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História

"O Tempo e o Modo": uma revista diferente

Há cinquenta anos era criada a revista «O Tempo e o Modo», tão ligada ao Centro Nacional de Cultura, marco fundamental na renovação do debate de ideias no início dos anos sessenta, graças ao impulso, à premonição e à generosidade de António Alçada Batista (1927-2008) (AAB) e da equipa que constituiu na Livraria Moraes, num momento decisivo de mudança no destino português, aberto em 1958 pela candidatura presidencial de Humberto Delgado, pelo célebre memorando do Bispo do Porto dirigido a Salazar e por tudo o que se seguiu.

Não podemos compreender o que se passou até 1974, e depois, sem conhecer o que a geração que lançou a revista foi capaz de pensar e de agir. Basta folhearmos os números, para percebermos os sinais proféticos desconcertantes (perante a “desordem estabelecida”) e o anúncio de um caminho aberto, europeu, assente na democracia. AAB, no primeiro texto que assinou, usa, aliás, um eufemismo, que hoje quase nos faz sorrir: Em vez da referência às instituições democráticas, para iludir os censores, recorria à misteriosa expressão “instituições que pressupõem uma certa dialética”.

Os fundadores da nova revista pertenciam a uma geração não-conformista vinda dos movimentos católicos, desde o I Congresso da JUC (Juventude Universitária Católica) até ao jornal «Encontro», que rompera com o regime. As gerações conservadoras que vinham de antes da guerra mantinham os velhos temas e uma lógica de protecionismo, mas havia que romper fronteiras e abrir o caminho para a Europa e para novas instituições.

AAB iniciara o que designaria como a “aventura da Moraes”, a partir de uma velha editora da Rua da Assunção. Havia que aproveitar a oportunidade. “É preciso ter presente – diz AAB – que, nesse tempo, a Igreja, o Exército, o funcionalismo público e a burguesia de província (estruturalmente ligada à Igreja), constituíam as forças sociais de apoio da situação saída da Revolução de 28 de maio de 1926”. Havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas – com uma “revista de pensamento e ação”.

Pedro Tamen formularia o programa, com palavras claras: “A ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo.”

AAB era proprietário e diretor; João Bénard, chefe de redação e Pedro Tamen, editor, além de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira Em 29 de janeiro de 1963, dia dos anos de António, nascia “O Tempo e o Modo”, usando a fórmula de Tamen.

Mas seria uma revista só de católicos? Havia que seguir os passos de Mounier, que fizera de «Esprit» um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços. Havia outros católicos de um setor mais técnico (como Adérito Sedas Nunes ou Alfredo de Sousa), havia os jovens estudantes da greve de 1962 (como Manuel de Lucena, Jorge Sampaio, Jorge Santos e José Medeiros Ferreira, decisivos nos recentes acontecimentos) e havia os agnósticos, como Mário Soares e Salgado Zenha.

Abrir ou não abrir? – eis a questão. Foi feita uma votação. João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé-Maria para que o Espírito Santo nos iluminasse”. Resultado: cinco votos a favor da abertura, dois contra. A abertura estava decidida!

Perante a deliberação, AAB propõe o convite a Mário Soares e a Francisco Salgado Zenha. E entram Francisco Lino Neto (originário de uma família com tradições no Centro Católico, que questionava a política colonial do regime), Orlando de Carvalho, de Coimbra, Mário Brochado Coelho, do Porto (lembremo-nos da cooperativa Confronto e da editora Afrontamento). E, para surpresa de muitos, também surgiu o jovem Mário Sottomayor Cardia. Pouco depois, entrariam Vasco Pulido Valente, João Cravinho, Francisco Ferreira Gomes e Vítor Wengorovius.

