O Bem e os Bancos Alimentares Contra a Fome
«Uma das maiores injustiças do mundo contemporâneo consiste precisamente nisto: são relativamente poucos os que possuem muito e muitos os que não possuem quase nada. É a injustiça de uma distribuição inadequada dos bens e dos serviços originariamente destinados a todos. Tantas pessoas privadas do mínimo necessário à subsistência, de uma habitação condigna, de acesso a sistemas de saúde.
A nossa vida quotidiana deveria, por isso, nos vários planos em que se desenvolve a nossa intervenção na sociedade, ser norteada pela dimensão humana da questão social. Não podermos esquecer – e hoje mais do que nunca, dada a dimensão mundial que a pobreza e a questão social assumiram – as pessoas com fome, sem casa, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor. Os pobres, infelizmente, em vez de diminuírem, multiplicam-se, não só nos países em vias de desenvolvimento, mas, no que pareceria menos provável, também nos países desenvolvidos.
Tenho defendido o exercício da caridade em vez da solidariedade, termo talvez politicamente mais correto. Entendo que caridade é a solidariedade com amor pelo outro, é exercício do bem de forma desinteressada. O caminho da caridade é complexo e difícil. Mas é possível. São visíveis os sinais de esperança. é notório o caminho percorrido a nível dos direitos humanos e da aceitação dos princípios sociais propostos pela Igreja. Muitos países reconheceram “o direito a não ser pobre” como um dos direitos humanos. A cidadania ativa cresce em substituição da lógica da ajuda.
Há mais consciência da dignidade humana, há uma maior preocupação com a paz, com o respeito pelos recursos naturais, que são escassos e exauríveis. Apela-se à prática da solidariedade e à importância do voluntariado As Nações Unidas inscreveram no seu programa o período de 1997 a 2006 como sendo a “1.ª Década para a Erradicação da Pobreza”.
Não é possível saber se algum dia serão definitivamente erradicadas todas as situações de pobreza, mas cada um de nós deve procurar, à sua escala, fazer todos os esforços para, pelo menos, minorar os seus efeitos.
Partindo da própria definição de pobreza – pessoas que vivem em situação de privação por falta de recursos relativamente à satisfação de uma ou mais necessidades básicas, tal como estas se exprimem numa determinada sociedade – saliento o direito à alimentação, por ser uma necessidade básica, comum a todos os Homens, por fazer parte integrante da própria vida: sem comida não é possível sobreviver. É por isso imprescindível que nos empenhemos no combate contra a fome.
A lógica da sociedade de consumo em que vivemos não pode fazer-nos esquecer que a pobreza existe, e que cada um de nós tem a obrigação, como atores que não queremos ser passivos, de buscar uma sociedade mais justa, mas também como cristãos, de aceitar o desafio inovador de inverter a situação através da criação de respostas inovadores, eficazes e solidárias.
Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de pobreza. Cerca de 20% da população é pobre (2 milhões de pessoas); 200 mil pessoas têm apenas uma refeição completa por dia e 35 mil não têm nenhuma refeição completa por dia.
E não posso deixar de reconhecer que tudo isto tem um enorme grau de relativismo, como certamente o Alto-comissário das Nações Unidas para os Refugiados evidenciará de uma forma bem gritante. Não obstante, partamos, como aliás sugere a encíclica, do local para o global. Comecemos por tentar resolver os problemas com que nos deparamos nas nossas imediações e que está ao nosso alcance contribuir para a sua solução.
Para dar um exemplo da possibilidade de exercer o Bem comum não posso deixar de citar o caso do Banco Alimentar Contra a Fome.
A luta contra o desperdício é um elemento motor na ação dos Bancos Alimentares Contra a Fome. Vivemos numa sociedade que desperdiça muitas das suas riquezas e dos seus valores, já que a abundância dos seus bens, embora mal distribuídos, lhe faz esquecer a importância de cada um e a forma como dever ser otimizado para o bem comum.
A nível alimentar registam-se importantes perdas de produtos nos setores da produção, da transformação, da distribuição, do consumo pessoal e coletivo sem qualquer perturbação das consciências, embora se trate de bens indispensáveis à vida de cada homem e uma parte da humanidade se encontrar deles privada.
