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José Tolentino Mendonça: 50 anos, 50 poemas

Imagem José Tolentino Mendonça | © FNAC

José Tolentino Mendonça: 50 anos, 50 poemas

Padre, poeta, biblista, primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura e atual vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, José Tolentino Mendonça celebra esta terça-feira, 15 de dezembro, 50 anos, que assinalamos com 50 poemas da sua autoria.

 

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isto foi antes
de aprender a álgebra

 

Travessia da infância

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez 
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes 
do mundo

mas isso foi depois
muito depois
repito

 

Inscrição

o brilho é o leve
júbilo
que sustenta os versos

ainda que sejamos obscuros

e nenhum nome
sirva jamais para dizer
o fogo

 

Revelação

Meu o ofício incerto das palavras
a evocação do tempo
o recurso ao fogo

Meu o provisório olhar
sobre este rio
o fascínio consentido das margens
sitiando a distância

Meus são os dedos que em tumulto
modelam capitéis
de sombra e arestas

Mas oculto na brisa
és Tu quem percorre o poema
despertando as aves
e dando nome aos peixes

 

Os dias de Job

Às vezes rezo
sou um cego e vejo
as palavras o reunir
das sombras

às vezes nada digo
estendo as mãos como uma concha
puro sinal da alma
a porta

queria que batesses
tomasses um por um os meus refúgios
estes dedos
inquietos na ignorância
do fogo

pois que tempo abrigará
os anjos
e que dia erguerá todo o sol
que há nas dunas

por isso
às vezes chove quando rezo
às vezes quase neva
sobre o pão

 

A fala do rosto

És Tu quem nos espera
nas esquinas da cidade
e ergue lampiões de aviso
mal o dia se veste
de sombra

Teu é o nome que dizemos
se o vento nos fere de temor
e o nosso olhar oscila
pela solidão
dos abismos

Por Ti é que lançamos as sementes
e esperamos o fruto das searas
que se estendem
nas colinas

Por ti a nossa face se descobre
em alegria
e os nossos olhos parecem feitos
de risos

É verdade que recolhes nossos dias
quando é outono
mas a Tua palavra
é o fio de prata
que guia as folhas
por entre o vento

 

Anunciação

Só o ombro do anjo
permite a visão
da luz
o sinal

é na mulher o rosto
anuncia
o cortejo solene do sol
que lhe cresce
no colo

o mistério

a flor do lírio
acesa

 

Epitáfio para R.M. Rilke

quando as palavras
buscarem amparo
em teu secreto canto

serás ainda
o único pastor
do meu silêncio

 

Final

O silêncio é a partilha
do furtivo
lume

 

Caminho do Forte, Machico

No caminho onde aprendi o outono
sob o azul magoado
os pescadores cruzavam ainda linhas
províncias clareiras
e esse gesto masculino de apagar a dor

chegava pelos percalços da terra
o carro do gelo
e os miúdos tiravam bocados para comer às dentadas
em retrato selvagem mas, juro-vos, havia encanto
havia qualquer coisa, outra coisa
nesse instante em perda

as mulheres sentavam-se à porta com os bordados
quando passavam estrangeiros
ficavam sempre a sorrir nas suas fotografias

 

A casa onde às vezes regresso

A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos

Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo

Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração

 

Murmúrios do mar

Paga-me um café e conto-te a minha vida

O inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro

Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem

Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois

«Pago-te um café se me contares
o teu amor»

 

Hotel inglês

Aprendo muito quando o verão acaba
para lá das coisas habituais
o sinal ardente, primitivo:
uma espécie de abandono sem socorro
diferente da rendição

apercebo-me do frio pela primeira vez
no vento, na água
alugamos bicicletas para chegar à costa
à procura do que resta
uma estação
onde as imagens não naufraguem
a cada instante

também eu me recuso a dizer apenas
o que pode ser dito

 

A presença mais pura

Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»

A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um «não esquecer» fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome

Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»

 

Os versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão em escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

 

Atalhos

Não constitui segredo
contam a sua história
mesmo se por atalhos
as coisas insignificantes de uma vida

assim o fragmento que reconheço
tanto tempo depois
escrito num caderno

«... reencontrarei ainda o vento dessa praia
de que me despeço
nos penhascos frente ao mar
o caminho abandonado...»

reencontrarei ainda
a expressão distraída que me deixava
a um passo daquilo que nem hoje sei?

 

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou

 

A mulher desconhecida

É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor

 

Se me puderes ouvir

O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui

à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos

mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo

 

Da verdade do amor

Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor

 

Sobre um improviso de John Coltrane

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia

primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é difícil
é cada vez mais difícil entrar em casa

não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores

e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção

 

Jardins

À medida que correm os dias
a alba, outubro, as brumas sobre o rochedo
percebemos o aspecto vulnerável
dos jardins

perguntas o nome de um arbusto
é um corpo tão precipitado
haverá palavra que cubra
seu deslumbre?

