

«Jesus - que a paz esteja com ele - disse: "O mundo é uma ponte. Atravessa-a, mas não te detenhas nela!"»
A uma quarentena de quilómetros de Agra, a capital indiana dos mongóis, célebre pelo seu inesquecível Taj Mahal, eleva-se a cidade fantasma de Fatehpur Sikri, edificada no século VI pelo imperador Akbar, fautor do diálogo inter-religioso. Na mesquita daquela cidade estava inscrita a frase atribuída a Jesus que hoje propomos, enquanto avançamos para o fim do ano.
O dito, naturalmente - que tem a sua força poética e espiritual -, brota dos Evangelhos, onde Cristo convida a procurar outro tesouro que não aqueles que oferecem a história e a terra, e a não afadigar-se na acumulação dos bens caducos (leia-se Mateus 6, 19-34 e Lucas 12, 16-31).
Um Evangelho apócrifo, atribuído ao apóstolo Tomé, contém este outro apelo de Jesus: «Sede gente de passagem». E a Carta aos Hebreus não hesita em sugerir ao cristão para «sair do acampamento» provisório em que nos encontramos, porque «não temos aqui em baixo uma cidade estável, mas andamos à procura da futura» (13, 13-14).
A nossa civilização é certamente de matriz sedentária, e isto é tão verdade que se detestam os nómadas que acampam às margens das nossas cidades. E todavia, nunca como nestes tempos a humanidade se fez tão frenética no querer viajar, emigrar, procurar. E muitas vezes esta pulsão interior é apenas sinal de descontentamento, insatisfação, de uma expetativa frustrada.
É por isso que é importante mover-se não só fisicamente, mas também espiritualmente, tendo fixa uma meta que dê sentido à existência. Além da ponte e do rio turbulento da história, procuramos um porto que no entanto esteja mais além, no infinito e nos vastos horizontes da alma.