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Novas igrejas de todos os tempos: Órgão, o instrumento que pode nascer da arquitetura

Imagem Annakirche, Düren, Alemanha | 1954-1956 | Foto: Norbert Schnitzler | CC BY-SA 3.0 | D.R.

Novas igrejas de todos os tempos: Órgão, o instrumento que pode nascer da arquitetura

Tema: Arte

O órgão é um instrumento de grande valor artístico na vida da Igreja, quer a nível sonoro, onde se encontra a sua principal função, quer a nível visual, onde também é importante refletir sobre o seu papel. Dos diversos tipos de órgãos que podemos encontrar, será talvez possível dividi-los em duas grandes categorias – os instrumentos que nascem da arquitetura – cuja conceção parte primariamente de uma compreensão do contexto em que são construídos – e os instrumentos que se assumem como elementos mais independentes da arquitetura.

Acerca do primeiro caso, sobre o qual aqui nos concentramos, destaca-se primariamente a capacidade que estes têm de consolidar e expandir as ideias expressas pela arquitetura. Por vezes são peças de destaque no contexto do edifício, mas são-no sempre mantendo esta consonância com o que a arquitetura procura transmitir. Abaixo abordaremos dois instrumentos históricos e, seguidamente, quatro instrumentos contemporâneos, tentando encontrar matéria para reflexão adicional.

O órgão da Hofkirche de Dresden (Alemanha, séc. XVIII), construído por Gottfried Silbermann entre 1750 e 1755, surge no coro alto e aparenta ser um elemento de apoio à verticalidade expressa pela arquitetura, com uma composição de fachada onde a disposição dos tubos destaca o aumento de altura ao centro, auxiliada inclusive pela cor que se mistura com as paredes. A colocação do instrumento, totalmente apoiado no coro alto e sem elementos salientes ou suspensos, parece ajudar a enfatizar o peso que os pilares da própria igreja transmitem, pela sua espessura e regularidade.



ImagemÓrgão Silbermann | Hofkirche, Dresden, Alemanha | Séc. XVIII | Foto esquerda: Thomas Augustin | CC BY-SA 3.0 | Foto direita: Timo Sack | CC BY-SA 2.5

Já o órgão (séc. XVIII) da Archikatedra Oliwa (Polónia, séc. XVI), do organeiro Johann Wilhelm Wulff, tem um formato totalmente diferente com um desenvolvimento da caixa do órgão em formato côncavo, rematando a nave e encaminhando o olhar para o vitral no seu centro, representando a Virgem Maria. A colocação do órgão, em paralelo com o vitral que remata o altar no extremo oposto da nave, sugere uma atração para o centro da nave, entre dois pólos de grande intensidade, para um acolhimento no interior da igreja.



ImagemÓrgão Wulff | Archikatedra Oliwa, Gdansk, Polónia | Século XVI Foto esquerda: Diego Delso | CC BY-SA 3.0 | Foto direita: Julo | D.Púb.

Na contemporaneidade existem também variados exemplos de instrumentos cuja linguagem se adapta à do edifício onde se inserem, procurando uma complementação da arquitetura, muitas vezes através de uma linguagem mais geométrica.

O órgão da igreja do Sagrado Coração de Jesus (Nuno Portas e Nuno Teotónio Pereira, 1962-1970) assume um pouco do despojamento procurado pela arquitetura, libertando-se da caixa de ressonância (apesar do resultado sonoro negativo que acaba por sofrer) e procurando uma linguagem mais geométrica e abstrata pela disposição dos diversos tipos de tubos.



ImagemÓrgão Alfred E. Davies & Son | Igreja do Sagrado Coração de Jesus, Lisboa | 1962-1970 | Fotos: João Valério | CC BY-SA 3.0

O órgão da Fronleichnamskirche, em Aachen (Rudolf Schwarz, 1929-1930) apresenta uma caixa cuja geometria similar à nave e aos vãos segue a ortogonalidade muito estrita da arquitetura e limita a não-ortogonalidade dos tubos ao seu perímetro.



ImagemÓrgão Stahlhuth | Fronleichnamskirche, Aachen, Alemanha | 1929-1930 | Foto esquerda: Florian Monheim | D.R. | Foto direita: Norbert Schnitzler | CC BY-SA 3.0

Na Annakirche, em Düren, (Rudolf Schwarz, 1954-1956), o primeiro órgão (substituído em 2010) nascia como corpo que irrompe da parede, como uma planta que desabrocha entre as rochas, suspendendo-se e assumindo na cor da madeira uma relação com a pedra, ao mesmo tempo que a composição diagonal da caixa evidenciava a harmonia entre os pesos visuais desiguais das duas paredes – uma mais etérea, de vidro, e uma de maior densidade, de pedra – que apesar de distintas se equilibram.



ImagemÓrgão | Annakirche, Düren, Alemanha | 1954-1956 | Foto esquerda: Norbert Schnitzler | CC BY-SA 3.0 | Foto direita: Moritz Bernoully | CC BY-SA 3.0

A Herz-Jesu-Kirche de Munique (Allmann Sattler Wappner, 1997-2000) continua, já neste século, a tradição de pensar o órgão em função da arquitetura, propondo um instrumento de grande ortogonalidade onde apenas as variações dimensionais nos pés dos tubos criam ligeiras gradações nos reflexos da fachada do órgão.



ImagemÓrgão Woehl | Herz Jesu Kirche, Munique, Alemanha | 1997-2000 | Foto esquerda: Guido Wörlein | D.R. | Foto direita: Martin Falbisoner | CC BY-SA 4.0

Qual o papel visual do órgão na arquitetura contemporânea de igrejas? Continua a ser-lhe atribuído um papel significativo ou é antes um elemento que apenas é pensado após a construção, retirando-lhe capacidade expressiva? Como pensar o órgão atualmente?

 

João Valério
Publicado em 15.02.2015

 

 
Imagem Annakirche, Düren, Alemanha | 1954-1956 | Foto: Norbert Schnitzler | CC BY-SA 3.0 | D.R.
Dos diversos tipos de órgãos que podemos encontrar, será talvez possível dividi-los em duas grandes categorias – os instrumentos que nascem da arquitetura – cuja conceção parte primariamente de uma compreensão do contexto em que são construídos – e os instrumentos que se assumem como elementos mais independentes da arquitetura
Na contemporaneidade existem também variados exemplos de instrumentos cuja linguagem se adapta à do edifício onde se inserem, procurando uma complementação da arquitetura, muitas vezes através de uma linguagem mais geométrica
Qual o papel visual do órgão na arquitetura contemporânea de igrejas? Continua a ser-lhe atribuído um papel significativo ou é antes um elemento que apenas é pensado após a construção, retirando-lhe capacidade expressiva? Como pensar o órgão atualmente?
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