 

Levada do Castelejo

Amo os que atravessaram os campos
desamparados
mais do que se pode

Amo as suas verdades:
algum ânimo, vitórias inúteis
um sentido impróprio para a inocência
nada ou quase nada diferente
do perigo

ninguém soube ao certo donde vinham
para encontrar uma vida
ou coisa mais pura ainda

entregues como este verão já no fim
às folhas secas
que voam

 

Os amigos

Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura

Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis

Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor

 

Uma vela acesa

Onde nada ameaça
sobrevém inesperado o temor:
um coração desce
à morada de outro coração

 

Um pormenor de Piero Della Francesca

Pela neve sem rasto
caminhou
aquele que busca um amor

 

Uma casa em Machico

Desço as escadas de casa
alguma coisa acabou para nós neste lugar
nos espaços mínimos que nos separaram
orgulho-me da tua nobreza
conto teus passos de criança sobre a terra
não sei que manhã virá em auxílio
de um amor
tão puro que não precisa
sequer de razões
ponho a mão na boca
para suster um grito

No duelo com certas noites
um coração sai sempre perdedor

Tua voz luzia pelo porto
quase a ponto de perder-se

Não avances tão depressa, minha noite

 

O silêncio

Regressamos a uma terra misteriosa
trazemos uma ferida
e o corpo ferido
imprevistamente nos volta
para margens mais remotas

Giorgio Armani tinha declarado
àquele jornal inglês: «o luxo desagrada-me,
é anti-democrático.
Quero agora homenagear os operários de todo o mundo»
Eu só pensava em São João da Cruz
enquanto ouvia pela enésima vez:
«a moda substituiu o luxo
pela elegância»

João da Cruz fala de coroas,
resplendores, casulas
véus de seda, relicários de ouro e
diamantes

para lá do jogo das nossas defesas
qualquer coisa interior
a intensa solidão das tempestades
os campos alagados,
os sítios sem resposta

o teu silêncio, ó Deus, altera por completo os espaços

 

A estrada branca

Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto

folhas tremiam
ao invisível peso mais forte

Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate

 

O esterco do mundo

Tenho amigos que rezam a Simone Weil;
Há muitos anos reparo em Flannery O’Connor

Rezar deve ser como essas coisas
que dizemos a alguém que dorme
temos e não temos esperança alguma
só a beleza pode descer para salvar-nos
quando as barreiras levantadas
permitirem
às imagens, aos ruídos, aos espúrios sedimentos
integrar o magnífico
cortejo sobre os escombros

Os orantes são mendigos da última hora
remexem profundamente através do vazio
até que neles
o vazio deflagre

São Paulo explica-o na Primeira Carta aos Coríntios,
«até agora somos o esterco do mundo»
citação que Flannery trazia à cabeceira

 

A noite abre meus olhos

Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado

Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes

A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta

o amor é uma noite a que se chega só

 

A Senhora Blume

Minha mãe gosta das luzes acesas
mesmo quando dorme
depois é de uma distração flagrante

Ela diz que devemos cuidar da aveia do amor
e parece não ver que minto
sobre jeiras e despensas vazias

«Gosto do modo como as andorinhas esperam»
canta ela através do meu abandono

Minha mãe acha que ofereço roupagens de Salomão
em troca de fracas penas
porque se as palavras me disseram o que realmente guardam
(e ela carrega no se, como declarando em perigo a condição terrena)
estarei desprovido na mesma
melhor seria deixar truques que misturam
punhais e revelações

Seus olhos quando me olham
com uma miséria que dói
lembram o que se ouve de incertos mendigos
que algures escondem fabulosas somas

 

O poema

O poema é um exercício de dissidência, uma profissão de incredulidade na omnipotência do visível, do estável, do apreendido. O poema é uma forma de apostasia. Não há verdadeiro poema que não torne o sujeito um foragido. O poema obriga a pernoitar na solidão dos bosques, em campos nevados, por orlas intactas. Que outra verdade existe no mundo para além daquela que não pertence a este mundo? O poema não busca o inexprimível: não há piedoso que, na agitação da sua piedade, não o procure. O poema devolve o inexprimível. O poema não alcança aquela pureza que fascina o mundo. O poema abraça precisamente aquela impureza que o mundo repudia.

