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«Escrevo-vos da prisão»: Frade franciscano revela reclusão de uma Síria desconhecida

«Caríssimos amigos, escrevo-vos da prisão.» O Ir. Bahjat Elia Karakach, guardião do convento de Bab Thouma, em Damasco, capital da Síria, reflete sobre o sentido do caminho de preparação para a Páscoa, partindo das palavras de Cristo sobre o juízo dos últimos tempos.

«Eis que chega o tempo quaresmal, que nos ajuda à conversão através da penitência», tempo em que os cristãos são «chamados a estar próximos de quem sofre, dos marginalizados com quem o Senhor Jesus se identificou», aponta.

«Os presos são expressamente mencionados na parábola do juízo final, em Mateus 25,31-46: “Estava na prisão e fostes visitar-me”. Aqui na prisão não estou só, mas partilho esta reclusão com todos os meus compatriotas. Nós, sírios, com efeito, vivemos desde 2011 numa grande prisão, imposta pelas políticas ocidentais, pelos países que se arrogam o papel de defensores dos direitos civis, mas colocam sob embargo uma nação inteira...

E sabeis porque estamos nesta prisão: Porque queremos defender o nosso belíssimo país dos terroristas que quiseram transformar a Síria num estado obscurantista», denuncia o religioso franciscano.



Os meios de comunicação «nunca vos falarão da alegria de todos os sírios pela reabertura da autoestrada Damasco-Aleppo e da reabertura do aeroporto internacional de Aleppo, que deu esperança de uma possível retoma económica»



«Hoje, os grandes meios de informação gostam de dirigir os holofotes para a história de uma menina morta de frio, ou para uma família obrigada a fugir dos bombardeamentos, mas esses mesmos meios não vos falam dos milhões de sírios que sofrem o frio por falta de gasóleo, que nem sempre podem desfrutar de uma refeição quente por falta de gás de cozinha.

Não vos falam dos alunos que não podem estudar depois do pôr-do-sol por falta de corrente elétrica, não vos falam dos idosos abandonados porque os seus filhos tiveram de emigrar...

Não vos falam do alto custo de vida, porque a libra síria caiu, não vos falam dos jovens soldados que combatem o terrorismo em temperaturas abaixo de zero, e não sabem se o conseguirão fazê-lo, não vos falam dos doentes que não podem ter tratamentos dignos porque os terroristas “moderados” destruíram a maior parte dos hospitais, e porque os hospitais que funcionam não conseguem reparar os equipamentos por causa do embargo…

E seguramente não vos falarão dos bombardeamentos que mataram um jovem universitário há dois dias [em Damasco], nem dos discursos abertamente hostis de Erdogan [presidente da Turquia], que decidiu introduzir nas escolas primárias a nostalgia otomana de reconquistar as terras limítrofes, entre as quais também a Síria.»



«Da “prisão” desejamos-vos todo o bem, e um bom caminho de Quaresma… Não tenhais medo, Jesus, com a sua cruz, venceu o sofrimento, o pecado e a morte»



«Mas os grandes meios de informação também não vos falarão da alegria dos habitantes de Aleppo desde que o exército nacional conseguiu libertar os subúrbios oeste de Aleppo, a partir dos quais choviam os morteiros sobre civis», sublinha o Ir. Karakach.

«Nunca vos falarão da alegria de todos os sírios pela reabertura da autoestrada Damasco-Aleppo e da reabertura do aeroporto internacional de Aleppo, que deu esperança de uma possível retoma económica…

Não vos falarão do anúncio da reparação do caminho de ferro entre a capital síria e a capital industrial (Aleppo), nem da possibilidade de viajar de comboio após nove anos de guerra… Por isso vos digo que estamos na prisão… e as nossas notícias, as verdadeiras, são escassamente difundidas.»

«Desta prisão ouvimos notícias tristes e preocupantes sobre o coronavírus, que invade o mundo (…), rezamos por vós, e às vezes, querendo desdramatizar, dizemos que desta vez é uma vantagem o estar na “prisão”, porque pelo menos este maldito vírus não consegue facilmente penetrar os muros da nossa nação.

Da “prisão” desejamos-vos todo o bem, e um bom caminho de Quaresma… Não tenhais medo, Jesus, com a sua cruz, venceu o sofrimento, o pecado e a morte. Recordai-vos de nós na vossa caridade quaresmal.»


 

In Famiglia Cristiana
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: Igreja em Damasco | D.R.
Publicado em 09.03.2020

 

 
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