A alimentação não é comparável a mais nenhum bem. Está intimamente ligada à existência do ser humano, faz parte integrante dele, traz-lhe todos os dias os elementos de vida e, por isso mesmo, adquire um valor que nenhum outro bem de consumo pode ter. Merece o respeito e reveste até um aspeto “sagrado” em muitas civilizações. Ao desperdiçarmos um bem alimentar em bom estado, fazendo ele falta a um ser humano, cometemos uma injustiça.
É portanto preciso incutir em cada cidadão o valor e o respeito pelos bens alimentares, a forma de lhes dar a utilização mais correta tanto por si próprio, como pelas pessoas que deles se encontram privadas. Só dessa forma será possível desenvolver o espírito de partilha, promover o Bem comum.
Acredito que uma das razões da manutenção da pobreza é esta incrível perda de valores que impera nas sociedades atuais. A sociedade deixou de ter como principal ambição permitir que cada cidadão desenvolva todas as suas capacidades e talentos, todas as suas riquezas interiores para as acrescentar ao capital coletivo com vista ao bem comum. O individualismo engendra a ausência total do reconhecimento do valor dos mais fracos. As medidas sociais não terão qualquer resultado em matéria de erradicação da pobreza enquanto o Homem não for o valor de referência do progresso económico.
É nesta visão alargada que compreendemos melhor a frase da Madre Teresa de Calcutá quando afirmava “O que me escandaliza não é que haja ricos e pobres, mas o desperdício”, ou seja, é este espírito de não respeito dos valores do Homem e dos bens que estão ao seu serviço que cria e faz perdurar a pobreza.
O Banco Alimentar luta contra a destruição de alimentos, recolhendo produtos em perfeito estado de consumo para os distribuir, através de instituições, a pessoas que têm fome de pão e de afeto, para que possam reencontrar a dignidade muitas vezes perdida, a autoestima que as impede de sair do ciclo de pobreza em que muitas vezes nasceram.
A sua missão só pode ser levada a cabo com o apoio de numerosos empresários e empresas que, preocupados com o bem comum, com a justiça social, incorporam a responsabilidade social nas suas decisões de gestão.
O primeiro Banco Alimentar surgiu nos Estados Unidos, em 1966, quando o Senhor John Fanhengel – impressionado com a visão de uma mulher que procurava restos de comida nos caixotes do lixo para alimentar os seus nove filhos – decidiu pedir aos agricultores locais os restos das suas plantações de batatas. Em resposta ao seu pedido, viu-se a braços com vários camiões TIR cheios de batatas que distribuiu por associações de caridade.
Decidiu então criar uma organização destinada precisamente a “ir buscar onde sobra para entregar onde falta”: é esta a ideia base sobre a qual assenta toda a atividade desenvolvida pelos Bancos Alimentares. O seu nome “Second Harvest” inspira-se num direito consagrado na Constituição americana que permite aos carenciados recolherem as espigas que ficam nas searas depois de passar a ceifeira debulhadora. A ideia foi importada para a Europa, tendo-se disseminado por vários países, entre os quais Portugal.
Quando sabemos que existem pessoas ao nosso lado com carências alimentares gravíssimas, idosos que vivem apenas com o que lhes resta das reduzidas pensões de reforma depois de comprados todos os remédios de que necessitam, crianças que só comem o que lhes é dado nas creches ou ATL porque vivem em famílias desestruturadas, poderemos assistir impávidos à destruição diária de milhares de quilos de alimentos pelo simples facto do ano agrícola ter sido bom, e a produção superior ao esperado ou porque a imagem comercial da empresa se alterou?
Para já não falar do desrespeito pelo trabalho de cada homem (agricultor, empresário, industrial, etc.), que investiu o seu esforço e saber em cada etapa do processo produtivo… Muita desta pobreza tem uma natureza envergonhada e particular, que não pode por definição ser eficazmente assistida pelo Estado, por via do recurso a modelos uniformes, incaracterísticos e frequentemente impessoais. O acompanhamento dessas situações e uma ação eficaz para lhes dar resolução exigem proximidade e calor humano.
A ação do Banco Alimentar assenta na gratuidade, na dádiva, na partilha, no voluntariado e no mecenato. Ser voluntário não é só ajudar uma pessoa menos favorecida; é muito mais do que isso. É querer fazer o Bem, estar envolvido como participante em ações concretas; é um modo de estar na vida, por via da qual a participação ativa e responsável nas diversas estruturas da sociedade é um imperativo de cidadania; é exercício de civismo e de correponsabilidade pelo bem comum.
