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Cinema: “Minha mãe”

Imagem Póster (det.) | D.R.

Cinema: “Minha mãe”

Como se deixa partir uma pessoa, como se elabora o luto pela perda da mãe? E como chegamos (chegámos?) a conhecer aquela pessoa que chamávamos mãe? Como se volta ao cinema depois de ter vaticinado o imprevisível, e mesmo o inaudito (“O caimão” e, sobretudo, “Habemus papam”)?

E ainda, como se pode manter o rumo entre a necessidade de aderir ao real («quero regressar à realidade») e a de não condescender com o intimismo? Em síntese, como se pode colocar junto ao personagem Moretti o realizador Moretti, ou seja, o homem Moretti? Como pode a denotação afetiva «minha mãe», que nem sequer suporta irmão ou irmã (não se diz «nossa mãe») ultrapassar a individualidade, o individualismo, e fazer-se conotação universal, propriedade pública?

Por fim, como se faz num filme sobre um luto, melhor, num filme sobre o sentido da inadequação filial, profissional, de amizade, relacional e existencial, para inserir um outro filme sobre o mundo do trabalho que soa quase paradoxal, cirúrgico, sarcástica apologia do trabalho (que não é)?

“Minha mãe” é o novo filme de Moretti. Na perspetiva autobiográfica da perda da própria mãe, mas obviamente não só, Nanni enquadra o seu “alter ego” Margherita (Margherita Buy), uma realizadora comprometida com um filme sobre o mundo do trabalho, sobre a ocupação de uma fábrica recentemente comprada por um empresário estrangeiro, interpretado por um famoso ator americano, Barry Huggins (John Turturro).

Entretanto, a mãe Ada (Giulia Lazzarini) dá entrada no hospital, e Margherita, e sobretudo o irmão Giovanni (Nanni Moretti), cuidam dela. Margherita tem uma filha, Livia (Beatrice Mancini), nascida da relação com um homem com quem já não está, enquanto que Giovanni, engenheiro, está com uma licença sem vencimento.

Entre outros temas, “Minha mãe” é um filme sobre o diálogo e, ainda antes, sobre o ensino: em ambos os casos, sobre a “perda de”. Ada é a única que ensinou e sabe ainda ensinar, com reconhecimento social e reconhecimento individual: os seus antigos alunos conhecem-na melhor que os familiares, a neta só graças a ela pode pensar em aprender o latim.

Giovanni não, não ensina: pode recordar-se de um dativo, mas mais do que a mãe, está na expectativa, do trabalho e talvez da vida. Margherita também não ensina: é uma cineasta medíocre, como ela própria se considera, a quem todos concedem tudo, uma amante em fuga que não sabe estar no mundo a não ser pesando sobre os outros, constrangendo-os ao seu reflexo.

Mas que filme é “Minha mãe?” Talvez “O quarto da mãe”, mas comparativamente a “O quarto do filho” é melhor, muito melhor: Moretti mudou, amadureceu, o sadismo já não lhe interessa, e entre aquele e este filme abriu-se ao mundo. “Minha mãe” é fruto desta abertura ao mundo, ao outro, sabe elaborar o privado numa narrativa (mais ainda que história) pública: aqui Moretti vence o desafio, evitando condescender (e autoabsolver-se) no privado, mas reivindicando a possibilidade de traduzir a perda individual em benefício público, ou melhor, artístico.

E fá-lo reivindicando a adesão à realidade e, ao mesmo tempo, a concessão ao sonho de olhos abertos, aquele que temos quando a realidade é demasiado pesada: não queremos fechar os olhos, mas ver alguma coisa de diferente quando os nossos queridos, os nossos amores, carne e sangue, estão a partir. Porque o foco está na nossa inadequação ao mundo, à vida e à morte.

Moretti, di-lo no fim, olha para o amanhã sem esquecer a dor de ontem e a inadequação do hoje. Fá-lo com o seu cinema e fá-lo o seu cinema. Nem tudo é conseguido no filme, mas não são defeitos graves, porque “Minha mãe” sabe tratar-nos por tu. Melhor, por nós.

“Minha mãe” ganhou o prémio do júri ecuménico no Festival de Cannes de 2015, pela «exploração, fina e elegante, cheia de humor, de temas essenciais», como os «diferentes lutos» de que a vida confronta o ser humano.

Na página do júri ecuménico, composto por seis membros de países, culturas e pertenças religiosos distintas, lê-se que ao projetar a sua história sobre uma mulher, Moretti conseguiu distanciar-se das suas angústias.

«O que é espantoso neste filme são as frequentes mudanças de registo filmadas sem transições: a realidade desta jovem realizadora, espartilhada entre o luto da sua mãe e os seus problemas relacionais com a filha adolescente e o seu ex-amante; a história do filme que ela grava, contando a ocupação de uma fábrica por operários ameaçados de despedimento; o que se passa entre os atores durante a rodagem; e, finalmente, os estado de consciência da realizadora, entre recordações e angústia face ao futuro», refere a mesma fonte.

É através destes nós «que o personagem – e com ele, o realizador e o espectador – deve abrir um caminho rumo a uma melhor compreensão dos outros e de si», sublinha o texto.

 

 

Texto redigido a partir de: Federico Pontiggia/Cinematografo, Signis, Júri ecuménico no Festival de Cannes
Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Publicado em 25.11.2015

 

Título: Minha mãe
Realizador: Nanni Moretti
Intérpretes: Margherita Buy, John Turturro, Giulia Lazzarini, Nanni Moretti
Origem, ano: Itália, 2015
Duração: 106 min.
Estreia em Portugal: 26.11.2015

 

 
Imagem Póster | D.R.
Mas que filme é “Minha mãe?” Talvez “O quarto da mãe”, mas comparativamente a “O quarto do filho” é melhor, muito melhor: Moretti mudou, amadureceu, o sadismo já não lhe interessa, e entre aquele e este filme abriu-se ao mundo
Moretti reivindica a adesão à realidade e, ao mesmo tempo, a concessão ao sonho de olhos abertos, aquele que temos quando a realidade é demasiado pesada: não queremos fechar os olhos, mas ver alguma coisa de diferente quando os nossos queridos, os nossos amores, carne e sangue, estão a partir. Porque o foco está na nossa inadequação ao mundo, à vida e à morte
“Minha mãe” ganhou o prémio do júri ecuménico no Festival de Cannes de 2015, pela «exploração, fina e elegante, cheia de humor, de temas essenciais», como os «diferentes lutos» de que a vida confronta o ser humano
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