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Igreja e Cultura

Num ano em que celebramos os 50 do Concílio Vaticano II, a Igreja coloca-se à escuta deste evento, em gesto de aprendizagem para a anunciar o mistério do evento de Deus na história de hoje. Um Concílio que não é simplesmente para recordar mas para viver e realizar-se presentemente na tradição viva da Igreja e do mundo. Partilhamos, por isso, o texto "Igreja e Cultura", que o cardeal italiano Giacomo Lercaro (1891-1976) proferiu, no dia 4 de novembro de 1964, em plena assembleia conciliar, sobre um dos esquemas preparatórios daquela que viria a ser a Constituição Pastoral Gaudium et spes -  A Igreja num mundo atual, promulgada por Paulo VI a 7 de dezembro de 1965. O parágrafo 22 do Esquema XIII (mais tarde Gaudium et spes) a que se refere Lercaro, logo no início do seu discurso, tinha por título "A justa promoção da cultura".

O cardeal Lercaro, arcebispo de Bolonha, formado em Sagrada Escritura e perito em liturgia, é reconhecido pela sua liberdade de espírito, pobreza evangélica concreta e intensa fraternidade com os mais pobres durante toda a sua vida. É ainda memorável o seu discurso na primeira sessão conciliar, a 6 de dezembro de 1962, quando proferiu a expressão "Igreja dos pobres", que viria a refletir-se na Lumen gentium - A Igreja: «[…]assim também a Igreja, embora necessite dos meios humanos para o prosseguimento da sua missão, não foi constituída para alcançar a glória terrestre, mas para divulgar a humildade e abnegação, também com o seu exemplo» (nº 8). E no decreto Ad Gentes - Sobre a Atividade Missionária da Igreja: «a Igreja, movida pelo Espírito Santo, deve seguir o mesmo caminho de Cristo: o caminho da pobreza, da obediência, do serviço» (nº 5).

 

«O parágrafo 22 do esquema é fundamental: toca num dos pontos mais altos e mais sintéticos da relação entre a Igreja e o mundo, da distinção, e todavia, da recíproca ligação de uma e de outra.

Está continuamente implícito um problema sério e muito árduo: em que sentido e em que medida a revelação divina é necessária para um progresso dos homens num conhecimento que seja (nos seus diversos objetos e ordens) cada vez mais humano? E em que sentido e em que medida o progresso cognitivo humano, também profano, pode contribuir para a explicitação e evolução homogénea do mesmo dado revelado?

Nós reconhecemos facilmente, mais uma vez, a extrema dificuldade do argumento e os esforços realizados também neste campo pela Comissão, tanto no esquema como nos anexos. Mas, no global, o texto, em toda a sua impostação, não pode satisfazer porque assinala o passo por onde seria necessário começar. Omito as muitas objeções e reservas que se poderiam opor a quase todos os pontos do parágrafo, mas sinteticamente digo. O esquema limitou-se a acenar só a algumas predisposições, por assim dizer, muito preliminares e óbvias da atitude da Igreja perante a cultura, mas ignora o coração dos problemas mais fundos e mais atuais desta relação e sem caracterizar o proprium da presença e do dinamismo cultural da Igreja de hoje.

Não se diz ainda quase nada quando se afirma aquilo que diz o esquema. Isto é, que a cultura é hoje magni momenti para a Igreja, que "a própria religião traz grande utilidade ao progresso da cultura" e que por isso a Igreja tem de colocar-se sempre mais numa atitude de abertura, de simpatia, de atenção, e por sinal, de confiança em relação ao progresso científico, técnico, artístico, e em relação àqueles que estão empenhados nisso. É certo que tudo isto não basta mesmo que se acrescente que à Igreja importa que este progresso cultural aconteça corretamente, num modo equilibrado e harmonioso nas suas diferenças e com respeito por um humanismo assim dito espiritualistico e de um adequado pluralismo cultural.