O voluntariado tradicional, embora muito importante, perdeu alguma da sua expressão. Vivemos tempos mais exigentes em que este tipo de trabalho passou a ter de estar integrado em atividades organizadas e a revestir uma natureza quase profissional, pese embora não remunerada; os voluntários passaram a ter de se assumir como agentes ou promotores de desenvolvimento em conjunto com outras entidades.
Cada pessoa dá em função da sua vontade, da sua disponibilidade. Mas existe um efeito multiplicador, em termos de resultados, da ação da sociedade civil quando reunida e organizada. O Banco Alimentar é um fantástico exemplo de união das vontades de empresas, doadores financeiros, voluntários e instituições de solidariedade social que, de forma coordenada, geral, resultados muito superiores aos que seriam obtidos se cada um desses agentes de solidariedade resolvesse agir isoladamente. O importante é o comprometimento e o reconhecimento de que cada um de nós pode fazer a diferença com a sua forma de estar na vida e com as suas opções. Contribuindo para o Bem.
Temos a ambição de chegar a todos os que necessitam da nossa ação. Queremos ser ainda mais eficazes na forma como desempenhamos o papel de intermediação entre aqueles locais onde abundam os bens alimentares e aqueles outros onde escasseiam. E queremos sobretudo – naquilo que é o nosso objetivo mais nobre e exigente, mas também porventura o mais difícil de alcançar – quebrar o ciclo da pobreza, procurando que a ajuda que chega aos mais carenciados colmate não só uma lacuna temporária, mas no essencial permita aos beneficiários encontrar um ponto de partida para uma nova vida digna e autónoma, não dependente de qualquer lógica assistencial.
Colmatar lacunas alimentares dos nossos concidadãos é promover o Bem? Acredito que sim. Não será fator exclusivo, como é evidente. Muitos outros estão em jogo. Mas penso que, resolvido este problema básico, ultrapassada esta dificuldade elementar, estarão mais facilmente reunidas as condições para que o Bem, aqui já no sentido mais lato, possa resultar e desabrochar de maneira mais natural.
Acredito que o Bem é difusor, ou seja, Bem gera Bem. (…)
Acredito, também, que o importante não são as virtudes pessoais, mas a graça que o Senhor põe em cada um de nós para realizar a Sua obra. O Bem flui naturalmente do Amor. E o Amor não é palavras: é sobretudo a atenção que dispensamos aos outros, sobretudo aos mais frágeis e desprotegidos.
Acabo com mais uma citação da Madre Teresa, essa santa que dedicou toda a sua vida ao exercício do Bem, pelo alívio dos sofrimentos dos mais fracos. “tudo o que não se dá, perde-se”. E o mundo em que vivemos não nos permite o desperdício de deixar perder o que quer que seja.» (Isabel Jonet, presidente da Federação dos Bancos Alimentares Contra a Fome).
Campanha de recolha de alimentos nos dias 30 de novembro e 1 de dezembro
Os Bancos Alimentares Contra a Fome realizam este sábado e domingo uma campanha de recolha de alimentos nos supermercados das zonas onde desenvolvem atividade no próximo fim de semana.
Será também possível contribuir até 8 de dezembro na campanha “Ajuda Vale”, bastando pedir um vale nas caixas dos supermercados com um código de barras específico para os produtos destinados aos Bancos Alimentares.
Está também disponível ainda uma plataforma eletrónica em www.alimentestaideia.net para doação de alimentos pela internet, que permite a participação na campanha de pessoas que habitualmente não se deslocam ao supermercado ou que residam fora de Portugal.
A campanha conta com a colaboração de mais de 40 mil voluntários, à porta de quase 1900 estabelecimentos comerciais.
Em 2012 foram apoiadas 2.221 instituições de solidariedade, que entregaram os produtos alimentares a mais de 389.200 pessoas, sob a forma de cabazes de alimentos ou refeições confecionadas.
Texto: Isabel Jonet
Sé de Lisboa, 10.5.2007
Excerto da intervenção numa das sessões da iniciativa “Eis o Homem”
in Vida Católica, n.º 26, maio/agosto 2007
28.11.13
Foto: Federação dos BancosAlimentares Contra a Fome








