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Lisboa

"Laranjas e Ginetes": poemas e orações de Federico García Lorca

"Laranjas e Sinetes" propõe em formar de sarau uma breve seleta de poemas do espanhol Federico García Lorca (1898-1936), que inclui uma "Ode ao Santíssimo Sacramento do Altar" e orações a Santa Lúcia e São Lázaro.

«Diremos de coração alguns, outros leremos, uns em português, outros em espanhol», acompanhados por «uma ou outra canção», convida o texto de apresentação da iniciativa dirigida por Miguel Loureiro, um dos intervenientes na próxima Jornada Nacional da Pastoral da Cultura, que a 21 de junho reflete em Fátima sobre as "Culturas Juvenis Emergentes".

As sessões, que decorrem até 20 de junho (de segunda a sábado às 19h00, aos domingos pelas 20h00) nos "Primeiros Sintomas (Rua da Ribeira Nova, 44, ao Cais do Sodré), contam com a participação de Inês Nogueira, Gonçalo Ferreira de Almeida, Vítor d'Andrade, Francisco Goulão e Miguel Loureiro.

A lotação é limitada, pelo que se aconselha a reserva prévia. Os bilhetes custam cinco euros.

 

Ode ao Santíssimo Sacramento do Altar

Cantavam as mulheres junto ao muro cravado
quando te vi, Deus forte, vivo no Sacramento,
tão palpitante e nu como a criança a correr
perseguida por sete novilhos capitais.

Vivo estavas, meu Deus, fechado na custódia.
Punçado por teu Pai com agulhas de lume.
Pulsando como o pobre coração de uma rã
que os médicos encerram num frasco de vidro.

Pedra de solidão onde a erva soluça
e onde a água escura perde seus três acentos,
erguem tua coluna de nardo sob a neve
sobre o mundo de rodas e falos que circula.

Eu olhava tua forma deliciosa a flutuar
na chaga de óleos e pano de agonia,
e semicerrava os olhos para acertar no doce
tiro ao alvo de insónia sem um pássaro negro.

É assim, Deus ancorado, que eu anseio ter-te.
Pandeiro de farinha para o recém-nascido.
Brisa e matéria juntas em expressão exata,
por amor da carne que não sabe o teu nome.

É assim, forma breve de rumor inefável ,
Deus em cueiros, Cristo pequeno e eterno,
repetido mil vezes, crucificado, morto
pela palavra impura do homem todo suado.

Cantavam as mulheres pela areia sem norte
quando te vi presente sobre o teu Sacramento.
Quinhentos serafins de resplendor e tinta
na cúpula neutra saboreavam teu cacho.

Oh Forma sacratíssima, oh vértice das flores,
onde todos os ângulos tomam as suas luzes fixas,
onde número e boca constroem um presente
corpo de luz humana com músculos de farinha!

Oh Forma limitada para exprimir concreta
multidão de clarões e clamor escutado!
Oh neve circundada por tímpanos de música!
Oh chama crepitante sobre todas as veias!

 

Santa Luzia e São Lázaro

(...)

Santa Luzia foi uma formosa donzela de Siracusa.
Pintam-na com dois magníficos olhos de boi numa bandeja.
Sofreu o martírio sob o domínio do cônsul Pascasiano, que tinha bigodes de prata e uivava como um mastim.
Como todos os santos, propôs e resolveu teoremas deliciosos, perante os quais quebram os seus vidros os aparelhos de Física.
Ela demonstrou na praça pública, perante o assombro do povo, que mil homens e cinquenta juntas de bois não podem com a pombinha
luminosa do Espírito Santo. O seu corpo, O seu corpanzil, tornou-se de chumbo comprimido. Nosso Senhor, certamente, estava sentado
com ceptro e coroa sobre a sua cintura.
Santa Luzia foi uma jovem adulta, de seios pequenos e ancas opulentas. Como todas as mulheres rudes, teve uns olhos demasiado
grandes, masculinos, com uma desagradável luz escura. Espirou num leito de chamas.

(...)

S. Lázaro nasceu muito pálido. Lançava um cheiro de ovelha molhada. Quando lhe davam uns açoites, lançava torrõezinhos de açúcar
pela boca. Captava os menores ruídos. Uma vez confessou a sua mãe que podia contar na madrugada, pelas suas pulsações, todos os corações que havia na aldeia.
Teve predilecção pelo silêncio de outra órbita que arrastam os peixes, e agachava-se aterrorizado sempre que passava por um arco. Depois
de ressuscitar inventou o ataúde, o círio, as luzes de magnésio e as estações de caminhos-de-ferro. Quando morreu estava duro e laminado
como um pão de prata. A sua alma ia atrás, desvirgada já pelo outro mundo, cheia de aborrecimento, com um junco na mão.

 

Rui Jorge Maritns
© SNPC | 10.06.13

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FotoFederico García Lorca

 

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Reservas: 962 566 961 / 933 559 591

 

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