Perdoem-me se disser que tudo isto é hoje assim imposto pela evidência do atual desenvolvimento histórico e das reivindicações manifestas e mais urgentes da consciência contemporânea, que tornar explícito o reconhecimento destas premissas e declarar a intenção de se ater a elas na relação com o mundo de hoje, pode certamente corrigir refutações ainda não superadas e pode eliminar as desconfianças para com a Igreja, não de todo sem motivos, mas não pode constituir por si um verdadeiro facto novo e um grande mérito nem ajudar mais para além do que é a missão da Igreja no mundo de hoje. Para além das intenções, coloca-se somente um lugar-comum, em si escassamente significante e desafiante, escassamente capaz de um encontro eficaz com a cultura, não de ontem, mas de amanhã.

Para um encontro efetivo, duradouro e progressivo, é preciso, antes de tudo, procurar e decidir algumas modificações essenciais do atual ordo cultural no interior da Igreja, manifestamente sugeridas pelas peculiaridades próprias da cultura contemporânea.

1. A Igreja deve reconhecer-se culturalmente pobre e querer ser coerentemente sempre mais pobre.

Não falo aqui da pobreza material, mas de uma especial aplicação da pobreza evangélica própria da esfera da cultura eclesiástica. Também neste âmbito - como naquele dos bens e das instituições patrimoniais - a Igreja conserva até agora certas riquezas de um passado glorioso mas talvez anacronistas (sistemas escolásticos de filosofia e de teologia, instituições educativas e académicas, métodos de ensinamento universitário e de investigação). A Igreja deve ter a coragem, se for preciso, de renunciar a estas riquezas ou pelo menos de não as assumir excessivamente, de não as possuir e de nelas confiar causticamente. Elas podem não colocar sob o candelabro, mas esconder debaixo do alqueire, a lâmpada da mensagem evangélica e impedir a Igreja de se abrir aos valores verdadeiros da nova cultura ou das culturas antigas não-cristãs, limitar a universalidade da sua linguagem, dividir invés de unir, excluir muitos mais homens do que atrair e convencer.

Não queria de facto auspiciar para a Igreja um empobrecimento teológico e cultural puramente negativo. Também no campo da cultura vale a distinção entre pobreza evangélica e pobreza sub-humana. Não é esta, mas aquela que se augura: ou seja não é a ignorância e a mesquinhez, mas a sobriedade e o sentido do limite, e conjuntamente a agilidade da mente, a magnanimidade e a coragem para tentar (seja também com risco) novos caminhos, a castidade e a humildade intelectual, que é verdadeira e riquíssima sabedoria sobrenatural e ao mesmo tempo elegantíssimo sentido da atualidade e autêntico realismo histórico.

Em suma, aquilo que auspiciamos não é a renúncia pela renúncia, mas a renúncia que enriquece e que também do ponto de vista estreitamente humano conduz a uma acribia mais rigorosa.

A Igreja tem sempre dito não querer identificar nem a si mesma nem a própria doutrina com um determinado sistema, com uma certa filosofia e teologia. Mas até agora esta distinção tem sido uma distinção mais de iure do que de facto.

É chegada a hora de separar sempre mais de facto a Igreja e a sua mensagem essencial de um determinado organon cultural, cuja universalidade humana e perenidade - invés - muitos homens de Igreja ainda reivindicam demasiadamente com um espírito de domínio e de autossuficiência.

Para abrir-se ao verdadeiro diálogo com a cultura contemporânea, a Igreja deve, com espírito de pobreza evangélica, concentrar sempre mais a sua cultura

sobre a riqueza absoluta do livro sagrado, do pensamento e da linguagem bíblica. A Igreja não deve temer por isso não ser compreendida ou desiludir. Os homens no fundo desejam da Igreja mais do que isto. E então a cultura da Igreja não aparecerá mais - como às vezes aconteceu - um racionalismo ou um cientismo de derivação profana, mas uma potentíssima dinamis religiosa capaz de fermentar qualquer cultura de hoje e de amanhã.

2. Imediata consequência deve ser a vontade da Igreja em promover um novo movimento da cultura eclesiástica, sobretudo de uma nova paidéia no interior da Igreja, e especialmente, nos seus institutos de ensino, de formação e investigação.

