

Agora podemos assassinar, roubar, violar, e todos continuam a dizer: é o mundo, é a vida. Agora somos homens sem remorso e sem pecados. Esta frase forte, mas muito certeira, foi extraída de um conjunto de meditações acompanhadas por versos que o P. David Turoldo (1916-1992) escreveu para uma revista.
Com efeito, nos nossos dias há uma espécie de resignação que nasce do hábito. A televisão enfurece-se até ao sadismo ao mostrar-nos todos os aspetos dos delitos, oferece-nos transmissões cada vez mais violentas e impudicas (e não só no sentido sexual), e nós, lentamente, perdemos a capacidade de nos indignarmos, habituando-nos ao mal como a um café que se toma todos os dias.
A frase «é o mundo, é a vida» torna-se o grande alibi para nos subtrair a todo o juízo moral sério e a todo o compromisso pessoal e social. Assim, cai-se progressivamente no ofuscamento da consciência e na perda do remorso e do sentido do pecado, como diz, justamente, o P. Turoldo.
A extinção do frémito da alma que reage ao mal é, infelizmente, um fenómeno fácil de verificar, como se lê num passo do romance “A feira das vaidades”, do inglês W.M. Thackeray (1811-1863): «Entre todas as faculdades morais, o remorso é a menos ativa, a que com mais facilidade se pode suprimir quando se desperta, sem contar que em muitos nunca se desperta».
P. (Card.) Gianfranco Ravasi