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João XXIII e os artistas

A pouco menos de quatro meses do início do Concílio Vaticano II (1962-1965), o papa João XXIII (25.11.1881-3.6.1963), que o convocou, recebeu no Vaticano os participantes no 22.º congresso da Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores.

1.
A Igreja Católica incentiva com gosto, como sabeis, os encontros internacionais de todos os níveis. A Confederação Internacional das Sociedades de Autores e Compositores está segura, por isso, de encontrar em nós, na pessoa de quem participou no seu 22.º congresso, o acolhimento mais benévolo. Mas há motivos particulares para a cordialidade da recepção; por um lado, a finalidade dos vossas amistosas e fraternos debates é colocar em comum o talento e os dotes excepcionais de inteligência e amor que a Providência vos concedeu; mas estas riquezas espirituais e intelectuais foram-vos dadas em benefício de todos, pertencem, por assim dizer, a toda a humanidade.

E, por outro lado, o Vaticano, que vos recebe hoje, guarda com amor nas suas galerias e museus, nas suas bibliotecas e arquivos, uma tal coleção de obras-primas e lembranças preciosas, que fazem dele um dos lugares do mundo mais familiares aos sábios e aos artistas. Estais, portanto, de alguma forma em vossa casa.

 

2.
Vós sois membros da Sociedade de Autores e Compositores. À parte os problemas de organização ou de técnica em que a vossa Confederação pode ocupar-se, o que os caracteriza aos olhos do grande público são, antes de tudo, os vossos meios de expressão, a vossa linguagem. A linguagem do poeta, do escritor, do músico tem uma eficácia especial para desvelar os obscuros segredos das almas, para interpretar as suas aspirações, suavizar os seus sofrimentos; pode orientar os corações para fins elevados, corrigir os erros, purificar as paixões, travando-as na trajetória para os abismos e exaltando-as no seu nobre impulso para o verdadeiro bem.

Não se trata apenas, na vossa profissão, de promover a aquisição de riquezas materiais nem de favorecer a sagacidade dos grupos humanos em matéria económica. O que os interessa – e esta é a honra da vossa vocação – é valorizar o sopro espiritual que anima cada povo.

Com efeito, é pela voz dos seus poetas e dos seus artistas que um povo, mesmo antes de ter conseguido o seu desenvolvimento económico (...), pode revelar o encanto e o mistério da sua fecundidade interior.

Esta voz do poeta e do artista instrui, educa, consola: é fonte da alegria mais pura e santa. A mensagem de que é portadora passa por cima das barreiras artificiais que separam os homens uns dos outros. Nas horas de tristeza e de humilhação, no auge das guerras fratricidas, a voz do poeta e as harmonias musicais do artista levaram os homens a refletir e sugeriram-lhes as ideais mais pacíficas.

 

3.
Caros senhores, permiti-nos comentar, para terminar, um facto da experiência que vos pode servir de encorajamento na continuação das vossas belas atividades: é raro que o génio ou talento encontrem rapidamente, neste mundo, toda a compreensão e a glória que lhe são devidas.

Antes dos vossos contemporâneos, é às gerações de amanhã que a vossa mensagem se dirige. Pensamos nas multidões inumeráveis daqueles que vos precederam nesta nobre carreira. A sua existência atravessou frequentemente provações incalculáveis mas as suas vozes continuam a ressoar para consolo e alegria de todos os séculos.

O Evangelho diz-nos: «Um é o que semeia e outro o que recolhe» (João 4, 37). Vós sois semeadores, outros recolherão depois de vós, e, quem sabe, já entre aqueles que despertam para a vida sob os vossos olhos. Que alegria para nós – e para todo a pessoa de bom coração, estamos seguros disso – ouvir dizer que a juventude de hoje sente passar sobre ela um sopro vivificador, que a leva a interessar-se cada vez mais no apreço e na obtenção dos bens do espírito!

Prossegui a vossa bela tarefa com um coração generoso e olhai para a frente com serena confiança. Isso servirá também para atrair a atenção sobre a vossa mensagem e contribuirá para orientar homens e povos para sentimentos de paz.

Formulando este desejo, invocamos sobre vós, caros senhores, sobre as vossas obras e sobre as vossas famílias, a abundância das bênçãos divinas, que Deus gosta de dar àqueles que, como vós, têm vontade de fazer frutificar os talentos que receberam, pondo-os ao serviço dos mais nobres ideais da humanidade.

 

João XXIII
23.6.1962
© SNPC | 03.06.13

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