Isto toca o coração do nosso esquema: como se pode esperar um diálogo permanente e aberto ao futuro, se os interlocutores ex parte ecclesiae (sacerdotes e fiéis) serão formados segundo uma ratio studiorum inatual, e por sinal, a língua científica na qual devem pensar, também gloriosíssima, já não é mais uma língua falada e sobretudo não é mais uma língua universal, capaz de exprimir as categorias novas, universalmente válidas?

Por isso, é dentro deste esquema e dos seus temas que são postuladas as reformas, em que espero voltar noutro momento e sem as quais ninguém poderá acreditar na sinceridade dos nossos propósitos nem na nossa capacidade de respeitar as exigências e valores mais autênticos da cultura contemporânea.

3. Analogamente a temática do esquema implica um retorno sempre mais habitual à grande tradição dos bispos-doutores. A cultura cristã de facto formou-se durante séculos em larguíssima parte com a ação de grandes bispos, pastores e mestres. E também depois das instituições do tardo-medievo ou da época moderna, permanece ainda verdadeiro que o modo de ser mais original e mais próprio da cultura eclesiástica não é aquele que brota unicamente das cátedras professorais, mas aquele que desabrocha das cátedras episcopais dos bispos-teólogos. Digo teólogos no sentido primordial, que não designa aqueles que indagam escolasticamente sobre Deus. É preciso que voltemos ao ideal (pelo menos por quanto dependa não de Deus, mas de nós homens, especialmente no momento da seleção), digo, dos bispos-espirituais, que falam com Deus e que desta íntima experiência tracem as linhas essenciais de uma obra de governo, de magistério, veramente capazes de serem intérpretes de uma situação, de uma época, de um povo e da sua cultura.

4. Por fim, deve ser tornada explícita uma necessidade que está implícita em todo o esquema e não no parágrafo 22: isto é, a necessidade de um retorno ao outrora num outro aspeto capital: o encorajamento aberto aos leigos para que se empenhem na procura a nível científico nas disciplinas teológicas.

Não falo simplesmente da necessidade que os leigos em geral tenham uma certa cultura teológica (que, infelizmente, muitas vezes pensamos em tom menor, despotencializado). Mas digo algo bem mais implicativo, ainda que não seja acessível a todos, mas certamente a muitos.

Este nosso esquema indica uma das condições fundamentais para a relação entre a Igreja e a cultura, na necessidade que muitos fiéis idóneos se empenhem a fundo na procura científica. Mas penso somente nas ciências humanas. E porque não também na teologia?

O termo complementar ao bispo-doutor é aquele de leigo-teólogo. É preciso talvez em toda a Igreja Católica um grande número de leigos teólogos empenhados ao nível científico no próprio coração da cultura sacra: como existiam antes da clericalização total da cultura eclesiástica, e como existem ainda na Ortodoxa e em algumas comunidades reformadas.

Só sob esta condição, só quando assegurarmos aos nossos leigos não apenas a possibilidade menor dos assim ditos studia theologica para leigos, e o acesso esporádico às faculdades de teologia para padres, mas a possibilidade real dos centros de investigação científica, próprios para eles e inspirados por eles, só então se verificará uma salto qualitativo sob a orientação da sagrada hierarquia.

Então as escolas teológicas e a própria cultura dos sacerdotes encontrarão vias verdadeiramente novas: só então as instituições culturais da Igreja realizarão um renovamento adequado, toda a sua paidéia se abrirá a uma nova dinâmica, o seu organon cultural conhecerá uma nova aurora, e todos, sacerdotes e leigos, serão formados de modo a compreender o mundo. Os mesmos filhos da Igreja empenhados (como o esquema prevê) nas fronteiras externas das ciências humanas, poderão ser mais diretamente ajudados a inspirar cristianamente a cultura contemporânea e os homens todos da cultura poderão encontrar, na forma mais fisiológica e espontânea, a teologia, a sabedoria de Deus.»

 

Este texto integra o número 18 do "Observatório da Cultura" (novembro 2012).

 

Card. Giacomo Lercaro (1964)
Tradução do italiano: João Paulo Costa
© SNPC | 13.11.12

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