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História da diocese de Lisboa contada pelo seu novo patriarca, D. Manuel Clemente (I): das origens ao fim da permanência islâmica

A pouco mais de uma semana da tomada de posse de D. Manuel Clemente como patriarca de Lisboa, a 6 de julho, recuperamos o artigo sobre a história da diocese lisboeta, que redigiu para o Dicionário de História Religiosa de Portugal.

Para o arcebispo D. Rodrigo da Cunha, autor seiscentista da História eclesiástica da Igreja de Lisboa, as origens da diocese tocam as do próprio cristianismo. Acha provável que Manços, fugido de Jerusalém depois da morte de Santo Estêvão, viesse a ser o primeiro prelado destas partes ocidentais, onde se incluía Lisboa. Por isso se sentira São Tiago desobrigado de vir aqui, quando missionara outras zonas peninsulares. Seria aliás isto muito conforme - continua o prelado historiador - à preocupação dos primeiros evangelizadores em estabelecer a Igreja nas cidades mais importantes das várias províncias do Império, como era o caso de Lisboa.

A Manços, depois martirizado em Évora, teria sucedido um outro, de nome desconhecido, mas instalado na foz do Tejo por Pedro de Rates, este mesmo que, depois de ressuscitado por São Tiago, presidiria à Igreja de Braga. O seguinte seria Gens, martirizado em Lisboa em tempos de Nero.

Saltando depois os séculos II e III, encontraríamos outro bispo de Lisboa no princípio do século IV e na pessoa de Januário, que tomou parte no Concílio de Elvira. O autor menciona depois Olímpio, que diz natural de Lisboa e seu bispo, segundo alguns, embora ele o indique antes para Toledo. Do princípio do século IV, lembra D. Rodrigo, são os mártires de Lisboa, Veríssimo, Máxima e Júlia, mortos sob Diocleciano. Seguidamente, encontramos a referência a Potâmio, que o autor classifica como quinto bispo de Lisboa...

Que reter destas referências aos primeiros tempos cristãos da cidade, a que o referido autor dedica 40 páginas da sua obra? Muito pouco, sobretudo depois dos trabalhos ultimamente dedicados às origens cristãs de Lisboa, em especial os de Miguel de Oliveira e Montes Moreira: Manços é o mesmo da liturgia hispânica; terá existido realmente, mas como leigo do século V ou VI, quando foi martirizado em Évora.

O segundo e anónimo bispo é tão lendário como Pedro de Rates, seu alegado consagrante. O terceiro, Gens, só tem de verdadeiro o nome, que não é de nenhum bispo de Lisboa, mas de um notário de Arles, martirizado no século IV. Também existiu um Januário, que tomou parte no Concílio de Elvira; só que não foi bispo em Lisboa, mas provavelmente na Tarraconense.

Com Potâmio sim, passamos da lenda à história. Há uma observação de D. Rodrigo da Cunha que é de reter: a importância relativa de Lisboa no contexto do Império e da Península atraiu certamente os evangelizadores antes de meados do século IV, tanto mais que a cidade tinha acesso fácil por mar ou por terra. Há alguns indícios de que tal tenha acontecido: uma carta de São Cipriano, de meados do século III, certifica-nos de haver bispos em Saragoça, Mérida, Astorga e outras partes não nomeadas da Península - porque não em Lisboa?! A mesma carta leva-nos a admitir que um certo número de bispos participara pouco antes na escolha do bispo Félix de Mérida - porque não o de Lisboa, relativamente próximo?!

É também fundamentada a alusão do arcebispo aos mártires Veríssimo, Máxima e Júlia. O martirológio romano inclui-os, referidos a Lisboa; tirou a notícia do martirológio de Usuardo, da segunda metade do século IX com informações peninsulares; Férotin encontra-os referidos em calendários litúrgicos hispânicos, cuja origem pode ir, segundo ele, além do século VI; juntam-se vestígios hímnicos, arqueológicos e hagiotoponímicos, que, embora não definitivos, são bastante coincidentes para se afirmar a verosimilhança dos mártires de Lisboa.

Potâmio é, de facto, o primeiro bispo inquestionável da cidade; mas a sua própria existência e admissível proveniência autóctone - nomes gregos como o seu eram vulgares no Império e a escolha de um bispo pressupunha geralmente o seu conhecimento prévio por parte dos crentes locais - induz a preexistência de uma comunidade cristã relativamente consolidada.

Com Potâmio, o nome de Lisboa inclui-se mesmo na história geral da Igreja, na grande controvérsia doutrinal entre arianos e nicenos, negando os primeiros a verdadeira divindade de Cristo e afirmando-a os segundos, de acordo com os cânones do I Concílio de Niceia (325). A polémica não se resolveu com este concílio, antes continuou ao longo do século, envolvendo imperadores, bispos e teólogos, entre os quais Potâmio de Lisboa, que seria bispo da cidade desde os anos 40. Depois de uma primeira fase em que perfilhou a doutrina de Niceia, Potâmio de Lisboa, provavelmente no final de 355, passou ao arianismo e assim participou no Sínodo de Sírmio, de igual corrente, no verão de 357; regressou à ortodoxia nicena, como o demonstra a sua Carta a Atanásio, escrita muito provavelmente após o Concílio de Rímini de 359.

