

«Estou bem. Vivo num planalto a 2700 metros, como vegetais, leite, pouca carne, como o resto da população, as temperaturas são subtropicais, a grande diferença é entre estação seca e húmida, mas a saúde está ótima.»
Tem o sorriso distendido e o olhar límpido de quem está sereno, o arcebispo italiano Antonio Matiazzo, de 76 anos, emérito de Pádua. Ao anunciar que se iria retirar da sua missão diocesana, por ter chegado aos 75 anos, expressou a vontade de «ir como simples missionário para a Etiópia».
A 7 de setembro de 2015, faz hoje um ano, partiu para a sua nova casa, em Kofele, na circunscrição de Robe, confiada à proteção de Madre Teresa de Calcutá e orientada pelo religioso franciscano capuchinho Angelo Antolini.
Durante estes dias esteve em Itália também para representar a Prefeitura de Robe na canonização da irmã albanesa, partindo de novo para África levando consigo Enrico Rigoni, um “caseiro” «para ensinar a fazer queijo à população de Nansebo, comunidade a uma centena de quilómetros de Kofele», conta, sorrindo.
A Etiópia é um dos países mais pobres do mundo, o analfabetismo é elevadíssimo, há necessidade de instrução mas também de formação. E se os católicos são menos de um por cento da população, muita da atividade de promoção humana deve-se à Igreja: em Kofele a circunscrição católica gere a escola até ao oitavo ano e um “centro desportivo”. Anúncio do Evangelho e cuidado pelas pessoas caminham juntos.
Deixar tudo e ir ao encontro dos mais pobres do mundo depois de ter sido bispo, porquê? «A minha escolha vocacional inicial era missionária. Esta primeira chama ficou sempre acesa. A saúde permitia-mo e então iniciei uma pesquisa para perceber onde prosseguir o empenho da evangelização».
«Estava indeciso entre a Tailândia e África. Esta prefeitura tinha necessidade, era a mais pobre do ponto de vista eclesial, o clima era bom, e depois faz parte da missão o diálogo inter-religioso, e aqui estamos entre muçulmanos», afirma.
Em Kofele o “padre” Antonio vive com um capuchinho etíope e uma senhora que trata das tarefas domésticas. Semanalmente junta-se a ele, vindo da capital, Adis Abeba, o padre Bernardo Coccia.
A agenda do bispo missionário é densa, das catequeses às visitas às família, da escuta aos encontros de leitura e explicação das leituras dominicais, da missa ao mais recente curso de doutrina social da Igreja para quem tem formação mais avançada.
Entre estas ocupações não faltam ideias e projetos - uma cooperativa, uma escola técnica profissional, apoio às pessoas com deficiência - nem as alegrias, como o arranque no passado dia 19 de junho, solenidade do Pentecostes para a Igreja na Etiópia, de u ma pequena comunidade cristã em Kokossa, uma realidade que D. Mattiazzo seguiu e acompanhou semanalmente, ao preço de longas e por vezes cansativas viagens.
«É uma pequena cidade a 60 km de Kofele, o padre Angelo e o padre Bernardo tinham começado, eu tomei deles o testemunho. Mal cheguei comecei a ir lá todas as semanas. Formou-se um pequeno grupo, encontrei-me com eles e conheci-os um a um, e começámos o percurso do catecumenato. Trinta e seis foram admitidos aos sacramentos, outros estão a caminho.»
O que significa para eles tornarem-se cristãos? «Dizem que se sentem renascidos. Antes estavam abandonados a si próprios, agora sentem-se valorizados, sentem que há alguém que lhes quer bem, que há alguém enviado por Deus para eles».
«Outro elemento que deu muita esperança foi o início do microcrédito, para que, sobretudo as mulheres, pudessem comprar uma ovelha, o que aqui significa muitíssimo.»
Acolhimento, essencialidade, cuidado, alegria, são os sinais da Igreja que começa e que exorta: «Aqui a prática das obras de misericórdia corporais interpela-nos continuamente e o coração não pode ficar insensível perante tantas necessidades. Temos a experiência de que os pobres nos evangelizam porque nos interpelam e nos provocam em relação ao nosso bem-estar e aos nossos estilos de vida», anota no seu diário o arcebispo Mattiazzo.
Sara Melchiori