O primeiro número era o espelho da abertura desejada: “Notas sobre a Perturbação de certas Sociedades Contemporâneas” de António Alçada Batista; “Em torno da Universidade” de Jorge Sampaio e Jorge Santos; “Oliveira Martins e a Questão do Regime” de Mário Soares; e ainda “O Concílio Vaticano II”, de M.M. (que escondia a verdadeira identidade do Padre António Jorge Martins). A secção que mais críticas suscita é “Artes e Letras”. Manuel Poppe fala de “O Manto” de Agustina Bessa-Luís, António Ramos Rosa debruça-se sobre um texto de M.S. Lourenço (“O Doge”), Ruy Belo trata de Herberto Helder…

Mas onde estavam os autores críticos do regime? Alberto Vaz da Silva, responsável pela secção, ouve críticas muito duras… No quinto número, uma referência de Alçada ao “conformismo da esquerda bem pensante”, de que eram exemplo as práticas da “Seara Nova” suscita um pé de vento… Soares e Zenha procuram pôr água na fervura, mas uma nova guerra abriu-se. Sottomayor Cardia afirmou mesmo que o texto de AAB demonstrava um “sinistro conluio” entre a democracia cristã e a social-democracia, servindo “O Tempo e o Modo” de capa oportuna e oportunista para esse terrível entendimento. Anunciou então que se demitia e que exigia a publicação de uma carta a esclarecer tudo. Mário Soares tentou promover um “comité” que acalmasse o “rapaz”. A diligência pareceu produzir efeitos positivos. Aparentemente, Sottomayor Cardia foi serenado. No entanto, poucos dias depois, a “Seara” publicava a carta, com foros de escândalo, antecedida de um elogio de Rogério Fernandes, diretor da revista da Rua Luciano Cordeiro.

Esta dissidência causou perturbação em “O Tempo e o Modo”. Jorge Sampaio, Manuel de Lucena e João Cravinho inquietam-se. Uma polémica com a “Seara” seria altamente inconveniente. Soares toma a pena e redige um editorial muito hábil, recusando o divisionismo. “O Tempo e o Modo” não atacou nem atacará a “Seara Nova” – “revista por cujo passado tem o maior respeito e cujo presente aprecia”.

No número 6, novo tema quente, Vergílio Ferreira e Alexandre Pinheiro Torres envolvem-se numa polémica sobre o neorrealismo. A revista não fugia a questões incómodas e faz o seu primeiro número especial sobre “A Arte deve ter por fim a verdade prática?”. O tema era difícil. E houve que ir buscar os prós e os contras, sem apresentar sombra de pecado. Jorge de Sena, Eduardo Lourenço, António Pedro, José-Augusto França colaboram. Mas as vozes do outro lado foram ouvidas. Lá estiveram Óscar Lopes, Fernandes Fafe, Mário Dionísio, Batista-Bastos e Luís Francisco Rebelo. Foi, porém, um número civilizado e dialogante, que não deixou calmos os críticos e os desconfiados. João Bénard confessa que então percebeu “comme les républicains peuvent être réactionnaires en matière d’art».

Vasco Pulido Valente dirá: «‘O Tempo e o Modo’ não foi uma má revista. Longe disso». A verdade é que «o regime e o PC, ou os seus companheiros de caminho, dominavam e fiscalizavam a opinião pública e a produção académica, ensaística e cultural que se publicava. ‘O Tempo e o Modo’ recebeu e promoveu muitas vítimas deste arranjo», desde Vergílio Ferreira a Eduardo Lourenço, de Agustina Bessa-Luís a Sophia de Mello Breyner, passando por António-Pedro Vasconcelos e João César Monteiro.

Tudo foi possível graças à generosidade de AAB, que tinha um espírito aberto, que favorecia a liberdade, e que perdeu na revista uma fortuna, bem como de João Bénard da Costa que «conservou, contra ventos e marés, um fervor pela revista e uma convicção da sua importância que o sustentaram a ele e a nós em crises quase diárias e desesperos permanentes»… E reconhece “a satisfação de ter contribuído para erguer uma revista culturalmente marcante e onde se multiplicaram das melhores e menos estúpidas coisas que nesse período se escreveram na imprensa portuguesa”.

 

Capa

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Presidente do Centro Nacional de Cultura
Imagens: Hemeroteca Municipal de Lisboa
© SNPC | 03.02.13

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Capa do número 1

 

 

 

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