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O horizonte ético e espiritual de um'"A Noite de Natal"

Imagem Raul Brandão | D.R.

O horizonte ético e espiritual de um'"A Noite de Natal"

Ainda que apareça como criação menor na obra genial de Raul Brandão e até na do seu dileto colaborador Júlio Brandão, a peça "A Noite de Natal", representada no Teatro de D. Maria II em 13 de janeiro de 1899, não deixa de apresentar vários aspetos do seu texto literário e das suas soluções cenográficas dignos de uma análise em ordem ao entendimento da situação e das tendências da literatura dramática e do teatro  em Portugal na viragem para o século XX.

Drama de costumes com matriz no realismo queirosiano, "A Noite de Natal"encontra novas fontes de tensão dramática por entre sensíveis incidências do Decadentismo na construção sob o signo da fatalidade; mas sobretudo distingue-se pelo protagonista vindo da estirpe romântica do artista maldito mas reconfigurado como “gebo” brandoniano e pela pertinência de uma leitura simbolista aberta a uma ética da piedade cristã e a uma estética da ternura.

Enquanto drama de costumes, "A Noite de Natal"constrói a tensão dramática, a progressão da expectativa e o clímax da emoção pelo contraste que se gera entre o carisma beatífico e harmonioso do Natal e a manifestação dolorosa do adultério, do desgosto de Damião e do sentimento de culpa de Márcia; e, por outro lado, pelo como que desdobramento dessa ironia trágica do ambiente de consoada e da preparação da festa familiar em múltiplas atitudes e situações de idêntica ironia em que incorrem pessoas que rodeiam afetuosamente as personagens centrais da crise e mesmo, durante algum tempo, o herói do conflito psicológico-moral.

A consoada tradicional tornar-se-á tema recorrente dos contos neorromânticos de Júlio Brandão no século XX; mas, na longa e decisiva cena final, o patético – da vertigem suicidária de Márcia, da angústia de Damião e Luísa, da dor de quase todos – vive encadeado com o burlesco (de Soromenho embriagado) à maneira de Raul Brandão.

Mas é sobretudo a figura do santeiro Damião, com o peso superior que lhe cabe na estrutura da peça, que faz d’"A Noite de Natal"um texto dramático representativo da atmosfera literária do fim-de-século – e da filtragem das correntes determinantes dessa atmosfera pela sensibilidade criativa de Raul Brandão, em busca de um universo estético-ideológico superador daquele substrato queirosiano e decadentista.

O termo-chave para a configuração de Damião é «grotesco», com sua simbiose de seriedade risível ou de gravidade caricata, de fealdade estranhamente cativante e de terna bondade estranhamente desprezível. Criatura grotesca, classifica-o de chofre Artur, e aceita-o como tal, com restrições, Márcia; grotesco, acha Artur o santo da cena 3ª do Ato I, à imagem e semelhança de Damião; grotesco se julga o próprio Damião e grotesco teme ser visto pela filha no diálogo patético com Márcia, a seguir à revelação da infidelidade conjugal no fim do Ato II. Esta natureza grotesca traduz-se em traços de má conformação física, de inibição psicológica e de estigmas que relevam simultaneamente do anímico e do corporal: as indicações preliminares dos autores, caracterizam-no como criatura feia, que arrasta uma perna e corcova um tanto; Artur, o cínico amigo da casa e sedutor de Márcia, descreve-o logo de entrada como ser vesgo e torto; o próprio Damião, num diálogo ainda eufórico com Márcia, se tem por feio e aleijado, semelhante a um sapo; muito tímido e desajeitado, por vezes custa-lhe a falar e arrasta um envelhecimento precoce; por consequência, é alvo da chacota e do compadecimento públicos; enfim, na ótica mundana constitui «um ser que ninguém vê para que vive». Só que esta mesma personagem é de bom coração, terna e convivente o recato familiar, com suas íntimas regras de vida e razões de viver, simultaneamente malferido pelo mundo e dele soberanamente alheado. Enfim, o Damião d’"A Noite de Natal" constitui já um dos "gebos" de Raul Brandão. 

Todavia, trata-se bem de um gebo do fim-de-século, «Sempre despedaçado e sempre bom!...», marcado pela tensão de esteticismo e inquietação espiritual, cuja condição de artista sobre que impende a predestinação maldita permite entrever uma superação da crise decadentista por uma arte de correspondências transcendentais. Se pela sua própria atividade criadora o grotesco santeiro e marido traído induz uma correlata conceção da existência - «vida, amargura» -, ao mesmo tempo sublima as suas humanas limitações na vivência serena da auscultação estética de uma vida superior – buscando a plenitude pela participação artística numa realidade não decaída, onde os seres se recriam segundo afinidades primordiais, obedecendo a um princípio espiritual, «a alma – qualquer coisa sobre-humana» que Damião, contra as vistas comuns de Artur, considera extasiadamente haver feito irradiar da melhor imagem que esculpira.

De qualquer modo, a “santidade” que catalisaria esta intermotivação simbolista de vida e arte aparece-nos já com o selo do Raul Brandão da maturidade, nitidamente impresso na evocação do santo na cena 3ª do Ato I e no depoimento de Damião na cena 7ª do mesmo Ato. Aquela imagem, a suprema criação artística do protagonista, tem uma alma excelsa num corpo grotesco e o seu modelo histórico tinha uma historia bela de sofrimento. Da cena 3ª retira-se a afirmação de que todos os homens santos poderão ter uma história de sofrimento como aquele modelo. Na cena 7ª fecha-se o círculo, porque aí Damião estabelece que grandeza, beleza e até verdadeira e inesquecível vida só brotam do sofrimento.

Mas esta cena 7ª do Ato I dá também à santidade, sempre associável a aparências e a situações grotescas, um outro toque que, ao arrepio dos pendores obsessivos do fim-de-século para o insulamento, para o aristocratismo estético e para o metaforismo monacal, releva do espírito da obra de Raul Brandão em maturação e, nomeadamente, do opúsculo "O Padre" e da narrativa "Os Pobres" em breve redigidos: «Tudo deixou, não para vir viver num … como se diz? num ermo… um egoísta. Foi viver com os pobres, com os desgraçados, a … a salvá-los.»

 

José Carlos Seabra Pereira
Diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura
Publicado em 28.12.2015

 

 
Imagem Raul Brandão | D.R.
É sobretudo a figura do santeiro Damião, com o peso superior que lhe cabe na estrutura da peça, que faz d’"A Noite de Natal" um texto dramático representativo da atmosfera literária do fim-de-século – e da filtragem das correntes determinantes dessa atmosfera pela sensibilidade criativa de Raul Brandão, em busca de um universo estético-ideológico superador daquele substrato queirosiano e decadentista
Da cena 3ª retira-se a afirmação de que todos os homens santos poderão ter uma história de sofrimento como aquele modelo. Na cena 7ª fecha-se o círculo, porque aí Damião estabelece que grandeza, beleza e até verdadeira e inesquecível vida só brotam do sofrimento
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