D. Rodrigo da Cunha, na sua já referida História, não dá nenhum sucessor direto a Potâmio, nem menciona qualquer bispo da cidade até Paulo, personagem real e documentada em 589. Outros autores preencheram a lacuna, somando nomes arbitrários: António em 373, Neobrídio cerca de 430, Júlio em 461, Azulano pela mesma altura, João cerca de 500, Eolo por 536 e Nestoriano por 578 ... Ao chegarmos a 589, encontramos de novo um bispo de Lisboa devidamente documentado: Paulo, presente nesse ano no III Concílio Nacional de Toledo, assembleia em que os Visigodos passaram do arianismo ao catolicismo.

Mais bispos de Lisboa são igualmente certos no período visigótico, conhecidos através da respetiva participação em assembleias eclesiásticas: é o caso de Goma, presente noutra assembleia toledana em 610 e representado num concílio tarraconense de 614; de Viarico, presente no IV Concílio Nacional de Toledo, em 633, no quinto, em 636, e representado no sexto, em 638; de Nefrídio, que esteve no VII Concílio de Toledo, em 646; no décimo, em 656, esteve Cesário; ao concílio provincial de Mérida de 666 foi Teodorico, também prelado lisbonense; como o foram depois Ara, presente no XIII Concílio Nacional de Toledo, em 683, e Landerico, presente no décimo quinto, em 688, e no décimo sexto, em 693.

Em todos estes concílios a Igreja de Lisboa de algum modo se incluiu na vida global da Igreja visigótica, estreitamente ligada à respetiva monarquia, tentando consolidar a fé e o trono. Nalgumas destas reuniões adotaram-se medidas restritivas em relação aos judeus: - em que medida a polémica judeo-cristã tocaria também a foz do Tejo?

Resta-nos desta época uma pequena série de pedras trabalhadas, capitéis, anéis e inscrições, de Lisboa ou arredores. Umas destas inscrições, em São Miguel de Odrinhas, perto de Sintra, menciona um bispo Ildefonso, que talvez se possa ligar à sé lisbonense deste período. É efetivamente pouco, mas assinala a persistência da comunidade cristã até à invasão árabe. Com esta, o rasto cristão quase se perde, em Lisboa como no atual território português. No entanto, colecionando as poucas referências documentais e valorizando algumas fontes, algo se poderá dizer.

A situação da cristandade local a seguir à conquista islâmica, por volta de 714, não se distinguiria muito do que geralmente aconteceu pela Península Ibérica: os cristãos que quiseram continuar a sê-lo - os moçárabes - puderam manter a sua fé e praticar o seu culto, embora sujeitos a tributos específicos e proibidos de qualquer proselitismo; os filhos de cristã e muçulmano seguiriam a religião do pai; a conservação e, ainda mais, a construção de novos templos eram dificultadas ou impossíveis e os antigos podiam dar lugar a mesquitas; a situação complicava-se no caso de envolvimento de moçárabes em questões político-militares entre fações islâmicas, seguindo naturalmente a sorte dos aliados; ciclicamente, algumas vagas de maior radicalismo muçulmano tomavam a vida das comunidades cristãs mais difícil.

Em Lisboa, a mesquita grande levantar-se-ia no local da anterior sé romano-visigótica: foram achadas nas paredes medievais da catedral lisbonense algumas pedras visigóticas; e as atuais escavações da área do seu claustro parecem mostrar vestígios da mesquita mourisca. O antigo templo ou memória dos mártires Veríssimo, Máxima e Júlia teria sido arrasado, restando dele apenas três pedras, à chegada dos cruzados. Com tudo isto, deve ter-se mantido uma expressiva população cristã em Lisboa que, no princípio do século XII, poderia mesmo chegar a metade dos habitantes da cidade.

Para o que aconteceu em meados deste século, antes e depois da reconquista cristã, dispomos sobretudo do relato de um cruzado inglês que nela tomou parte (Carta a Osberno), onde não faltam informações de muito interesse para a história da diocese. Diz-nos o cruzado, por exemplo, que, nesse seu último ano mourisco, Lisboa era um opulento centro populacional, albergando 154 000 homens, além das mulheres e crianças e incluindo os habitantes de Santarém, os nobres de Sintra, Almada e Palmela e muitos mercadores, nela refugiados. Diz-nos ainda que em tal aglomeração não havia nenhuma religião obrigatória, facto que aprecia negativamente, mas levou José Garcia Domingues - baseado nesta e noutras fontes - a concluir que árabes e berberes, muladis (cristãos passados ao islamismo) e moçárabes viveriam mais ou menos em harmonia na Lisboa mourisca.

 

D. Manuel Clemente
In Dicionário de História Religiosa de Portugal, ed. Círculo de Leitores
02.07.13

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