

«Quem vive nas fronteiras e dialoga com o diferente, apercebe-se e valoriza o positivo que há no outro, mesmo que pense de modo diferente ou defenda outros credos», considera o padre Miguel Almeida em artigo publicado este sábado no jornal digital Observador.
O religioso da Companhia de Jesus salienta que, «por vezes», habitar a fronteira tem como consequências «incompreensões dentro da Igreja, levando alguns a acusar os Jesuítas de infidelidade ou laxismo moral ou doutrinal».
«Viver no centro é mais “seguro” do que viver na periferia» e a Companhia de Jesus tem «tentado assumir verdadeiramente um lugar de fronteira», já que a identidade da congregação passa por se colocar «inteiramente à disposição do papa», e os últimos pontificados têm «renovado a missão do diálogo com outras religiões, com o ateísmo e com todos os que vivem nas periferias, geográficas ou existenciais».
Depois de recordar que o papa Francisco é jesuíta, o padre Miguel Almeida evoca «a sua insistência numa “Igreja em saída”», que implica a «preocupação com quem anda fora da Igreja, com o efetivo diálogo com as outras Igrejas cristãs e com as outras religiões».
«E talvez seja mais fácil compreender o desconforto que esta atitude provoca a muitos que estão “demasiado dentro” da Igreja, apenas preocupando-se com o manter da estrutura e do “statu quo”, comenta o religioso.
O artigo de opinião tem como contexto a 36.ª congregação geral dos Jesuítas, iniciada este domingo, durante a qual se vai eleger o 30.º sucessor do fundador, Santo Inácio de Loyola, e decidir «as grandes linhas de força e prioridades apostólicas da Companhia para os próximos tempos».
«Durante as próximas semanas vão estar reunidos em Roma jesuítas de todas as partes do mundo, proporcionando uma experiência de internacionalização rara», e entre os participantes estarão religiosos de Portugal, que «é historicamente a primeira Província jesuítica do mundo».
«Entre os fundamentalismos (dentro e fora da Igreja) que postulam a uniformidade, mais do que a unidade, e os relativismos que negam qualquer absoluto, defendendo que tudo vale o mesmo, há a busca de um caminho comum em direção à verdade», assinala o padre Miguel Almeida.
O texto recorda que «a Companhia de Jesus, fundada em 1540, viveu altos e baixos, entre a glória e a humilhação, ao ponto de chegar a ter sido suprimida. De Portugal foi expulsa três vezes. Depois da última expulsão, na República, os jesuítas voltam definitivamente para Portugal em 1932, instalando-se inicialmente no Minho e posteriormente, em 1934, chegam a Lisboa».
Rui Jorge Martins