

A Igreja católica vai entregar a 9 de setembro, em Veneza, no âmbito do festival de cinema organizado pela Bienal da cidade italiana, o Prémio Robert Bresson 2016 ao realizador russo Andrei Konchalovsky.
O cineasta, argumentista e produtor nascido em 1937 que se envolveu, inclusive como ator, em mais de 40 filmes, dirigiu obras como “Tio Vânia”, de 1971, estreado este ano em Portugal, e recebeu o Leão de Prata, em Veneza, no ano de 2014, por “As noites brancas do carteiro”.
A distinção vai ser entregue por monsenhor Dario Edoardo Viganò, sacerdote italiano de origem brasileira, responsável máximo da Secretaria para a Comunicação e diretor da televisão do Vaticano, e pelo padre Davide Milani, presidente da fundação Ente dello Spettacolo, revela a página deste organismo italiano, que assegura a organização do prémio.
A atribuição deve-se ao facto de Konchalovsky ser desde sempre um realizador «incómodo», e de «grande profundidade psicológica», que se distingue pela sua «visão positiva do cinema, meio capaz não só de ser sensível mas de agir na realidade, religando-a a um ideal de justiça», refere a fundação Ente dello Spettacolo.
Entre os filmes destacados no percurso do cineasta está “O círculo do poder” (1992), que percorre «a Rússia estalinista através do olhar “cego” e ingénuo do projecionista oficial do Kremlin. Um ato de denúncia forte, que sublinha a relação sempre próxima e muitas vezes imprópria entre Arte e Poder».
«Uma reflexão que acompanha também os últimos trabalhos do realizador, mais meditativos e nostálgicos, e que toca o seu cume com “As noites brancas do carteiro”», classificado com «exemplo perfeito desse cinema capaz de ser político sem ser ideológico, etnográfico sem dever ser científico» e que, «declinado no plural», faz emergir «a história e o sentido de cada indivíduo».
O prémio Robert Bresson, dedicado ao cineasta francês considerado o pai do minimalismo cinematográfico e realizador de “Diário de um pároco de aldeia”, foi instituído em 2000, sendo entregue por ocasião da Mostra de Arte Cinematográfica de Veneza.
O galardão é entregue pela fundação Ente dello Spettacolo e pela Revista del Cinematografo, ouvidos os pareceres dos conselhos pontifícios da Cultura e das Comunicações Sociais, a um realizador que «tenha dado um testemunho, significativo pela sinceridade e intensidade, do difícil caminho de procura do significado espiritual» da vida.
Antes de Konchalovsky foram distinguidos Giuseppe Tornatore, o português Manoel de Oliveira, Theo Angelopoulos, Krzysztof Zanussi, Wim Wenders, Jerzy Stuhr, Zhang Yuan, Aleksandr Nikolaevič Sokurov, Daniel Burman, Walter Salles, Mahamat-Saleh Haroun, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Ken Loach, Amos Gitai, Carlo Verdone e Mohsen Makhmalbaf.
A 73.ª edição do festival de cinema de Veneza é inaugurada esta quarta-feira e decorre até 10 de setembro.
Rui Jorge Martins