

Não existem problemas: há apenas soluções. O espírito do homem cria o problema depois. Vê problemas em todo o lado. Encontro esta citação do “Diário” do escritor francês André Gide (1869-1951) num artigo que estou a ler.
Como todo o paradoxo, também este tem a sua parte de verdade. Todos na vida tivemos a ocasião de encontrar quem é capaz de tornar intrincado mesmo aquilo que é linear, de complicar o que é simples, de perder-se numa embrulhada de hipóteses mesmo diante da evidência das soluções. É um gosto algo perverso da mente, um alibi para não agir, um subterfúgio para criar perturbação.
Muitas vezes este vício alimenta-se com a palavra que, em vez de exprimir e descrever a realidade, a oculta e confunde. Vem-me à mente o filósofo vienense Karl Popper, que no seu ensaio “A procura não tem fim” observava: «O caminho mais seguro para a perdição intelectual é o de abandonar os problemas reais pelos problemas verbais».
Quantas vezes na política, na filosofia e até na teologia nos deixamos capturar pelo funambulismo das palavras, subindo até às nuvens e perdendo todo a ligação com a realidade. Não por acaso cunhou-se, precisamente por causa deste síndrome da mente, o vocábulo “nominalismo”, que representa o risco de quem se confia aos nomes e às palavras, perdendo neste itinerário a sua substância e significado. Sem cair num realismo vulgar, é todavia necessário regressar ao coração da realidade e da vida.
P. (Card.) Gianfranco Ravasi