

Ao definir simplesmente como espectacular o disco que Jordi Savall dedicou à "Missa Salisburgensis, a 54 vozes", de Heinrich Ignaz Franz von Biber (1644-1704), corre-se o risco de reduzir e banalizar o notável valor histórico, científico e cultural do trabalho que o maestro catalão desenvolveu sobre uma das mais importantes obras do repertório sacro barroco.
É verdade que esta música extraordinária exerce sobre o ouvinte um efeito de envolvente sugestão, mas para alcançar esse resultado é necessário, em primeiro lugar, enfrentar e resolver enormes problemas não só de natureza artístico-interpretativa, mas também de carácter técnico-executivo, até "arquitetónico", analisados numa detalhada explicação no livrinho que acompanha o CD.
A complexidade da trama polifónica, a delicadeza dos equilíbrios sonoros e a influência da disposição espacial dos diversos grupos vocais e instrumentais testemunham a riqueza dos excecionais meios utilizados na "Missa Salisburgensis", composta em 1682 para a celebração dos 1100 anos da fundção do arcebispado de Salzburgo, na atual Áustria.
Trata-se do «Everest das composições policorais», assim a definiu o próprio Savall, que, à cabeça dos conjuntos La Capella Reial de Catalunya, Hespèrion XXI e Le Concert des Nations, está perfeitamente consciente de como o cenográfico efeito de conjunto desta fascinante «nebulosa musical» não se pode obter sem o cuidado detalhado das partes singulares que a compõem.
Referimo-nos aos iridescentes reflexos policromáticos do "Kyrie" e do "Glória", a modernidade do "Miserere" "a cappella" encastoado no esplêndido "Agnus Dei", ou ainda os desníveis dinâmicos e as excursões expressivas do "Credo", com a majestade dolente do "Crucifixus", entoado apenas por vozes graves.
A "Missa Salisburgensis a 54 vozes" é o cume supremo de contraponto e harmonia que têm a tarefa de aproximar a Terra do Céu, escalada que Savall conquista, alcançando pela enésima vez o sumo vértice da excelência interpretativa.
«Esta música demonstra-nos» - escreve Jordi Savall sobre o disco onde a "Missa" é interpretada - «que Salzburgo não vem depois de Roma ou Veneza. O esplendor barroco do arcebispado lembra-nos a imagem simbólica da Jerusalém celeste», com os seus «mil querubins que cantam os louvores eternos de uma vida celeste portadora de uma nova mensagem de paz e de uma promessa de redenção universal».
Andrea Milanesi