

«Compro um bilhete de uma lotaria cujo prémio se reduz a isto: ser lido em 1935!» Esta frase torna-se incompreensível se não se explica que quem a escreve é o famoso romancista francês Stendhal, quando um século antes de 1935 (em 1835-36) está a compor a sua autobiografia, "Vida de Henry Brulard".
Experimentemos também nós fazer este mesmo exercício: o que será de nós, do nosso trabalho, da herança, da nossa casa e assim por diante em 2116? Talvez também a lápide do cemitério onde os nossos restos repousam esteja coberta de pó e incrustada.
Não é para ser enguiçador que, num domingo que, num domingo de sol como hoje, quis propor um olhar sobre o futuro. É só um saudável exercício de realismo que não se deve tornar dominante, porque de outra forma conduziria à indiferença ou ao desencorajamento, mas que não deve ser, de todo, exorcizado.
Píndaro, poeta grego do séc. V a.C., nas suas "Olímpicas", afirmava que «os dias que ainda estão para vir são os testemunhos mais sábios». Sim, porque no fim fazem sobreviver as memórias mais verdadeiras: quantos homens e mulheres de fama televisiva de hoje estarão daqui a pouco tempo (não é preciso um século) totalmente dissolvidos no esquecimento.
É por isso que Cristo insistia em que se adquirissem tesouros que desafiassem a ferrugem e a traça mas que estão registados no livro da vida de Deus e se chamam bem, amor, verdade. Mesmo se na memória humana se extinguem, permanecem no coração de Deus.
Permanece, por isso, sempre necessária a meditação sobre o nosso limite e a nossa caducidade: «Em todas as tuas obras lembra-te do teu fim e jamais haverás de pecar», advertia o bíblico Sirácida (7, 36).
D. (Card.) Gianfranco Ravasi