 

Para ler aos noviços

Deus não aparece no poema
apenas escutamos a sua voz de cinza
e assistimos sem compreender
a escuras perícias

A vida reclama inventários e detalhes
não a oiças
quando inutilmente perscruta as sequências
do seu trânsito

Só há um modo verdadeiro de rezar:
estende o teu corpo ao longo do barco
que desce silencioso o canal
e deixa que as folhas mortas dos bosques
te cubram

 

Versões do mundo

Se tiveres de escolher um reino
escolhe o relento
a noite tem a brancura do alabastro
ou mais extraordinária ainda

Ao que vem depois de ti
cede o instante
sem pronunciar
seu nome

 

Isto é o meu corpo

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar

 

Os justos

Começam o dia louvando o imperfeito:
o tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas

 

O perfume precioso (Lc 7, 36-50)

Havia um vaso de perfume
em barro branco
e a mulher que se colocou de gatas
radiante por poder exibir a farta cabeleira
Mas ao quebrá-lo daquele modo aos pés do hóspede
misturou o nardo imprevistamente
com o cheiro de uma mulher que chora

O anfitrião especado observava, sem pronunciar um som
o mestre, porém, olhou-a com os seus olhos de cão meigo
a vagabundagem e a pobreza
eram direitos de quem entrou e saiu das trevas
para fazer da infelicidade um uso

Recordarei sempre aquele momento
perfeito fio de prumo
que indica o centro da vida

 

Retrato de Pasolini em Nova Iorque

Vejo-o nesta fotografia em Times Square
agitado como era
por desejos, por desesperos em sucessão
diante de uma irónica parede publicitária
com as palavras Castro e Coca-Cola

Vejo-o vestido no modo mais sincero
como um desses miúdos dos College
conscientes da sua elegância
nem ingénua nem mítica:
a camisola vistosa, de uma cor inacreditável
calças de veludo, um pouco estreitas
sapatos de couro perfeito

Quando se encosta à janela onde a luz bate
sobre os olhos lúcidos, dissidentes, provocatórios
sobre a face imutável e emagrecida
percebemos então a idade que tem:
os seus quarenta e quatro anos
a somar aos setecentos que teria hoje Boccacio

Não houve aqui noite passada
que não desse por si sozinho
nas estradas escusas do Harlem, de Greenwich Village ou de Brooklyn
em bares onde nem a polícia entra
à procura daquela América infame
de onde regressava
já quase manhã
com os restos de uma canção
que não queria esquecer
e o corpo derrubado pela surpresa
de estar vivo

No verso desta fotografia
que me acompanha há tantos anos
escrevi também uma frase sua
sobre a blasfémia
que a santidade tem de ser
E ao balcão deste café, não longe de Times Square
dou comigo a pensar
confusamente em tudo isto

 

Quando Deus vacila em mim

Quando Deus vacila em mim
sem adornos, ataduras, sem outro pretexto
Quando o sinto a ponto de perder-se
na folhagem a meu lado
compreendo o grande mistério
uma lei face à qual as palavras
não servem

Deus abraça o meu vazio profundamente grato
Abraça a imundície de todos os seus filhos
e continuamente declara-os bem-aventurados

Pois Deus sendo casto deixa-se consumir
com a paixão insultuosa
dos devassos

 

O silêncio (segundo Angelus Silesius)

Deus ultrapassa tudo
nada se pode dizer
a tua oração seja
a prece do silêncio

Cala-te, cala-te, dileto
aprende ainda a calar
A prodigalidade de Deus
só a alcança
a prece do teu silêncio

Ninguém fala menos do que Deus
em nenhum tempo, em nenhum lugar
A Palavra que Deus pronuncia
é silêncio

 

Voto de pobreza

Escolheram viver em casas frias
com enfermos, bêbados, criminosos
e podem descrever muitos tipos de piolhos do corpo
Deixam que os olhos se mortifiquem
na visão de excrementos e membros mutilados
bocas, narizes, olhos
(não são pecadores decentes
os receptores do amor de Cristo)

A frugalidade alumia neles o que vem
a escassez interpreta a oferenda
mas tendo esvaziado assim os seus celeiros
ainda dizem
«nada entreguei»

pois a pobreza verdadeira não é essa:
é aceitar que depois de tudo
o pai do filho pródigo não queira saber
porque se parte
ou porque se regressa

 

Peregrinação

Liga o braço longe a uma estrela
Prende distâncias que teus pés ignoram
as árvores cruzam desse modo os seus ramos
enquanto as multidões falam
de milagres
que não viveram

 

[Em Deus tudo é Deus]

Em Deus tudo é Deus
uma simples folha de erva
não é menor do que o infinito

 

[Torna-te um perfeito estranho]

Torna-te um perfeito estranho
para a tua vontade
e prossegue

 

[O silêncio só raramente é vazio]

O silêncio só raramente é vazio
diz alguma coisa
diz o que não é

 

[Contemplemos]

Contemplemos
o mundo
que não atravessamos

 

[A tua sede]

A tua sede peregrino
não se aplaca na água
mas pela pedra

 

[Agora só resta]

Agora só resta
tornares-te
o poema

 

Escatologia

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura

 

In "A noite abre meus olhos - Poesia reunida", ed. Assírio & Alvim
Edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 15.12.2015

 

 
Imagem © FNAC
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