

O carácter muda desde que se observem quatro condições: 1. Estar consciente do estado de sofrimento em que nos encontramos. 2. Reconhecer a origem do nosso mal-estar. 3. Admitir que existe uma maneira para ultrapassar esse mal-estar. 4. Aceitar a ideia de que, para ultrapassar esse mal-estar, devem fazer-se nossas certas normas de vida e mudar a maneira de viver atual.
Hoje proponho «quatro condições» para a formação do próprio carácter sugeridas pelo psicanalista Erich Fromm (1900-1980), extraídas daquela que foi uma das suas obras mais lidas, "Ter ou ser?" (1976).
Há um vocábulo que atravessa as linhas citadas, a palavra «mal-estar». Trata-se de uma sensação dificilmente definível: não é o simples mal físico, a indisposição que pode ser diagnosticada e curada. O mal-estar, que muitas vezes é atribuído não só a cada pessoa singular, mas também a toda uma geração, é uma inquietação, uma perturbação, um desconforto, uma insatisfação, um descontentamento, e ainda mais, que mina a alma e torna a vida privada de sabor.
Jovens e idosos, pessoas simples e cultas, crentes e agnósticos experimentam este estado de ânimo e, com frequência, não conseguem libertar-se. Alguns dos conselhos de Fromm são dados como adquiridos. Eu assinalarei sobretudo o último, o mais árduo.
Para reencontrar o gosto na vida é preciso, com labor, percorrer o caminho dos compromissos, dos vínculos, das obras, deixando-se também guiar por uma mão segura. É preciso saber agarrar alguma coisa que está fora de nós, emergindo das areias movediças. Neste sentido, o renascimento religioso e a aplicação constante podem ser a rocha a que segurar-se para voltar a erguer-se.
P. [Card.] Gianfranco Ravasi