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Maria Filomena Molder fala das coisas «amargas» e «inesperadas» do Eclesiastes, livro a «ser decifrado»

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Maria Filomena Molder fala das coisas «amargas» e «inesperadas» do Eclesiastes, livro a «ser decifrado»

"Lança o teu pão sobre as águas", primeiro versículo do capítulo 11 do livro de Qohélet (Eclesiastes) é a designação de um ciclo de quatro conferências sobre o livro bíblico que Maria Filomena Molder vai apresentar no mês de março, em Lisboa.

A frase que dá nome à reflexão introduz «imediatamente na atmosfera enigmática e não sentencial» do livro do Antigo Testamento, refere a professora catedrática aposentada no texto de apresentação.

«Qohélet não é o nome de ninguém. Na Vulgata passou a "Ecclesiastes", aquele que reúne, congrega, chama à reunião. Que tem ele para nos dizer? Coisas amargas, que despertam a repulsa, coisas inesperadas e surpreendentes, coisas que se contradizem e não podem deixar de se contradizer. Nenhuma delas nos deixa indiferentes», sublinha.

A especialista em estética, morfologia e filosofia da linguagem sustenta que o livro, incluído entre as obras sapienciais da Bíblia, é «um conjunto de axiomas e não de provérbios» que não foi «escrito para ser comentado por filósofos ou teólogos, mas para ser decifrado».

«Os axiomas ficam abandonados a eles mesmos, não fazem parte de uma cadeia dedutiva. Ter chegado a eles é sabedoria, e isso implica ter visto "estas coisas" repetidamente. Por isso as repetições não são problemas de estilo», refere a docente que integrou os quadros da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.

A leitora de Qohélet considera que o livro «não consola, dele não se pode tirar uma moral repousante que atribua sentido à vida, o que não deve ser confundido com Deus, porque Deus é uma evidência, o sentido da vida não».

«Como não sei hebreu, e os meus conhecimentos de grego são rudimentares, só posso comparar as traduções de [Guido] Ceronetti com as de outras línguas europeias, em particular, inglês, francês, alemão. Ele próprio fornece essa possibilidade», explica a vencedora do Prémio Pen-Club para Ensaio com "O Químico e o Alquimista. Benjamin, Leitor de Baudelaire" (Relógio d'Água, 2011).

«Por consequência, tenho em vista não só comunicar aquilo que vi nas palavras traduzidas de Qohélet, nas quais sopra o vento famélico, como promover a iniciação ao singular pensamento de Guido Ceronetti», conclui Maria Filomena Molder.

Na introdução ao livro do Eclesiastes na Bíblia da editora Difusora Bíblica, lê-se que a obra contém pensamentos, máximas e «considerações várias de cariz autobiográfico», em que « o autor chama a atenção para a finalidade da existência humana», num registo «realista, lúcido, inconformista e franco».

«Refletindo sobre a própria experiência, o autor não orienta o seu pensamento segundo um plano bem definido; vai seguindo a mesma dinâmica da vida, marcada por antinomias, paradoxos, enigmas, dramas, repetições, correcções, mistérios... e por clareiras de felicidade. E chega à célebre conclusão de que tudo é ilusão, isto é, inconsistente e incompreensível à razão humana.»

"Questões de filologia" (3 de março), "Redução do princípio do terceiro excluído" (dia 17), "Contra a idolatria do cérebro, a atenção ao ventre" (dia 24) e "Teologia mínima: o conceito de limite" (dia 31) constitui o programa das sessões, que decorrem às 18h30 no Pequeno Auditório da Culturgest, com entrada gratuita.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 06.01.2015

 

 

 
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Qohélet não é o nome de ninguém. Na Vulgata passou a "Ecclesiastes", aquele que reúne, congrega, chama à reunião. Que tem ele para nos dizer? Coisas amargas, que despertam a repulsa, coisas inesperadas e surpreendentes, coisas que se contradizem e não podem deixar de se contradizer. Nenhuma delas nos deixa indiferentes
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