de defesa, como nunca tinha estado até então, com o famoso Sylabus no séc. XIX, que era uma condenação da modernidade, do seu espírito, não das conquistas diversas que a ciência começava de facto a apresentar, já de uma maneira convincente no séc. XIX, mas uma recusa mesmo do espírito desse mundo moderno, uma condenação, uma espécie de ato heroicamente suicida da parte da Igreja, que impressionou, entre outros, o nosso jovem Antero de Quental.

Na verdade a Europa foi sempre uma realidade que se autodiscutiu, sobretudo a partir da Reforma, mas já antes. Eu penso que isso se deve ao fermento cristão, onde ela enraíza. Há uma conceção de Deus em que Deus, em vez de ser uma solução como sucede com o Islão que aceita Deus sem o problematizar (Deus é Deus e ponto final), está no mundo europeu sujeito a um questionamento: nós não fazemos mais nada senão estar a discutir se Deus existe, se não existe, quais são os seus atributos, etc. Enfim uma discussão contínua, da qual nasce a outra espécie de discussões, inclusive a confrontação ciência-religião, como se fossem incompatíveis uma com a outra, não obstante o legado de um Galileu, de um Pascal, etc, em que a incursão pela ciência não os inibiu de uma profunda religiosidade.

Mas pouco a pouco foi-se criando esta visão ideológica de que um saber unicamente humano e profano era mais convincente, tinha uma eficácia que não eram assegurados pela repetição dos grandes valores, das grandes intuições cristãs.

Havia uma rejeição dessas instituições porque se considerava contrariarem a assunção da nossa existência como existência puramente natural de seres de pulsões e paixões, recusando-se o cristianismo por impor outro tipo de exigências incompatíveis com elas.

É em contraponto disto que este "aggiornamento" representou uma vontade de compreender e ler o mundo tal como ele se apresentava na prática humana, de forma a poder compreendê-lo e ao mesmo tempo a dialogar com ele, a instituir um diálogo com esse mundo moderno que se tinha afastado cada vez mais da matriz cristã, afastamento que foi evoluindo pura e simplesmente para uma espécie de desertificação da prática tradicional e que não terminou com o concílio.

As catedrais da velha Europa são maravilhosas, ainda lá estão, mas praticamente vazias. Estão lá como memória de outros tempos. Nem sequer João Paulo II as encheu, preferiu os estádios, porque era nos estádios que estava a juventude que podia ouvir de outra maneira e aceitar aquilo que não aceitaria nos tempos que estavam confiscados por outro tipo de uma religião que, por sua vez, se tinha deixado, não direi manipular, mas entregar a certas classes que, durante vários séculos, se identificavam como os que detinham a verdade, a prática, a fé, etc., deixando os outros numa espécie de ignorância fáctica.

Em última análise o Concílio Vaticano II quis efetivamente "aggiornar-se", quer dizer, reatar-se com o mundo. O diálogo com o mundo nunca se tinha perdido, mas de facto quando pensamos no que foi o desenvolvimento do pensamento moderno, ou pelo menos de uma parte dele, vemos o que ele representou como afastamento contínuo desses grandes momentos em que a mensagem evangélica era uma mensagem que tinha uma cobertura teórica, porventura contraditória com a própria intuição fundamental do cristianismo.

Sempre pensei que essa espécie de ornamento suplementar àquilo que é a religião da pobreza, da humildade, que dá como referência mais alta possível da prática humana os lírios dos campos e as aves do céu, fosse criado como uma espécie de sacrário dourado para que a maravilha dessas intuições evangélicas da fé tivesse uma espécie de esplendor suplementar para as dourar ainda mais. Daí que tenhamos essa coisa maravilhosa: o cristianismo é uma religião que tem uma expressão de ordem artística incomparável com outras que nós conhecemos, principalmente na ordem musical. A tal ponto que hoje, para muita gente no mundo, o sentimento do religioso, da divindade, do absoluto, se passa mais ouvindo Bach do que assistindo a cerimónias complexas e quase impossíveis de compreender por parte do crente comum.

Mas não foi por razões estéticas que se deu uma viragem na Igreja. Foi por ter em conta a diferença das mentalidades e a possibilidade de ser recebida de outra maneira que ela resolveu sacrificar uma das coisas mais maravilhosas que ela tinha: o seu culto ser em latim, que era um resíduo do Império romano. Foi um corte com o Império Romano, como sendo a cultura de Deus, que subentendia que Deus falava em latim... Mas, Deus fala todas as línguas (também fala naturalmente o latim, suponho eu... ). Foi uma tradução moderna do Pentecostes. São os homens que têm de invocar Deus e de se lhe dirigir na sua própria língua, na sua própria cultura. E essa foi certamente uma das coisas mais importantes que deixou o Vaticano II. E nesse capítulo o universal não é o que está no espaço. Nós estamos sempre no Universal. Alguém, como Montaigne, sabia que cada homem é em si mesmo toda a condição humana. E isto só o pode dizer alguém que sabe o que é o Evangelho, que sabe o que é a mensagem cristã. Portanto, neste capítulo, ninguém tem nada de ensinar de especial de novo.

É preciso ver que este concílio foi pensado e imaginado por alguém que merecia ser "santo subito", chamado João XXIII, que teve uma palavra que é de uma novidade absoluta, não em si mesma, porque está no Evangelho, mas na sua tradução histórica propriamente dita, ao dizer esta frase extraordinária: «a Igreja não tem inimigos».

Ora acontece que na realidade, na História, a Igreja, enquanto instituição estava confrontada efetivamente com inimigos, precisos, declarados. E foi isso que motivou e explica uma parte da história extraordinária de João Paulo II, que sabia que a Igreja tinha inimigos, enquanto palavra livre de si mesma e ameaçada de extinção por uma opressão de um outro género, por assim dizer, de forças do mal, naquela altura incarnadas de uma maneira precisa. Isto explica muito a história deste Papa [João Paulo II], cuja primeira obsessão enquanto polaco era libertar a Igreja a que ele pertencia dessa opressão que a ameaçava. Isto não explica tudo, mas explica imenso.

Mas verdadeiramente a palavra mais evangélica e mais profunda é aquela do João XXIII: «a Igreja não tem inimigos». Mas não precisará ela de inimigos? Essa é uma questão a considerar. Mas eu não sou teólogo para responder a essa questão.

 

Eduardo Lourenço
Maio 2011
In Reflexão Cristã 2012
09.05.13

FotoEduardo Lourenço

 

 

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